28 maio, 2005

Fuga ao desemprego

Se antigamente um “canudo” era a chave para se ser alguém na vida, hoje em dia apenas é um papel entre tantos iguais. Com a entrada de Portugal para a União Europeia, os horizontes alargaram-se deixando espaço para o desenvolvimento. Mas se, por um lado o desenvolvimento é positivo, por outro, parece dificultar cada vez mais o dia-a-dia.

Por: Cátia Videira

O mesmo pensa Maria Clara Silva, uma desempregada com 57 anos: «é muito complicado. As firmas fecham, saem de Portugal e cada vez o desemprego é mais elevado!» Maria Clara sente a idade pesar, o que não ajuda nada «...sendo mais de 50 anos, já não me aceitam em lado nenhum!...»

Pela experiência de vida que Maria Clara tem, a solução para acabar com o desemprego era muito fácil: «as firmas deveriam chegar a um acordo, ou seja, abrir empresas que oferecessem um certo salário (por exemplo, €250). Depois, quem quisesse esse ordenado base ia, quem não quisesse, não ia! Penso que evitaria a procura de mão de obra mais barata fora do país», sugere.

No entanto, e apesar da crise, hoje em dia quem está no desemprego é visto com maus olhos. Rita Abrantes, educadora de infância sem trabalho, diz-nos que «as pessoas não nos encaram: há sempre uma cara estranha e há sempre a resposta “não queres é trabalhar!”...É muito difícil numa situação destas arranjar ânimo para continuar a lutar». Para esta jovem de 30 anos, Portugal teria de «criar melhores condições de trabalho» pois, para ela, muitas vezes «existem os postos de trabalho, mas não têm condições» o que não aumenta a competitividade.

Por seu lado, os apoios do Estado também são poucos, no entanto «o fundo de desemprego não deveria acabar, pois a qualquer hora podemos estar na rua», afirma Elvira Lopes, de 45 anos, empregada de limpeza, «apesar de, para certas pessoas ele ser uma miséria, as despesas são certas e é tudo muito complicado sem alguma ajuda...»

Muitos dos desempregados nesta situação acabam por se endividar ao pedir emprestado para sobreviver. Elvira Lopes teve sorte: conseguiu emprego. Não foi bem na área que procurava, no entanto, diz ter tido «melhorias na vida, pois sempre é um ordenado fixo no fim do mês». Assim, Elvira aconselha a lutar com persistência, pois «lutando pode-se sempre arranjar alguma coisa porque estar no fundo de desemprego não chega...!».

Exemplo de sucesso

Quando entramos num centro de emprego, encontramos pessoas de qualquer faixa etária, e isso é desanimador. Porém, nos dias de hoje, ideias empreendedoras vão surgindo.

Na zona de Viseu está em construção uma Ecopista no desactivado ramal ferroviário do Dão, entre Viseu e Figueró. Este espaço será dotado de um espaço central, com três metros de largura, revestido a “flurry” (um material aderente), destinada à circulação de bicicletas, cavalos e outros meios de transporte.

Mas o que este espaço tem de verdadeiramente espantoso é o facto deste investimento contemplar exclusivamente jovens licenciados no desemprego, em particular, na área da Educação Física.

Fernando Ruas, presidente desta autarquia, refere que se pretende que «seja assegurado o acompanhamento dos utilizadores da Ecopista; que promovam acções pedagógicas, orientando e ensinando práticas desportivas básicas, como correr ou andar de bicicleta correctamente».

Embora este trabalho só vá ser desenvolvido aos fins-de-semana, visto que é nesses dias que se prevê uma maior utilização da futura estrutura de lazer, os concorrentes não perdem coragem e garantem que se vão esforçar.

Como garante Elvira Lopes, os desempregados dos dias de hoje podem vir a ser «os génios do futuro», basta poderem ter uma oportunidade para que tal aconteça

A presença feminina em áreas de trabalho masculinas

As mulheres têm conseguido, cada vez mais, infiltrar-se em actividades e profissões quase exclusivas dos homens. Resta saber: serão elas tratadas de igual para igual?

Por: Leonora Gonçalves

“Aos homens, os seus direitos, e nada mais; às mulheres, os seus direitos e nada menos”. A frase é de Susan B. Anthony, uma das primeiras feministas da história do século XIX. Hoje, enfrenta-se o terceiro milénio e podemos afirmar que grandes transformações se procederam na sociedade ocidental. As mulheres têm direitos que Susan jamais imaginaria e, contudo, continuam a procurar um estatuto de igualdade ao escolher profissões porque lhes agrada, e não porque são ‘adequadas’ às mulheres.

Apesar da constatação de que a presença da mulher no mercado de trabalho é uma realidade incontornável, muitas das justificativas dos empregadores para não contratarem mulheres ainda se prende a uma classificação estanque dos papéis do Homem e da Mulher. Nos empregos dominados por homens, este preconceito observa-se de forma ainda mais marcante.
De acordo com Lina Coelho, docente da Faculdade de Sociologia de Coimbra, «ainda há uma ideia pré-concebida de que algumas actividades profissionais são para homens e outras para mulheres».

Lina Coelho vai ainda mais longe ao afirmar que há uma concepção generalizada de que «as mulheres irão, eventualmente, abandonar os seus empregos para terem filhos e que, portanto, o emprego deve ser atribuído a um homem porque permanecerá no emprego e dará menos encargos à empresa». A docente diz constatar que «esta é uma realidade que requer uma preocupação adicional nos países latinos, sociedades caracterizadas por uma visão muito tradicionalista da mulher».

Segurança no Feminino

Virgínia Aguiar, oficial de segurança do Instituto de Medicina Legal no Porto, é segurança há 11 anos e diz, no entanto, nunca ter tido problemas com os colegas de trabalho: «no meu emprego anterior só havia homens e senti-me sempre à vontade», afirma. De acordo com Virgínia, «alguns homens ainda têm dificuldade em aceitar as mulheres em posições de autoridade... Quando apanho o autocarro para o emprego, vejo que alguns parecem ter um certo medo e nem se sentam ao meu lado», diz.

No que diz respeito à presença de mulheres na sua profissão de segurança, Virgínia afirma que existem muitas na área da segurança «e, até, como guarda-costas!». Lamenta, no entanto, que um homem consiga emprego na sua área muito mais facilmente que uma mulher: «as empresas ainda pensam que um homem impõe mais respeito do que uma senhora», lamenta.

No que respeito à escolha de uma profissão de algum risco, a funcionária do Instituto de Medicina Legal diz que sua profissão «é tão perigosa como outra qualquer». E acrescenta, irónica: «conduzir nas estradas é de certeza mais perigoso». Virgína confessa ter tido alguma preocupação por parte dos seus familiares quando escolheu ser oficial de segurança: «ficaram com algum receio, mas viram que era o que eu queria fazer e conformaram-se!...», conta.

Mulher ao volante

Emília Silva, taxista há 5 anos, diz ter escolhido a profissão simplesmente porque gosta e não vê nenhuma razão para que uma mulher não deva ser motorista de táxi. «Eu volto todos os dias para casa às 10 horas da noite, não corro perigo e ganho o meu dinheiro: é um emprego como outro qualquer», afirma.

A taxista refere que nunca sentiu nenhum tipo de preconceito por parte dos passageiros. «Eles bem ficam surpreendidos e olham-me com um ar de curiosidade, mas têm respeito», explica. Segundo Emília, o problema, com efeito, centra-se nos colegas de profissão. Os taxistas têm uma atitude antipática com Emília, que não se sente bem-vinda na sua paragem de táxis.

O preconceito no trânsito está presente no dia a dia da taxista, que revela ser alvo constante do nervosismo de alguns condutores. Mas salienta que esta não é uma realidade apenas das taxistas, mas de todas as mulheres que costumam conduzir um carro. E como reagem os taxistas à presença de um membro feminino na frota? «Não conheço nenhuma senhora taxista!...» e não prestaram mais declarações.

Correio!

Ouve-se o som estridente da campainha e, ao atender, o morador ouve uma voz feminina a pedir que abram-lhe a porta. “É o correio!” anuncia, rapidamente, Maria João Ribeiro, funcionária dos CTT do Porto há 8 anos. Para saber perceber melhor o dia-a-dia de uma carteira, a ‘Pessoas revista’ seguiu-a, porque «o correio tem que ser entregue a horas!», informa-nos seriamente.

Para Maria João, há muito poucas mulheres no serviço de entrega, pois preferem trabalhar no atendimento. Quando questionada sobre a possível dificuldade em carregar tanto peso, refere que isso não é problema: «nós temos carrinhos quando a correspondência é muita, não é um esforço muito grande!».

Confrontada com a afirmação corrente de que as mulheres não são tão dedicadas ao trabalho quanto os homens, Maria João rebate enfaticamente: «os homens são muitas vezes mais preguiçosos e querem fazer as coisas a despachar, mas ninguém se importa. Mas se uma mulher fizer qualquer coisa de errado é logo porque é mulher!...»

Subintendente no feminino

Paula Peneda foi notícia, juntamente com a sua colega Madalena Amaral, em quase todos os Meios de Comunicação Social, ambas oficiais da Polícia de Segurança Pública (PSP), em Lisboa.
O motivo de toda a atenção é indiscutível: foram as primeiras mulheres a serem promovidas a Subintendentes dentro da PSP em Portugal e que irão, agora, frequentar o curso de promoção ao posto de Intendente.

Paula Peneda e Madalena Amaral terão a companhia de mais 40 Subintendentes, todos homens. Para além de comandarem divisões, as oficiais terão responsabilidades de chefia em todo o dispositivo da PSP.

A motivação apontada para a entrada na PSP por Paula Peneda, de 37 anos, é a vocação. Entrou para a PSP em 1985, após terminar o 12º ano. Nessa altura, estava na Escola Superior de Polícia, a começar o 2º curso de formação de oficiais de polícia. «Foi o único caminho que considerei seguir», diz.

A Subintendente diz que, desde que entrou, a PSP mudou muito quanto às oportunidades para as mulheres. «As diferenças são, essencialmente, de comportamento. Hoje, a PSP está mais receptiva às senhoras. Já somos muitas mais do que éramos quando entrei», constata.

Quando questionada sobre a possível discriminação das mulheres no seio da PSP, Paula Peneda pondera: «as coisas vão mudando com o passar do tempo e tudo está bastante diferente do que encontrei quando iniciei a minha carreira, há 19 anos. Penso que os colegas já se conformaram que têm que conviver connosco». Em relação ao futuro, a Subintendente mostra uma grande confiança. Se for aprovada em todos os cursos, poderá chegar a Superintendente Chefe aos 45 anos.

Sra. Presidente

O cargo político de Presidente da Junta de Freguesia em Portugal é, inegavelmente, ‘território masculino’. Ana Maria Silva Pereira é a presidente da Junta de Miragaia.

Dos 48 presidentes de junta do concelho do Porto é a única senhora. «Os eleitores não estão habituados a ver mulheres neste tipo de cargos. É uma questão de tempo até que haja muito mais mulheres a concorrer e serem eleitas para Presidente da Junta», esclarece.

A presidente diz existir uma enorme hipocrisia para com mulheres em cargos de responsabilidade política e salienta que o preconceito continua a existir na política, embora de forma disfarçada. «Os adversários sabem que não é politicamente correcto criticar uma mulher recorrendo à argumentos machistas. Ao invés, encontram formas de a acusar de incompetência e deixam o preconceito alheio fazer o resto», confessa.

Combatente no fogo

Andreia Carvalho, de 27 anos, é membro do Corpo de Bombeiros Voluntários do Porto. Para si, a escolha da profissão de bombeiro era inevitável. «Sempre quis... não consigo imaginar-me em nenhum outra carreira», confessa.

Quanto ao risco inerente à profissão, Andreia diz que «é uma opção de vida» e que todos os oficiais têm a percepção do perigo. «O treino a que somos sujeitos destina-se especificamente a diminuir as probabilidades de algo correr mal, nesse aspecto, as mulheres correm tanto risco quanto os homens», observa.

Andreia afirma ainda que a relação com os colegas é muito saudável, mas que têm uma tendência para a superprotecção das mulheres: «Numa situação de incêndio, eles estão sempre atentos onde nós estamos e se estamos a proceder de forma segura», diz. «Penso que é muito difícil para os homens entender que não precisamos de ser mais protegidas que todos», acrescenta.

Carreira estruturada

Engenheira civil da Edifer, um grupo empresarial da área da construção civil, Júlia Serra não tem dúvidas de que a mulher tem grandes possibilidades de ter sucesso em profissões maioritariamente masculinas. Na sua opinião criou-se um mito da inadequação da mulher à profissões das áreas ligadas à Tecnologia. «As mulheres não têm nenhum tipo de obrigação em seguir áreas ligadas às Ciências Humanas», refere.

Para Júlia Serra, é importante observar a evolução do papel da mulher na sua profissão: «quando obtive a minha licenciatura, era uma raridade encontrar senhoras formadas em Engenharia Civil. Hoje já observo um número razoável de mulheres nas empresas de construção civil, embora a predominância masculina seja inegável», esclarece.

Quanto questionada sobre como são as visitas aos empreendimentos em construção por parte de uma mulher, a engenheira destaca que não enfrenta qualquer problema. «Os operários fazem uma certa cerimónia comigo, mas o trabalho decorre da melhor forma possível», esclarece.

Júlia Serra discorda completamente da atribuição de falta de feminilidade às mulheres engenheiras. «De todas as engenheiras que conheço, nenhuma se encaixa no estereótipo masculinizado», afirma. E acrescenta: «pelo contrário, penso que é exactamente por ser uma profissão tão caracterizadamente masculina que procuramos usar roupas femininas, obviamente adequadas ao ambiente de trabalho».

A mulher no mercado de trabalho

Lê-se no Artigo 22º do Código do Trabalho vigente em Portugal que “todos os trabalhadores têm direito à igualdade de oportunidades e de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego, à formação e promoção profissionais e às condições de trabaho”. Este direito à igualdade é também assegurado na Constituição Portuguesa, assim como na Carta das Nações Unidas.

Estes diplomas vêm mostrar que, na actualidade, quase não existem vazios legais no que diz respeito aos direitos da Mulher no mercado de trabalho mas, infelizmente, ainda há um claro abismo entre a realidade jurídica e realidade prática. Constatam-se, de facto, claras diferenciações entre o estatuto feminino e o masculino nos postos de trabalho.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), num inquérito ao emprego em 2001, as mulheres continuam a ter salários mais baixos e apresentam uma taxa de desemprego mais elevada. O ganho médio mensal por actividade de uma mulher em 2001 era de cerca de 550 euros, valor claramente inferior ao masculino: cerca de 610 euros.

A título de curiosidade, informamo-nos sobre a presença de mulheres em algumas das grandes empresas portuguesas, ao que constatámos um quadro preocupante. Na Energias de Portugal (EDP), todos os 13 membros da estrutura de apoio ao Conselho de Administração são homens. Na Portugal Telecom (PT) os números são ainda mais impressionantes: em 23 directores administrativos não há, sequer, uma mulher. O porquê dessa exclusividade masculina nos órgãos de direcção não foi esclarecido pelas empresas referidas.

Os empregos não-tradicionais

Nos Estados Unidos da América, há uma organização denominada “Work4Women”(Trabalho para Mulheres), que disponibiliza informação e estratégias para ajudar a aumentar a integração feminina em empregos considerados não-tradicionais para o sexo feminino.

Ao contrário do que acontece em Portugal, nos EUA essa classificação - emprego não-tradicional - tem uma definição bem clara. O Departamento do Trabalho Norte-Americano define empregos não-tradicionais como aqueles em que as mulheres constituem até 25% da força de trabalho. Em Portugal não há uma denominação tão específica, mas é possível determinar algumas profissões como paradigmas da baixa inserção feminina.

Ao analisarmos dados do INE, observamos que, em 2001, 95% dos membros das Forças Armadas, assim como 76% dos operadores de instalações de máquinas e trabalhadores na área de montagem eram do sexo masculino. Por outro lado, cerca de 65% dos trabalhos administrativos eram realizados por mulheres.

Instituto Português da Juventude

Numa sociedade em que o apoio ao jovem é cada vez mais importante, o Instituto Português da Juventude (IPJ) existe para auxiliá-lo a enfrentar possíveis receios psiclógico-emocionais e sociais, e para lhe proporcionais oportunidades.

Por: Magda Neto

O IPJ é um organismo público tutelado pela Secretaria de Estado da Juventude que visa aplicar, no terreno, as políticas de juventude adoptadas por este. No entanto, possui autonomia administrativa e financeira.

Neste organismo governamental encontramos um conjunto de profissionais cujo trabalho visa dar resposta aos jovens que o procuram e proporcionar acompanhamento psicológico, vocacional, sexual e médico. O IPJ é «uma tentativa de permitir àqueles que são mais carenciados ou mais desfavorecidos terem igualdade de oportunidades», afirma Vítor Dias, técnico superior da delegação do IPJ do Porto, em representação da sua delegada, Margarida Almeida.

O IPJ tem vindo a revelar-se como uma ferramenta social activa que intervém para benefício do jovem e tenta igualar e proporcionar condições: por um lado, estes profissionais tentam combater a grande preocupação do emprego por parte dos jovens; por outro, a ocupação dos tempos livres destes nas férias por parte dos familiares e pais. E, na medida em que o jovem é o factor existencial deste Instituto, a sua passagem é um processo confidencial para lhe permitir salvaguardar a sua intimidade e para que se sinta mais à vontade.

Segundo Vítor Dias, «ao longo do tempo temos tido alguma capacidade de nos reconvertermos àquilo que são as necessidades e os interesses dos jovens em cada geração, interesses esses que vão evoluindo».

A proximidade à camada jovem advém de estratégias como feiras, seminários, acções de formação e sensibilização junto das escolas. A forma mais forte e fácil é através das várias Associações. Contudo, atingir esta faixa etária nem sempre é tarefa simples porque requer uma renovação constante dessas mesmas estratégias. Não basta a informação ser transmitida: torna-se crucial que o receptor a queira reter e fazer uso dela.

Sobre este assunto, Vítor Dias refere: «sentimos que, em muitos programas, há coisas que não chegam à maioria dos jovens, que se perdem pelo caminho e não sabemos muito bem porquê… Se calhar, o IPJ é uma estrutura que não é conhecida como devia. Há programas que, provavelmente, podiam ser um pouco mais conhecidos e mais divulgados, mas as principais opções são gastar dinheiro no apoio às associações ou no apoio directo aos jovens».

Na tentativa de travar esta situação, para além do atendimento profissional personalizado, a informação é obtida através de suporte em papel ou consultando o site oficial (www.juventude.gov.pt). O IPJ tem também uma relação com a imprensa, quer nacional, quer regional e local.

Para além da Juventude: o despertar para a problemática dos idosos

De algumas décadas para cá, a esperança de voda alongou-se de forma notável e as famílias começaram a ter que se preocupar com os seus idosos. De acordo com os dados do Ministérios do Trabalho e da Solidariedade Social, o número de pensionistas por velhice, de 1990 para 2004, subiu de 1.329.049 para 1.662.046, verificando-se, no grupo etário acima dos 84 anos a maior mudança: de 89.683 para 148.816. A Geriatria, especialidade médica dedicada aos idoso, tem-se tornado, portanto, um anecessidade crescente nesta nova realidade.

Por: Leonora Gonçalves

António Leushner, director do Serviço de Psicogeriatria do Hospital Magalhães Lemos, chama a atenção para a importância absoluta das Ciências Geriátrias, para além das estatísticas populacionais.

«A importância absoluta é a que resulta de que nós todos nos devemos preocupar com as pessoas mais velhas, com os processos de envelhecimento que conduzem a essa fase da vida e porque nós próprios nos relacionamos com o envelhecimento, à partida dos filhos, à solidão ...a um conjunto de problemas que está muito associado aos idosos», ressalta este profissional.

Leushner aborda ainda a relevância dos serviços psiquiátricos específicos para o cidadão sénior e esclarece no que consiste a Psicogeriatria: «É, de alguma maneira, o conjugar de duas preocupações: por um lado as da Geriatria e, por outro, as da Psiquiatria. E é disso que se ocupa, fundamentalmente: das perturbações mentais, de comportamento e psicológicas nessa fase da vida».

De acordo com Sara Melo, animadora sócio-educativa no Centro Social Paroquial de S. Tiago de Silvalde, ainda há alguma confusão em perceber no que consiste a especialidade.Para esta educadora social, «as pessoas que têm realmente conhecimento sobre a gerontologia e a geriatria são apenas os profissionais da área da saúde ou da solidariedade social» e a maior parte da população não têm qualquer ideia da distinção entre esta ciência e outra qualquer.

Quanto aos interesses e processos mais frequentes na Geriatria, a especialista Dolores Fernandez, docente da Universidade Fernando Pessoa, no pólo de Ponte de Lima, explica que qualquer patologia do adulto pode apresentar-se no idoso, mas neste a situação é mais complicada pela coexistência de outras patologias.

Dentre estas temos, como exemplos mais frequentes, insuficiências orgânicas e ósseas a vários níveis, demências, doença de Parkinson, diabetes, a síndrome de imobilidade (com as suas consequências) e os problemas de alimentação, levando muitas vezes a problemas graves de malnutrição.

Os Lares e as residências

A falta de formação dos auxiliadores para a saúde nos lares de terceira idade é uma das grandes deficiências no apoio aos idosos em Portugal.

De acordo com o Psicogeriatra António Leushner, «na grande maioria dos casos a preparação é muito próxima de nada e há muito poucas exigências de formação». Tem de haver, na visão deste Psicogeriatra, «uma formação prévia e também uma formação continuada do pessoal».

Directora de uma empresa pioneira no cuidado domiciliário a idosos, a “Avós e Netos”, Beatriz Pires repreende o fenómeno das residências assistidas, os denominado ‘lares de luxo’: «Parece que toda gente encontrou um problema: a velhice, a falta de natalidade... descobriram a pólvora. Decorrente disso, alguns grupos económicos resolveram tomar o seu filão de ouro. Criam-se, assim, exemplos mirabolantes de ‘residências assistidas’, que cobram preços exorbitantes e que são uma solução apenas para uma parcela ínfima da população», explica.

Sara Melo considera muito mais proveitoso a presença de um médico geriatra permamente ao invés de apenas duas vezes por semana. «Dessa forma, o médico poderia com muito mais eficácia ir ao encontro de muitas das doenças que os nossos idosos apresentam, dado que para serem ouvidos ou terem atenção os idosos, muitas vezes, começam a sentir dores que não existem e que nenhum medicamento consegue amenizá-las», salienta.

Abandono e Solidão

A falta de apoio dos familiares para com os mais velhos envolve questões económicas, mas também questões éticas. É impressionante constatar que nos hospitais portugueses existam de camas ocupadas por idosos sem qualquer tipo de doença, mas que não recebem alta simplesmente porque não têm para onde ir.

De acordo com o Psicogeriatra António Leushner, é essa negligência e abandono que leva muitas vezes a que os mais velhos desenvolvam problemas de saúde do foro psiquiátrico: «A solidão pode ser um sentimento que se sobrepõe ao isolamento, ou seja, as pessoas podem não querer ter muitos contactos sociais... Mas podem viver isso com angústia e a solidão é, de alguma maneira, o lado negativo do isolamento», explica.

Também Beatriz Pires aborda a problemática da solidão. «Uma pessoa que trabalhe sente que os dias passam a correr, mas para o idoso, que está em casa o dia todo, isso não é assim o que pode desencadar num sentimento profundo de tristeza», salienta a gestora.

Uma melhor forma de actuar

Dolores Fernandez defende que um profissional que trabalhe com idosos não pode abordar a Geriatria como uma ciência em si, «mas deve sim adaptar-se às características do subgrupo populacional no qual actua».

Na percepção da especialista devem ser quatro as preocupações primordiais de um Geriatra: (1) a promoção da saúde e prevenção das incapacidades da pessoa idosa; (2) a diminuição da mobilidade e o retardamento da dependência e institucionalização, (ajudando, assim, à permanência do idoso no seu domicílio com maior qualidade de vida possível); (3) a identificação das pessoas com maior risco de perda de autonomia e (4) a atenção à dependência nas actividades da vida diária.

A permanência do idoso no seu domicílio é um conceito novo e ainda pouco valorizado pelos poderes governamentais. Beatriz Pires alerta para a falta de apoios do Estado para soluções alternativas aos lares de terceira idade: «Se calhar é mais fácil legislar no sentido do apoio domiciliário ser comparticipado e que se criem condições para as famílias ficarem com os idosos em casa, do que estar a investir em lares, que demoram muito tempo a concretizar e que têm custos muito elevados», afirma.

Beatriz Pires aponta ainda para o bem-estar psicológico do idoso como mais um aspecto a considerar na solução do apoio residencial. Segundo a gestora, para os mais velhos, sair do local onde sempre viveram, «onde têm as suas memórias de vida, para residirem em lares é uma mudança muito drástica e traumática».

A educadora social Sara Melo, que já teve experiências de trabalho em lares de terceira idade, deixa uma possível solução para a problemática que envolve os idosos na sociedade em que vivemos: «Se fossem disponibilizados profissionais na área da Geriatria em diversos serviços da sociedade seria uma revolução em prol do bem-estar do idoso e da mentalidade do povo Português. Tenho a certeza que o idoso ganhava um espaço muito mais digno no seio da nossa sociedade e não aquela ideia de um ‘coitadinho’ sozinho, velhinho com frio e triste, que quase toda a gente tem em mente».

Vasco Almeida: Vocação - ciência genética

Por: Leonora Gonçalves

No seu gabinete na Faculdade de Ciências do Porto, o Professor Vasco Almeida recebe-nos para a entrevista.

Rodeado por artigos e trabalhos que representam anos de estudo e investigação, provavelmente indecifráveis ao leitor comum, relata-nos com surpreendente humildade a sua história e o seu percurso notável na área científica.

Vasco Almeida, de 47 anos, nasceu e foi criado no Porto. Desde muito cedo soube que sua vocação era a Ciência. Frequentou o curso de Biologia na Faculdade de Ciências do Porto e hoje é professor de Genética na Instituição que o viu formar-se.

A sua actividade profissional actual prende-se também com a biologia da reprodução, desenvolvendo investigação nesta área no Centro de Estudos da Infertilidade e Esterilidade (CEIE), uma das instituições de maior reconhecimento neste âmbito e que tem como objectivo o estudo e o tratamento de situações de infertilidade/esterelidade e aborto recorrente.

Vasco Almeida é um nome sonante no campo da investigação genética em Portugal e no estrangeiro, uma vez que fez parte da equipa de cientistas que desenvolveu a técnica do Diagnóstico Genético Pré-implantatório da Paramiloidose (também conhecida por “doença dos pezinhos”), permitindo que filhos de pais portadores da doença pudessem nascer saudáveis.
A relevância da descoberta é inquestionável, uma vez que a Paramiloidose é uma doença ainda sem cura e que tem, em Portugal, o maior foco do mundo em termos de número de casos diagnosticados.

«O apoio do Estado à investigação genética é muito precário», lamenta Vasco Almeida salientando que, em conjunto com seus colegas envolvidos nesta área, alertou inúmeras vezes para a falta de investimento em laboratórios minimamente equipados para a actividade científica, o que implica inúmeras dificuldades e entraves para uma evolução efectiva da investigação em Portugal.

Uma das propostas de Vasco Almeida é a criação de uma unidade laboratorial de genética no Hospital de Santo António, para dar respostas à estas necessidades, mas não pensa que seja exequível a curto prazo, ao menos, enquanto a escassez de apoios se mantiver. «Cada nova descoberta é um estímulo para gerações futuras» garante o professor e que, actualmente, sente por parte dos seus alunos, um grande interesse pela área de investigação genética.

Apesar do estatuto que conquistou, Vasco Almeida diz que nunca nos devemos acomodar e que «é preciso aprender sempre». Tem como objectivos profissionais a continuação do desenvolvimento de estudos genéticos quer da Paramiloidose, quer de outros tipos de doenças e também de estudos no campo da infertilidade masculina e feminina.

Jorge Sousa Braga: Doutor Poeta

Por: Leonora Gonçalves

Jorge Sousa Braga, de 47 anos, nasceu numa localidade perto de Braga, onde passou a maior parte da sua juventude até ingressar, no Porto, no curso académico no qual, segundo ele, tinha os olhos postos desde pequenino: Medicina. Como área de especialidade escolheu a Ginecologia/Obstetrícia, porque, afirma, «é onde tudo começa».

Actualmente, trabalha no Serviço de Ginecologia do Hospital de Santo António e dedica-se, também, à investigação genética e fazendo parte de uma selecta equipa no Centro de Estudos de Infertilidade e Esterilidade (CEIE), cujo objectivo é o estudo e o tratamento de situações de infertilidade/esterilidade e aborto recorrente.

Para o ginecologista, a sua especialidade profissional tem uma relação intrínseca com a investigação genética: «Numa primeira fase há a manipulação dos embriões e a sua implantação, que está no domínio da Genética e, depois, temos a Ginecologia e a Obstetrícia, na medida em que todo o desenvolvimento do bebé se passa dentro da mãe», explica.

Jorge Sousa Braga, no entanto, tem uma característica peculiar: o gosto pela Poesia. Já tem alguns livros de poesia publicados, especialmente dedicados às crianças, dentre os quais se destaca “Poemas com Asas”.

Sobre a possível incompatibilidade entre algo tão sentimental e íntimo como a Poesia e, a Medicina, uma ciência que implica distanciamento e imparcialidade, Jorge Sousa Braga desmistifica: «Essa é uma falsa ideia, a Poesia e a Medicina não são paradoxais. Na área da Genética, trabalhamos com Poesia pura. Os aspectos que envolvem os embriões, a fecundação e o deselvolvimento dos bebés também podem ser considerados poéticos».

Dentre os grandes feitos profissionais de Jorge Sousa Braga, destaca-se especialmente um, na área da investigação genética: a contribuição para que fosse desenvolvida a técnica do Diagnóstico Genético Pré-implantatório da Paramiloidose, vulgo “doença dos pezinhos”. Doença esta que, em Portugal, afecta milhares de pessoas, principalmente na região Norte do país.

Através desta técnica, foi possível pela primeira vez garantir que o filho de um casal portador da doença nascesse saudável. Foi, de facto, um verdadeiro marco na história da investigação genética.

Quanto ao futuro profissional, Jorge Sousa Braga pretende continuar a trabalhar na área do estudo da infertilidade e também no estudo de novas técnicas aplicada à Paramiloidose e à outras patologias. E, é claro, a escrever poesia.

Aninhas, a tasqueira

Começou a trabalhar no campo com apenas seis anos de idade. Ganhava cinco tostões por dia. Passou muita fome no «tempo da miséria». Ana Barbosa, ou Aninhas como é conhecida em Paranhos, é uma mulher com muitas histórias para contar. A maioria passadas na tasca que gere há 40 anos. Casada, com dois filhos e uma neta, dona Ana orgulha-se de dizer: «passei fome e muito trabalho, mas sempre fui honesta!»

Por: Luis Urbano

Numa destas manhãs, fomos encontrar na tasca “O Escondidinho”, Ana de Fátima da Costa Araújo Barbosa, de 60 anos, natural de Sequiade, Barcelos. No inicio, ficou um pouco inibida e sem saber o que nos contar porque, segundo ela: «o cantar também tem hora». Mas depressa se desinibiu e revelou-nos a sua boa disposição e, à conversa, ficamos a saber mais sobre esta popular personagem de Paranhos.

Pessoasrevista: Há quanto tempo é proprietária desta tasca?
Ana Barbosa: Há quarenta anos, ou seja, desde que casei com o meu marido. Já era dos avós dele, há mais de oitenta anos.

Prev: Que profissão tinha antes de casar?
AB: Era criada de servir na Trofa. Mas comecei a trabalhar muito cedo, ainda em Barcelos. Aos seis anos já trabalhava no campo e fazia recados. Tinha de ser... A minha mãe fazia tochas de palha de centeio para iluminar o caminho, porque acordava muito cedo e os caminhos eram muito perigosos. Eram caminhos de cabras cheios de moitas e silvados.

Prev: Teve uma infância muito dura?
AB: Mesmo muito. Passei muita fome, muita miséria. A fome era tanta que nem podíamos ficar muito tempo na cama a dormir devido às dores de barriga. Então, acordávamos muito cedo para comer as migas e ir trabalhar para ter o que comer à noite. Aos catorze anos fui trabalhar para a Trofa, também para o campo. Ganhava seis escudos por dia. Ganhei várias medalhas de ouro na feira da Trofa. Tinha sempre o gado mais limpo e bem tratado! Só mais tarde fui criada de servir.

Prev: Quando veio para o Porto?
AB: Aos dezoito anos. Vim trabalhar para um senhor que era dono dos terrenos onde agora está a Faculdade de Engenharia e as outras. Tinha de carregar hortaliça de madrugada daí até ao Bolhão. Carregava o mesmo peso que qualquer homem. Eu tinha muita força! Eram sacos com mais de 60 quilos. Às vezes chegavam aos 80! Também ganhava tanto quanto um homem! Oitenta escudos por mês! Iam sempre connosco dois homens para nos ajudar a subir e descer as paredes dos caminhos. Era muito duro. E se chegasse atrasada pagava a mercadoria que levava!

Prev: Até quando trabalhou no campo?
AB: Até aos 20 anos, quando me casei.

Prev: A partir daí a sua vida melhorou?
AB: Sem comparação! Passei por situações de morrer a rir! A vida, aqui na tasca, era muito bonita. Tinha um grupo de clientes muito engraçado. Mas já morreram quase todos e outros já não moram cá.

Prev: Recorda-se de alguma história engraçada que nos queira contar?
AB: UI! Tantas (sorrisos). Esta é uma das mais engraçadas: Tinha dois clientes mancos. Um de cada perna. Eram muito engraçados... Um dia cismaram que tinham de fazer uma corrida. E lá foram. Saíram para a rua, com o resto dos clientes a verem. E começaram a correr pela rua fora. O que era manco da perna direita teve sorte porque ficou com o passeio do lado da perna manca. Então correu com a perna esquerda na estrada e a perna manca em cima do passeio para ficar com vantagem. Claro que ganhou. O outro ficou muito atrás. Mas foi uma paródia com toda a gente a rir na rua!

Prev: Aos sessenta anos, a dona Ana tem muitas experiências e histórias para contar. Que balanço faz à sua vida?
AB: Graças a Deus, tive até agora uma vida muito feliz. Passei muita fome, muito trabalho mas sempre fui honesta! Honesta e trabalhadora! Comi muito pão com bolor. Não me fez mal nenhum! Não é com o bolor que fazem a terramicina? É remédio (gargalhada). Hoje posso dizer com orgulho que ninguém me tem nada a apontar! Nunca enganei nem roubei ninguém. Felizmente as coisas melhoraram a partir dos meus vinte anos. A partir daí tive uma vida muito alegre, muito bonita.