01 março, 2007
A vontade de Mariana
Por: Sandra Lopes Nogueira
Mariana Rocha de 27 anos, é advogada e nasceu no Porto. Ainda teve tempo para conhecer as cores, mas pouco mais. Quando chega ao 12º ano, perde integralmente a visão.
Em Portugal, o sistema de ensino integra as pessoas com deficiências físicas nas escolas normais. Foi o caso de Mariana. Até ao 10º ano teve o acompanhamento de um professor do ensino especial, que ia cerca de duas vezes por semana à escola. «Ajudava-me naquelas tarefas mais específicas, como passar texto para Braille», lembra Mariana.
Os livros que precisava tinham de ser passados a Braille, o que se traduzia numa grande dor de cabeça. Tudo porque este processo é muito lento e, por isso, Mariana nem sempre tinha os livros em casa desde o início do ano.
O que lhe valia muitas vezes, era o serviço de leitura especial da Biblioteca do Porto. «É um serviço realizado por voluntários que lêem os livros e os gravam em cassete. Os meus livros de história eram todos assim. Por um lado era bom, tinha os livros desde o início do ano, por outro era complicado, pois eram cerca de 20 cassetes», explica.
O importante – fundamental – eram o apoio e a compreensão dos professores e colegas. Disso, diz, não se pode queixar: «lembro que quando a professora escrevia alguma coisa no quadro, havia sempre algum colega que me ditava».
No Ensino Superior...
Na Universidade as dificuldades em conseguir material duplicaram. Dos livros que precisava, apenas uma pequena percentagem existia em Braille. Mas é a partir daqui que começa a utilizar a ferramenta que, sem dúvida, maior autonomia lhe veio trazer: o computador. Com ele tirava apontamentos, estudava e fazia os exames. Como? Mariana explica: «Era um computador portátil, igual a tantos outros, a diferença é que tinha um software, chamado leitor de ecrã, que lê tudo o que está no ecrã».
Lentamente, começa a deixar o Braille e passa a utilizar permanentemente o computador. E aparecem novos problemas, que, dsta vez, se prendiam com conseguir o material em suporte digital: «os professores não me forneciam livros, que eles próprios escreviam, em suporte digital, com receio dos Direitos de Autor», afirma a advogada.
Por isso, viu-se obrigada a recorrer a outro método muito mais trabalhoso e que nem sempre funciona, o da digitalização. «Fazia a digitalização do texto e depois o leitor de ecrã lia. O problema é que quando se trata de fotocópias não capta tão bem e se for letra à mão não consegue mesmo ler», conta Mariana, recordando o esforço da irmã: «Ela sofreu muito! Enquanto ditava eu escrevia no computador».
Apesar de acreditar que o acesso a livros está mais facilitado, Mariana considera ser urgente uma nova medida por parte das editoras, isto é, a comercialização dos livros em suporte digital, de modo a que os invisuais vejam o seu acesso facilitado.
Falta de meios
Manter-se informada e estar em contacto com aquilo que se passa à sua volta, nem sempre foi fácil. ‘Visão’ e ‘Jornal de Notícias’, são alguns dos poucos meios de comunicação impressos que disponibilizam edições em Braille. Recentemente foi lançada uma nova revista, a ‘Activa’. Uma ideia feliz, já que até ao momento era impossível para a Mariana o acesso às chamadas revistas cor-de-rosa.
No entanto, e numa altura em que as novas tecnologias dominam, estas iniciativas parecem um pouco tardias: «Hoje basta-me ir à Internet, abrir a página que pretendo e ouvir», comenta a advogada.
Contudo, como sempre, há mais dificuldades. É que para que os leitores de ecrã possam ler as coisas, os sites devem respeitar certas normas de acessibilidade, o que nem sempre acontece.
Mas afinal o que é isso de normas de acessibilidade? Mariana explica: «É uma resolução do Conselho de Ministros de 1999, que obriga todos os sites públicos a cumprir certas normas, que tornam os sites mais acessíveis, não só a nível dos leitores de ecrã, mas do ponto de vista da organização e do conteúdo, o que é vantajoso para todos, não só para os invisuais». Os STCP, Metro e Caixa Geral de Depósitos são apenas alguns dos sítios da Internet que não cumprem essas normas.
Além de todas as ajudas técnicas de que actualmente dispõe, e que a fazem conseguir levar uma vida em muito idêntica à de qualquer outra pessoa, Mariana conta com o Júnior.
Apoio a quatro patas
O Júnior é um Retriever do Labrador, um cão guia que foi educado pela única escola de cães-guia existente em Portugal. Trata-se da Associação Beira-Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV) que fica em Mortágua. Para o ter, a jovem advogada teve que esperar alguns anos.
Apesar de haver muita gente à espera para ter um cão-guia, só existem três educadores, neste momento a ABAADV não possui meios económicos para mais. Cada educador educa, na melhor das hipóteses, quatro cães por ano.
Para além de só ser permitido ter um cão-guia a partir dos 18 anos, o processo para a aquisição do cão é muito lento. «Para se inscrever deve preencher-se um questionário. Cerca de dois anos depois chamam para uma entrevista com a finalidade de ver qual o estado de orientação da pessoa, o equilíbrio e a audição. Um ano após a entrevista chamam para um estágio com o cão, que dura quinze dias».
E vale a pena esperar tanto tempo? Mariana não hesita: «Vale!». O Júnior, para além de estar sempre atento e disponível para ajudar, é muito intuitivo. Mariana conta orgulhosa que o seu Júnior é mais do que um cão guia, é um companheiro e um amigo.
Actualmente, quando acompanhado pelo utilizador, o cão guia pode entrar, segundo a lei prevê, em todos os locais de acesso ao público. Mas também aqui Mariana aponta uma lacuna: «A lei não prevê, em caso de incumprimento da mesma, uma coima. Essa é agora uma grande luta dos invisuais, ver a lei alterada e multados aqueles que não a cumprirem».
Modernas utilidades, mas...
Desde há dois anos que Mariana pode tirar partido de muitas das funcionalidades de um telemóvel, que antes apenas lhe servia para fazer e receber chamadas. Agora existem leitores de ecrã, que têm a mesma função dos leitores de ecrã para computador, facilitando a leitura do visorler. Um leitor de ecrã, por exemplo, custa à volta de 200€, mas a boa notícia é que o estado financia esta e muitas outras ajudas técnicas. O maior problema é a demora na entrega do material.
Existem muitas iniciativas em Portugal que têm como objectivo facilitar a integração do deficiente visual na sociedade. A voz indicadora das paragens no metro e nos autocarros é exemplo disso, por vezes a falha está na sua execução. É o que acontece no caso do Multibanco. «Existem apenas algumas máquinas com sistema de som, mas além de só estarem disponíveis quatro operações, não conseguimos controlar o som. Há máquinas que estão, literalmente, aos berros e outras que praticamente não se ouvem».
Mariana faz uma vida normal, enfrentando, como qualquer outro, as dificuldades do quotidiano. Todavia, no que respeita às infraestruturas, a advogada considera que já era altura de se fazerem certas alterações: «Não haver postes no meio do caminho, buracos ou obras indevidamente vedadas e sinalizadas, carros em cima dos passeios e passadeiras apagadas, pois os cães-guia não consegue encontrar as linhas para atravessar».
Os atrasos que se faziam sentir há alguns anos, em relação ao resto do mundo, são hoje praticamente imperceptíveis. Em termos de legislação, têm surgido muitas leis favoráveis aos eficientes visuais. A verdade é que ainda há muito por fazer, para que a vida de Mariana e de outras pessoas como ela, seja bem mais fácil.
01 junho, 2006
Sobrinho Simões: «o que me dá mais prazer é o trabalho em que vou ensinando e aprendendo»
Por: Maria de Fátima Assunção
Pessoas revista: Consegue destacar alguma das actividades que preenchem o seu vasto percurso académico/científico?
Sobrinho Simões: Consigo. Consigo distinguir como mais recompensadoras aquelas em que considero contribuir para que as pessoas aprendam alguma coisa, sejam médicos ou investigadores.
O que me dá mais prazer é o trabalho em que vou ensinando e aprendendo alguma coisa. Por outro lado, faço Medicina, diagnóstico de Cancro, todos os dias. Sou investigador. Agora, a actividade que me dá mais prestígio internacional é a função científica, sem dúvida.
Prev: Na sua essência, o que é o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto – IPATIMUP, quais as suas funções e objectivos, quais os seus sucessos efectivos?
SS: O IPATIMUP é uma Instituição que procurou juntar, professores universitários e investigadores de muitas faculdades. Tentou juntá-los tendo como objectivo estudar doenças humanas e, sobretudo, o Cancro.
Tínhamos gente que vinha das Faculdades e do mundo da Ciência, da Patologia Humana e da Genética. E fizemos uma Instituição que, na área do cancro da tiróide, do cancro do estômago, cancro da mama, está, na verdade, entre as melhores do Mundo. O que se prova não só pelas publicações. Fiz consulta para cancro da tiróide para dezanove países diferentes É assustador! Temos estes pequenos sucessos porque juntamos muita gente, de muitas faculdades.
A Fundação Luso-Americana pagou-nos, desde o primeiro ano, a vinda de avaliadores estrangeiros e concentramos as nossas sinergias em três ou quatro assuntos. Pela mentalidade portuguesa, teríamos não um, mas catorze pequenos IPATIMUPS e, no seu pequeno mundo cada um era o melhor de Portugal...!
Prev: Quais as consequências reais que o IPATIMUP tem para o Governo português, na perspectiva do investimento e da investigação, tendo em conta a sua projecção internacional?
SS: O Governo tem que consolidar Instituições. Não é dar dinheiro aos bocadinhos. Deve escolher as que lhe mereçam confiança e estabelecer com elas contratos-programa. No fundo, deve avaliar e recompensar. Tem de garantir as regras do jogo.
O Estado tem de introduzir no seu Orçamento Geral o financiamento-base das instituições e, depois, estimulá-las para que ganhem projectos europeus.Agora, não é criar mais função pública. É criar instituições sólidas, com um financiamento de base e, depois, trazer pessoas de fora para uma avaliação isenta.
Seria importantíssimo que o Governo também fizesse, no sistema universitário, o que tem feito no sistema científico: introduzir avaliação e prestação de contas. Deve introduzir-se isso, na Universidade.
Prev: Não considera, então, que o IPATIMUP tem sido subavaliado pelo Governo português...
SS: Não. Não temos nenhuma discriminação O que tem havido é algumas dificuldades nalgumas instituições do Centro e do Norte do país. Temos alguma dificuldade em competir com as instituições de Lisboa e Vale do Tejo que, geralmente, são protegidas.
Há, em Portugal, alguma tendência macrocéfala. Existem quinze laboratórios associados que estão espalhados pelo país, mas só três laboratórios de Estado foram criados na década de 50/ 60 e em Lisboa. Isto é um factor de assimetria assustador.
A capacidade de atrair miúdos para a investigação é muito diferente se se estiver numa região de laboratórios, ou não. No entanto, o meu laboratório tem sido muito bem tratado, dentro desta coisa de não ser lisboeta.
Prev: Que passos deveriam ser dados para fazer regressar a Portugal os investigadores que estão a desenvolver trabalho no estrangeiro?
SS: Criar as condições necessárias. Nós não pagamos mal: é uma questão de ambiente e massa critica e é, sobretudo, um problema institucional...
Não conseguimos criar em Portugal instituições sólidas, quer nas universidades quer nos institutos. Somos muito individualistas. Há um problema minifundiário.
Devíamos criar sinergias para podermos ser competitivos ao nível internacional. Somos competitivos nalgumas pequenas áreas de excelência, mas ganhamos poucos projectos europeus. Intelectualmente, não somos piores do que os outros competidores, o que não temos é nem organização, nem dimensão.
Prev: Tendo em conta a força que Portugal já esteve no Mundo, qual a sua opinião sobre o país de hoje, o que faltou e onde estaríamos?
SS: Hoje em dia, a globalização diminuiu muito a afirmação dos países. Portugal vai continuar a desempenhar o papel que conseguir, sobretudo, se alcançar a optimização das coisas em que somos bons e também as relações com o mundo que fala português e que é latino. Temos que privilegiar a nossa relação com o Brasil e com a África que fala português, até para resolver alguns dos nossos problemas de emprego...
Vamos ter, a curto prazo, um excesso de médicos e de técnicos. Um dos sítios onde devíamos ter uma colaboração muito eficiente e vontade mútua, era na área da Saúde, com o Brasil e com a África que fala português. A Medicina, as Ciências da Saúde, são instrumentos poderosíssimos de articulação entre os povos.
Prev: ...por questões de afinidade linguística!
SS: Não tenho dúvida nenhuma. Se for para os EUA, por exemplo, posso ter sucesso ou não: é um problema individual. Não posso articular uma estratégia com os EUA no domínio da investigação científica ou da Saúde, mas posso ter uma estratégia com o Estado brasileiro ou com um país africano!
Prev: A sua experiência profissional foi-lhe alterando ou enriquecendo a sua definição de Vida e de Morte?
SS: Foi, indiscutivelmente. Sobretudo, durante muito tempo, enriqueceu-me a ideia de Vida. A nossa investigação é, em vida, querer perceber a vida e como se organiza a vida. Com a morte do meu pai e com o nascimento da minha neta, do ponto de vista afectivo, estou muito mais atento ao problema da Morte, da minha morte.
Vamos vendo pessoas morrer, percebendo melhor os problemas do aumento da idade. Depois, há acontecimentos que são muito clarificadores: a morte dos pais (de qualquer um dos pais), é uma pancada. A morte de um irmão é outra, de grande violência, mas é exterior a nós... Percebi que ia morrer quando nasceu a minha neta.
Prev: Considera que o "modus vivendi" das sociedades ocidentais as torna mais vulneráveis às doenças do foro oncológico?
SS: Não, é só porque envelhecem. A não ser o tabaco que é, indiscutivelmente, um poderosíssimo causador de Cancro e os cancros de actividade profissional. Em termos de sociedades ocidentais, temos o tabaco e temos a velhice.
O cancro é uma doença da idade avançada e, por isso, vai continuar a aumentar, mas o número de pessoas que morrem desta doença está a diminuir. Há mais cancros, sobretudo porque, em Portugal, aumentou a esperança de vida o que fez aumentar a probabilidade de prevalência da doença e que é o que já está a acontecer nos países evoluídos.
Prev: E em Portugal há estatísticas fiáveis?
SS: Nós, em Portugal, não temos um registo de cancro nacional com dados actualizados: temos acesso aos dados das nossas Instituições. Por exemplo, eu sei o que se passa no Hospital de S. João. Porque é um grande hospital, posso usá-lo para comparar as tendências. Assim, sei que estamos a ter mais casos de cancro em todos os países do mundo ocidental, mas que não estamos a morrer mais dessa doença.
Prev: Vinte e seis anos após o seu pós-doutoramento, parece-lhe que as novas gerações podem ter esperança que o cancro poderá ter cura?
SS: Mais de metade dos cancros são, hoje, perfeitamente controláveis. A palavra Cancro, é uma palavra perigosa... No pulmão, estômago e pâncreas não estamos a lidar bem com ele. Por outro lado, no cólon, mama, próstata e intestino temos bons resultados.
As leucemias das crianças e os cancros da tiróide e do testículo curamos mais de noventa por cento. Este é um cancro muito frequente nos adultos jovens e está a aumentar, aparentemente, por causa da poluição das águas residuais, com todas as substâncias que parecem hormonas: os plásticos, os pesticidas, as pílulas femininas, etc.
Prev: É da opinião que não se deve esconder o estado do doente, como acontece, por exemplo nos EUA, ou considera preferível não dizer a uma pessoa que sofre desta doença, que não lhe resta muito tempo de vida?
SS: Isso é muito interessante. Nunca falei com um doente com cancro, enquanto seu médico. Sou contactado por um cirurgião, por um internista ou por um oncologista que me diz: "estude este caso e diga o que é que acha"...
A minha comunicação é com esse internista ou com esse cirurgião. Não tenho nenhuma experiência de comunicar aos doentes como profissional.
Como pessoa que anda metida nisto, tenho que arranjar um compromisso. Nunca podemos mentir aos doentes: temos é que se perceber muito bem como é que se diz a verdade.
A experiência que eu tenho, através de colegas com quem falo diz que quando um médico conhece o doente e vice-versa, o doente advinha pela expressão facial do médico, pela tristeza, que ele não tem boas notícias. Ora, se o médico demonstrar respeito, ternura, o doente sente-se mais à vontade para fazer algumas perguntas que são cruciais. E o próprio doente descobre a verdade. Tem que se ser muito cuidadoso…
Há outra coisa que é muito importante: é uma burrice dizer a uma pessoa que tem um tempo limitado de vida. O que se pode dizer é que: "Com a doença que o senhor tem, nesse estadio, pode durar muito, mas pode durar pouco. Se tem algum problema a resolver, resolva..."
Outra coisa que é preciso dizer aos doentes, é que, hoje em dia, há respostas terapêuticas inesperadas. Não vou dizer que o vou curar. Não vou mentir-lhe!... mas dizer-lhe que, se fizer a terapia indicada, há casos que têm muito boa resposta. Há que introduzir no doente alguma esperança, que não seja mentirosa, mas que seja reconfortante.
um dia ideal é «chegar a casa mais cedo para estar com a minha neta, a Mariana»...
Com uma forte ligação à família, que considera o seu porto de abrigo, para Sobrinho Simões, um dia ideal é «chegar a casa mais cedo para estar com a minha neta, a Mariana»...
Pessoas revista: Professor, tem hobbies?
Sobrinho Simões: Se tiver de identificar a minha obsessão maior, é o ler, porque foi o que perdi em relação à vida que levo. Para a lém disso, gosto de desportos colectivos e de andar junto do mar e da serra.
Por outro lado, como um terço dos meus fins-de-semana não são passados em Portugal, quando estou cá, vou para Arouca e para Vila Praia de Âncora, e aí ando de bicicleta. Também gosto muito de viajar e voltar aos sítios onde já estive.
Prev: ...e que temas gosta de ler?
SS: Gosto de ler tudo, com o disse, é de longe, a minha actividade favorita. Também sou um leitor obsessivo de jornais. Gosto de informação através do suporte físico.
Prev: Como é, para si, um dia ideal?
SS: Levantar-me com tempo para tomar o pequeno-almoço e ler os jornais. Num dia ideal, consigo ter tempo para ir almoçar com amigos ou a casa da minha mãe e poder "escapar", chegar a casa mais cedo para estar com a minha neta, a Mariana. Ler e ver um filme, também faz parte de um dia ideal.
Prev: Que papel tem a família na sua vida?
SS: Venho de uma família numerosa. Fui educado de uma forma patriarcal e matriarcal. Só aguento a vida que levo porque tenho uma família que me dá todo o apoio. A família é a única coisa que me liga de forma segura ao Mundo, é a grande instituição onde tenho a minha âncora.
Prev: Tem uma palavra para se definir?...
SS: "Professor"! ...porque é aquilo que gosto de ser, de ensinar e aprender.
Prev: Tem um lema para a vida?
SS: Trabalhar! Tiro muito prazer do trabalho. No limite, penso que ganhávamos em passar para as novas gerações que, seja qual for a evolução do mundo, há uma coisa segura: não conseguimos nada sem trabalho.
José Rodrigues: «as pessoas quando são velhas têm muitas histórias»
Foi nos jardins do convento de S. Paio, nas terras de Cerveira que a Pessoas revista encontrou o Mestre José Rodrigues a meditar entre as suas esculturas, que abençoadas pela aura franciscana se transformaram em seres íntimos e divinos. Debruçadas sobre a ilha dos amores e protegidas pelos montes que as cercam, as estátuas trocam com os visitantes deste convento-atelier-museu olhares de silêncio e cumplicidade.
Encontramos no convento a sua colecção de desenhos reunidos numa galeria onde estão expostos exemplares de Vieira da Silva, Augusto Gomes, Poussin, Dordio, Almada Negreiros, Soares dos Reis, entre muitos outros.
A capela barroca acolhe neste momento uma exposição ecuménica, que compreende deuses de várias culturas e séculos. Além destes espaços, existe também uma exposição de barros, à qual este escultor que diz ter mãos, de lavrado, porque são toscas… atribuiu o título de "Modelação".
Por: Rita Homem de Mello
Pessoas revista – Mestre, como caracteriza o seu percurso artístico?
José Rodrigues – Fiz Medalhística, Teatro, muitos desenhos para livros… A Medalha é uma prateleira que tenho mais na minha cabeça, no entanto, devo dizer que tive sorte porque desde muito cedo entrei para o Teatro.
Dediquei muito da minha vida ao Experimental, à Cooperativa Árvore, a Cerveira e Trás-os-Montes. Tenho sido uma espécie de cigano andante...! Onde chego tenho uma tese para semear! Às vezes nascem coisas bonitas, outras vezes… Nem sempre tudo corre bem, sobretudo quando se fazem propostas fora do tempo. E eu fiz uma proposta fora do tempo, em Cerveira, quando avancei com a Escola Superior de Arquitectura.
Ninguém acreditava, achavam que era contra natureza fazer uma Escola Superior aqui. Eu disse ao Ministro Valente de Oliveira que era aqui que eu queria fazer a Escola. Achava que era aqui havia condições.
Não era um capricho meu, porque aqui bem perto descia a Galiza e, antigamente, a Galiza não tinha nada...
Prev – Mas foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore... Hoje, como descreve a situação do ensino das artes em Portugal?
JR – Sim, criei, no Porto, a primeira Cooperativa de Ensino do país - a Árvore 3 - porque existe também a Escola de Artes e Ofícios, em Cerveira e no Porto, e há a Árvore - Casa Mãe, que deu origem a tudo isto. Hoje, já são outros directores.
Neste momento, a Árvore – Casa Mãe, atravessa um período muito grave. Grave, mas não mete medo... As pessoas quando são velhas têm muitas histórias. Boas e más.
Eu tive uma história logo ao 25 de Abril e essa sim foi terrível. Foi quando puseram a grande bomba nos edifícios culturais e a minha casa recebeu a maior bomba do país, tivemos essa honra… Destruiu a casa completamente, mas ao mesmo tempo, o Porto respondeu com muita afectividade. As pessoas diziam-me «coragem Zé, coragem!» e, de repente, houve uma solidariedade que eu não sabia que existia.
Não sabia que nós éramos tão conhecidos e amados pelo Porto! Foi um momento lindo e, em pouco tempo, a Árvore estava-se a pôr de pé. Os subsídios vinham de todo o lado.
Hoje, a crise é outra. Uma crise tem a ver com tudo, porque nada é isolado. E esta é uma crise económica... A Árvore tem-se tentado adaptar aos tempos, mas nós ainda não nos conseguimos adaptar ao tempo que está a acontecer neste momento. Há grandes modificações, as vendas são outras, os públicos a atingir também…
As grandes superfícies dão cabo dos pequenos mercados. Vendíamos muita pintura. Hoje, a pintura não se vende. No meio de tudo isto temos de descobrir novos produtos, o múltiplo, coisas mais pequenas… temos de inventar!
Prev – De tantos, qual é o material com que prefere trabalhar?
JR – Eu trabalho com tudo. Não tenho preferência. Tudo é nobre, desde o barro do homem da caverna, ao metal mais precioso! Não tenho preconceitos contra nada. Cada material tem as suas características. Em bronze faço determinadas coisas que não posso fazer em madeira, em madeira faço outras que não posso fazer em gesso, em gesso faço o que não posso fazer em areia...! Enfim, exploro conforme os materiais. Não há materiais novos. O Homem quer obra!
Prev – E gosta muito de enquadrar as suas obras com jogos de água...
JR – A água, o fogo, são coisas muito antigas. A água nasceu connosco, no ventre da mãe e é elemento de grande importância. É, ao mesmo tempo, o sítio onde tudo se vai depositar. As minhas emoções, as minhas experiências, as minhas frustrações vão para um grande poço onde se vai depositando o que é sujo e, passados uns anos, a água acaba por sair cristalina.
Para mim, a água é o cristalino. Ajuda a revelar-se. Às vezes utilizo a água e também uma coisa que é irmã da água, o espelho, que me ajuda a revelar-me e a revelar outros.
Prev – Os temas mitológicos são muito fortes nas suas obras. Qual a razão deste fascínio?
JR – Como bom transmontano que sou (porque sou meio transmontano, meio africano), a mitologia faz parte de mim. Eu sou um contador de histórias e conto-as desenhando, modelando, fazendo teatro.
Estou sempre a contar histórias...! Os transmontanos gostam muito de falar... a oralidade é o principal meio que escolheram para comunicar e como também sou judaico-cristão, desde sempre fui muito marcado pela Igreja. Desde pequenino fui educado a rezar o terço com as minhas tias, por isso, todo esse caminhar foi importante para mim.
Prev – Considera que ainda há lugar para os jovens talentos, em Portugal?
JR – Há muito espaço para os jovens. Não quero ser paternalista, mas os jovens têm de dar a mão ao passado e caminhar em frente!
Prev – Continua ligado à Bienal de Cerveira?
JR – Eu pertenço à Bienal. Eu fico sempre ligado às coisas que faço.
Júlio Resende: «as cores, às vezes, não têm nome»
Por: Rita Homem de Mello
Prev- Antigamente, os artistas mantinham fortes laços de cumplicidades, que, hoje, são invisíveis. De que forma viveu essa época?
JR- Era um tempo em que não havia regras, mas conceitos e não havia quem contrariasse os nossos, no campo das artes. Havia escritores que teriam um lado mais filosófico, contudo a Pintura estava mais cingida à realidade… não estávamos muito avançados.
Antes, eu via o mundo de outra maneira. Eu vinha de um meio cultural que derivava de um romantismo, que ainda se mantinha. Então, pensava que a Pintura seria o resultado do mundo exterior e que seria vista a partir do sensível de cada um… A Pintura era o resultado de um estado sensível e não de um estado espiritual…
Prev- Fale-nos um pouco da sua relação com Pedro Homem de Mello e Eugénio de Andrade.
JR- O Pedro e eu tínhamos uma diferença de idades e ele era um homem das letras enquanto eu, das plásticas. Eu era muito jovem quando tive um programa de rádio com os meus irmãos e para o qual resolvemos convidá-lo. Ele, com a sua magnífica voz e com um timbre que reflectia uma sensibilidade extraordinária, era o homem que via a poesia nos gestos das pessoas. Via o mundo com outra perspectiva. Convidámo-lo para porque nos interessava a sua poesia pura... há muitas maneiras de ver a poesia.
Quanto ao Eugénio, ele era possuidor de uma coisa muito dele. O Pedro e o Eugénio eram pessoas muito diferentes, com feitios muito distintos. Dei-me com os dois, mas nunca foi em simultâneo. Primeiro, privei com o seu avô, ele era professor, também como eu, e tínhamos espaços semelhantes.
Prev- Como descreve este afastamento entre os artistas de hoje...?
JR- Estamos a atravessar um momento em que o afastamento não é como alguém que limpa um espaço e varre tudo. Amanhã, a História vai ser vista de modo diferente. Há factos que vão ser procurados e a História vai saber como é.
Nos anos 30/40 ninguém falava de Arte Contemporânea. Claro que havia Arte, mas não tinha nome! Hoje, ninguém se apercebe porque ninguém toma atenção. O artista tem a preocupação (que não é lícita), de mostrar que está tudo mal. Mas, amanhã, vamos ver que a Arte são duas coisas em simultâneo: é a perspectiva de um futuro e é o não acabar com a harmonia, porque Arte sem harmonia não interessa ao Homem.
A Arte é algo vital, que resulta de um embate de ideias. É a perspectiva de algo que não se sabe o que é… A obra sai do coração e, só depois, a razão a encontra e lhe dá justificação.
Prev- Ensinou décadas na Faculdade de Belas Artes do Porto. De facto, a Arte ensina-se?
JR- Dava aulas de Desenho Geométrico e de Desenho à Vista... não era muito desligado do que queria ser, porém, nunca na minha vida quis dar conceitos irrecusáveis.
Penso que a cabeça é para reflectir. Eu prefiro duvidar. Disse no Ministério da Educação que a Arte não se pode ensinar, o que foi um escândalo! Não se pode ensinar porque não se domina por conceitos, senão todos pintavam de igual modo. A Pintura é uma pessoa a andar, a respirar…tal como a Poesia.
Prev- O que é, para si, o Lugar do Desenho?
JR- Lugar do Desenho é o resultado de um plano que tive toda a vida. Um plano a pensar numa finalidade comum. O Lugar do Desenho é um lugar simples de paredes nuas e com um jardim bem tratado. Eu gosto muito das flores e acredito que o Mundo se pode apreciar num palmo de terra…
Quis, com este lugar, abrir perspectivas para que as pessoas sintam, dentro de si, a Arte. Aqui não há visitas guiadas, mas acompanhadas. As pessoas têm que perceber por si e é no diálogo que se entendem. Isto não é para fazer artistas: é para evitar que uns entendam e outros não percebam nada. Pôr as pessoas a ver para lá do olhar, porque o olhar é diferente do ver.
Prev- A sua obra pode ser dividida em fases?
JR- Catalogar é só para arrumar as coisas nas suas gavetas. O público não tem nada a ver com o que vi em Goa ou no Brasil! Para o artista, o que é importante é sentir que o seu trabalho foi altamente solicitado, por questões novas.
A Pintura é uma estrutura que compreende cores, gestos e valores. O quadro é sempre uma arquitectura. Se o pintor vai ao Brasil, vê como se está a sentir e quando vai desenhar, o resultado desse sentir é diferente da visão que tem da Europa. Para mim, a Europa tem regras muito rígidas. Quando cheguei à América do Sul vi que as regras não fazem sentido e que os espaços são natureza geo-humana que determina o modo do pintor estruturar o seu quadro.
Prev- Tem uma cor preferida?
JR- Não gosto de nenhuma cor ou gosto de todas...! Pode haver um quadro de uma só cor ou de todas! As cores não se podem medir porque, às vezes, não têm nome…
28 maio, 2005
Vasco Almeida: Vocação - ciência genética
Por: Leonora Gonçalves
No seu gabinete na Faculdade de Ciências do Porto, o Professor Vasco Almeida recebe-nos para a entrevista.
Rodeado por artigos e trabalhos que representam anos de estudo e investigação, provavelmente indecifráveis ao leitor comum, relata-nos com surpreendente humildade a sua história e o seu percurso notável na área científica.
Vasco Almeida, de 47 anos, nasceu e foi criado no Porto. Desde muito cedo soube que sua vocação era a Ciência. Frequentou o curso de Biologia na Faculdade de Ciências do Porto e hoje é professor de Genética na Instituição que o viu formar-se.
A sua actividade profissional actual prende-se também com a biologia da reprodução, desenvolvendo investigação nesta área no Centro de Estudos da Infertilidade e Esterilidade (CEIE), uma das instituições de maior reconhecimento neste âmbito e que tem como objectivo o estudo e o tratamento de situações de infertilidade/esterelidade e aborto recorrente.
Vasco Almeida é um nome sonante no campo da investigação genética em Portugal e no estrangeiro, uma vez que fez parte da equipa de cientistas que desenvolveu a técnica do Diagnóstico Genético Pré-implantatório da Paramiloidose (também conhecida por “doença dos pezinhos”), permitindo que filhos de pais portadores da doença pudessem nascer saudáveis.
A relevância da descoberta é inquestionável, uma vez que a Paramiloidose é uma doença ainda sem cura e que tem, em Portugal, o maior foco do mundo em termos de número de casos diagnosticados.
«O apoio do Estado à investigação genética é muito precário», lamenta Vasco Almeida salientando que, em conjunto com seus colegas envolvidos nesta área, alertou inúmeras vezes para a falta de investimento em laboratórios minimamente equipados para a actividade científica, o que implica inúmeras dificuldades e entraves para uma evolução efectiva da investigação em Portugal.
Uma das propostas de Vasco Almeida é a criação de uma unidade laboratorial de genética no Hospital de Santo António, para dar respostas à estas necessidades, mas não pensa que seja exequível a curto prazo, ao menos, enquanto a escassez de apoios se mantiver. «Cada nova descoberta é um estímulo para gerações futuras» garante o professor e que, actualmente, sente por parte dos seus alunos, um grande interesse pela área de investigação genética.
Apesar do estatuto que conquistou, Vasco Almeida diz que nunca nos devemos acomodar e que «é preciso aprender sempre». Tem como objectivos profissionais a continuação do desenvolvimento de estudos genéticos quer da Paramiloidose, quer de outros tipos de doenças e também de estudos no campo da infertilidade masculina e feminina.
Jorge Sousa Braga: Doutor Poeta
Por: Leonora Gonçalves
Jorge Sousa Braga, de 47 anos, nasceu numa localidade perto de Braga, onde passou a maior parte da sua juventude até ingressar, no Porto, no curso académico no qual, segundo ele, tinha os olhos postos desde pequenino: Medicina. Como área de especialidade escolheu a Ginecologia/Obstetrícia, porque, afirma, «é onde tudo começa».
Actualmente, trabalha no Serviço de Ginecologia do Hospital de Santo António e dedica-se, também, à investigação genética e fazendo parte de uma selecta equipa no Centro de Estudos de Infertilidade e Esterilidade (CEIE), cujo objectivo é o estudo e o tratamento de situações de infertilidade/esterilidade e aborto recorrente.
Para o ginecologista, a sua especialidade profissional tem uma relação intrínseca com a investigação genética: «Numa primeira fase há a manipulação dos embriões e a sua implantação, que está no domínio da Genética e, depois, temos a Ginecologia e a Obstetrícia, na medida em que todo o desenvolvimento do bebé se passa dentro da mãe», explica.
Jorge Sousa Braga, no entanto, tem uma característica peculiar: o gosto pela Poesia. Já tem alguns livros de poesia publicados, especialmente dedicados às crianças, dentre os quais se destaca “Poemas com Asas”.
Sobre a possível incompatibilidade entre algo tão sentimental e íntimo como a Poesia e, a Medicina, uma ciência que implica distanciamento e imparcialidade, Jorge Sousa Braga desmistifica: «Essa é uma falsa ideia, a Poesia e a Medicina não são paradoxais. Na área da Genética, trabalhamos com Poesia pura. Os aspectos que envolvem os embriões, a fecundação e o deselvolvimento dos bebés também podem ser considerados poéticos».
Dentre os grandes feitos profissionais de Jorge Sousa Braga, destaca-se especialmente um, na área da investigação genética: a contribuição para que fosse desenvolvida a técnica do Diagnóstico Genético Pré-implantatório da Paramiloidose, vulgo “doença dos pezinhos”. Doença esta que, em Portugal, afecta milhares de pessoas, principalmente na região Norte do país.
Através desta técnica, foi possível pela primeira vez garantir que o filho de um casal portador da doença nascesse saudável. Foi, de facto, um verdadeiro marco na história da investigação genética.
Quanto ao futuro profissional, Jorge Sousa Braga pretende continuar a trabalhar na área do estudo da infertilidade e também no estudo de novas técnicas aplicada à Paramiloidose e à outras patologias. E, é claro, a escrever poesia.
Aninhas, a tasqueira
Por: Luis Urbano
Numa destas manhãs, fomos encontrar na tasca “O Escondidinho”, Ana de Fátima da Costa Araújo Barbosa, de 60 anos, natural de Sequiade, Barcelos. No inicio, ficou um pouco inibida e sem saber o que nos contar porque, segundo ela: «o cantar também tem hora». Mas depressa se desinibiu e revelou-nos a sua boa disposição e, à conversa, ficamos a saber mais sobre esta popular personagem de Paranhos.
Pessoasrevista: Há quanto tempo é proprietária desta tasca?
Ana Barbosa: Há quarenta anos, ou seja, desde que casei com o meu marido. Já era dos avós dele, há mais de oitenta anos.
Prev: Que profissão tinha antes de casar?
AB: Era criada de servir na Trofa. Mas comecei a trabalhar muito cedo, ainda em Barcelos. Aos seis anos já trabalhava no campo e fazia recados. Tinha de ser... A minha mãe fazia tochas de palha de centeio para iluminar o caminho, porque acordava muito cedo e os caminhos eram muito perigosos. Eram caminhos de cabras cheios de moitas e silvados.
Prev: Teve uma infância muito dura?
AB: Mesmo muito. Passei muita fome, muita miséria. A fome era tanta que nem podíamos ficar muito tempo na cama a dormir devido às dores de barriga. Então, acordávamos muito cedo para comer as migas e ir trabalhar para ter o que comer à noite. Aos catorze anos fui trabalhar para a Trofa, também para o campo. Ganhava seis escudos por dia. Ganhei várias medalhas de ouro na feira da Trofa. Tinha sempre o gado mais limpo e bem tratado! Só mais tarde fui criada de servir.
Prev: Quando veio para o Porto?
AB: Aos dezoito anos. Vim trabalhar para um senhor que era dono dos terrenos onde agora está a Faculdade de Engenharia e as outras. Tinha de carregar hortaliça de madrugada daí até ao Bolhão. Carregava o mesmo peso que qualquer homem. Eu tinha muita força! Eram sacos com mais de 60 quilos. Às vezes chegavam aos 80! Também ganhava tanto quanto um homem! Oitenta escudos por mês! Iam sempre connosco dois homens para nos ajudar a subir e descer as paredes dos caminhos. Era muito duro. E se chegasse atrasada pagava a mercadoria que levava!
Prev: Até quando trabalhou no campo?
AB: Até aos 20 anos, quando me casei.
Prev: A partir daí a sua vida melhorou?
AB: Sem comparação! Passei por situações de morrer a rir! A vida, aqui na tasca, era muito bonita. Tinha um grupo de clientes muito engraçado. Mas já morreram quase todos e outros já não moram cá.
Prev: Recorda-se de alguma história engraçada que nos queira contar?
AB: UI! Tantas (sorrisos). Esta é uma das mais engraçadas: Tinha dois clientes mancos. Um de cada perna. Eram muito engraçados... Um dia cismaram que tinham de fazer uma corrida. E lá foram. Saíram para a rua, com o resto dos clientes a verem. E começaram a correr pela rua fora. O que era manco da perna direita teve sorte porque ficou com o passeio do lado da perna manca. Então correu com a perna esquerda na estrada e a perna manca em cima do passeio para ficar com vantagem. Claro que ganhou. O outro ficou muito atrás. Mas foi uma paródia com toda a gente a rir na rua!
Prev: Aos sessenta anos, a dona Ana tem muitas experiências e histórias para contar. Que balanço faz à sua vida?
AB: Graças a Deus, tive até agora uma vida muito feliz. Passei muita fome, muito trabalho mas sempre fui honesta! Honesta e trabalhadora! Comi muito pão com bolor. Não me fez mal nenhum! Não é com o bolor que fazem a terramicina? É remédio (gargalhada). Hoje posso dizer com orgulho que ninguém me tem nada a apontar! Nunca enganei nem roubei ninguém. Felizmente as coisas melhoraram a partir dos meus vinte anos. A partir daí tive uma vida muito alegre, muito bonita.
Manuela Bacelar: traços de tinta
Tobias e Bulbina são personagens encantadas do universo ilustrativo das crianças. São também elas que ajudam a extravasar a timidez de Manuela Bacelar: «No ensino secundário, eu era má aluna e tímida. E, para sublimar isso, tornei-me um bocadoa palhaço da turma. Ainda hoje sou um bocadinho...», conta a pintora. Ou melhor, ilustradora, pois, como refere, «pintores há muitos».
Por: Inês Braga
Manuela Bacelar nasceu no Porto há 61 anos e, desde pequena, «inventava histórias, personagens». Ilustradora de muitos livros para crianças, não se revê no espaço da infância como fenómeno de catarse. A liberdade e o incentivo à arte eram solicitações e sensibilidades frequentes: «Não nos perguntavam se queríamos ir, mas sentíamo-nos muito contentes por ir à ópera, ao ballet. Também não havia televisão...», recorda.
Tudo começou quando Manuela decidiu, aos 20 anos, ir para Praga, onde foi bolseira, de 1964 a 1970, na Escola Superior de Artes Aplicadas (cursos de Ilustração e Animação). A República Checa foi, assim, «decisiva» no seu percurso artístico, permitindo-lhe ir além da Escola Soares dos Reis (onde concluiu Artes Decorativas, em 1963) e contribuindo para o amadurecimento do seu imaginário.
Naturalmente, o gosto pela pintura, o interesse artístico, a passagem por Paris - «óptima escola de observação» - permitiu-lhe absorver diversas correntes e estilos: «A minha cabeça é uma esponja de imagens, faz um batido e dá um toque especial», explica. Assim, Manuela não consegue dissociar a pintura da ilustração, acabando por «fazer da ilustração uma pintura em ponto pequeno».
As influências cinéfilas e teatrais são, também, intensas. Tirando os retratos ficcionados, Manuela parte de um ambiente que ela própria cria à sua volta: «Faço as minhas encenações a partir do teatro, da música, do caos do atelier. Faço encenação, na medida em que foram leituras daquilo que vi. Quando leio um livro de que gosto muito, sou capaz de meter 20 capítulos numa tela». Ao mesmo tempo, a sua vivência permite-lhe, hoje, encontrar e, não, partir em busca: «Já não sou jovem, já não ando à procura de nada, agora encontro, como dizia Picasso».
Esta artista figurativa já tem perto de 60 livros publicados em Portugal, França, Dinamarca, Espanha, Rússia, Marrocos e Líbano. E já ganhou, entre muitos outros, o prémio Gulbenkian (1990), a Maçã de Ouro, na Bienal Internacional de Bratislava com Silka de Ilse Losa (1989) e o Prémio de Ilustração do Ministério da Cultura/IBBY com A Sereiazinha de Hans Christian Andersen (1996). O reconhecimento pela obra feita fá-la sentir-se bem, ainda que seja um aspecto pouco consciencializado: «Sinto que isso é uma pessoa exterior a mim, ainda tenho muito caminho a fazer».
Conhecendo a obra da autora, nomeadamente, a exposição «Kafka para que vos quero», destaca-se esta grande inspiração que teve início no livro de uma escritora alemã sobre a vida de Milena Jecenská, companheira de Kafka. «Milena era uma jornalista fora do seu tempo... foi uma personagem que me marcou muito. Quando li o livro, há 15 ou 20 anos, comprei os Diários de Kafka e, desde então, que ele anda comigo. É como um parente: de vez em quando, entra-me no quarto sem pedir licença...»
A imagem feminina é também outro elemento saliente: «Quando pinto uma mulher começo pelos olhos e estes comandam tudo o resto, o tema vem do olhar». Aliás, a sensibilidade feminina é demarcada por Jean Perrot, Presidente do Institut International Charles Perrault, em França: «Devemos ler as suas ilustrações [referente ao conto O Barba Azul de Charles Perrault] como uma espécie de manifestação feminista protestando contra a visão masculina dos contos». De referir a forte importância de Perrault para a autora, observável na exposição realizada em Lisboa sobre Kafka e Perrault, em 2002.
As evocações e ideias de Manuela Bacelar despertam, no receptor das suas obras, sensações de inquietação e devir, mas também de bem-estar, de vida e de fruição que pairam num universo seu, muitas vezes sem título. É que a autora não dá nome a muitos dos seus quadros: «Já que nos livros tenho que dar nome às personagens. O máximo que posso nomear será uma exposição».
Entretanto, nomeou os seus mais recentes livros: Uma prenda muito especial e Sebastião, este último, só de imagens. Relativamente à pintura, a última exposição foi na Fundação Engº António de Almeida, em Abril do ano passado, e intitulava-se O traço debaixo da tinta. Quanto ao futuro, e à exposição de novas obras, Manuela Bacelar confessa, «estou a pensar expor em breve».
28 janeiro, 2005
Vincent Dioh: o mundo através da pintura
Por: Amanda Alves
Vincent Dioh tem nove anos de idade. Aos três foi-lhe diagnosticado autismo, uma perturbação no desenvolvimento. Por essa razão, Vincent não fala. No entanto, desde cedo começou a revelar uma tendência para a pintura: uma outra forma de expressar o que lhe ia na alma. «Começou por buscar canetas e lápis ao escritório de casa e riscava todas as paredes e brinquedos que encontrava», lembra Zélia Rocha, a mãe do menino.
A partir daí, e com o incentivo e apoio de Zélia, Vincent passou a transformar tudo o que tinha ao alcance em quadros e nunca mais deixou de pintar. Apesar de ser filho do pintor Mustapha Dioh, Vincent não herdou as características da sua pintura. Utiliza técnicas únicas no mundo, servindo-se de réguas, colheres e das suas próprias mãos, em vez do tradicional pincel. Acompanha ainda a realização das suas obras com música ambiente.
O seu atelier improvisado mostra-nos a ligação corporal que tem com as tintas e com suas pinturas. O chão e as paredes forradas a papel estão cobertas de um emaranhado de cores que escapam aos quadros.
Fora do atelier, as obras de arte desta criança também são uma presença constante, com quadros espalhados com cuidado pelas paredes, por cima das camas, pelo chão. Algumas estão encaixotadas.
As suas pinturas são abstractas e simbólicas, com uma grande diversidade e exuberância de cores que transmitem dinamismo e movimento. Está bem patente, também, a multiplicidade de imagens sobrepostas num mesmo quadro.
Em qualquer uma das obras, a mãe de Vincent Dioh consegue sempre encontrar uma interpretação e um significado, como é o caso de algumas obras que interpreta como sendo a vida de Cristo: a sua crucificação, o sudário, passagens da Sua vida.
Zélia Rocha já organizou quatro exposições com as obras do filho, mas quer organizar outra: «O Vincent pinta muito depressa e faz muitos quadros e, por isso, já tem muitos que merecem ser mostrados». Inicialmente, Vincent pintava todos os dias, mas como o material de pintura é muito caro, a mãe impôs-lhe dias para pintar.
Durante a semana, Vincent frequenta uma escola do ensino especial, onde já está a aprender a ler e a escrever. Para além disso, é acompanhado com frequência por um médico e uma psicóloga especialista. Quanto ao futuro de Vincent, a mãe prefere não pensar nisso: «Com ele aprendi a viver apenas o presente. Tenho esperanças, mas não tenho expectativas. Penso que Vincent continuará com a pintura que, a cada dia, se revela melhor e mais complexa. Quanto ao resto não sei. Só posso garantir que farei sempre tudo que estiver ao meu alcance para fazer o que for melhor para o meu filho, como tenho feito até agora. Com Vincent reaprendi a viver».