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01 junho, 2006

Breg: «o Graffiti é a forma que uso para me exprimir»


O Graffiti, também apelidado de arte de rua, tem vindo a ser cada vez mais explorado e inserido na sociedade, fazendo com que uma das suas principais características negativas, a marginalidade, seja posta de lado. É o caso deste nosso entrevistado, natural de Valbom e que assina como ‘Breg’. Em Gondomar, ouvimos confidências deste pintor de rua, que nos deram uma maior perspectiva da realidade que envolve o mundo do Graffiti e toda a sua cultura.
Por: Daniel Faria

Prev: Boa tarde, Breg! Queriamos começar por perguntar o que, para ti, é, o Graffiti?

Breg: Bem, para mim, o Graffiti é a forma que uso para me exprimir, para libertar o stress do dia-a-dia ou da semana: é a melhor forma para estar à vontade comigo mesmo.

Prev: Quantos anos tens e com que idade começaste na arte da pintura urbana?

Breg: Vou fazer 23. Comecei em 1999... já foi há algum tempo.

Prev: Como é que ouviste falar desta corrente e te inseriste no movimento?

Breg: No 10º ano fui para a Escola Soares dos Reis e, na minha turma, havia um rapaz que tinha vindo dos Estados Unidos. Ele já pintava na América e tinha um álbum. Conheci-o e comecei por ver o álbum e acabei a interessar-me por aquilo...!

Mais tarde, fartei-te de chatear a cabeça aos meus amigos para começarmos a pintar. Principiei-me nas linhas de comboio, nem sabia bem que materiais usar ou onde comprar!

Prev: Quais os estilos que mais utilizas?

Breg: O wildstyle e o 3D. Posso fazer algo mais figurativo se estiver a realizar algum trabalho encomendado, mas no meu próprio estilo reúno o lettering, o wildstyle e o 3D.

Prev: Em termos temáticos, existem alguns temas que abordes mais?

Breg: Não costumo funcionar assim, só se for para um trabalho. Normalmente, junto-me com o meu grupo, pintamos um fame e é depois que aparecem ideias. Cada um faz o seu estilo, o seu lettering, a sua peça. Depois, nasce a ideia para o fundo e juntam-se as ideias de todos. Como disse, só costumo trabalhar com temas predefinidos para trabalhos. Por exemplo, se tiver de realizar um workshop para a Câmara de Gondomar, tenho primeiro de analisar as idades dos participantes ou o sítio onde se vai pintar.

Prev: E costumas pintar neste Concelho?

Breg: Só quando comecei e mesmo aí foram poucas coisas. Pinto no Porto, porque a maior parte das pessoas do meu grupo são de lá.

Prev: Mas existem poucos sítios para pintar...

Breg: Existem poucos sítios e também não sinto muita vontade... Não vale a pena trazer o meu grupo do Porto para aqui quando tenho lá muito melhores sítios para pintar! Daí que, mesmo quando comecei, só ter pintado nesta cidade em fábricas abandonadas.

Prev: Existem apoios das Câmaras ou de Gabinetes da Juventude, para o Graffiti?

Breg: Até podem existir poucos Graffitis em Gondomar, ou de pouca qualidade. Mas, a meu ver, a Câmara é das que dá mais apoio: organiza concursos, workshops, oficinas… acabei de fazer uma há relativamente pouco tempo. Quando comecei era impensável que, um dia, iria dar "aulas" desta nova arte de rua!...

Prev: Costumas pintar em locais ilegais?

Breg: Raramente. Acontecia mais no início. Tentamos legalizar paredes e até nos damos ao trabalho de comprar tinta de rolo para que o desenho sobressaia melhor. Hoje em dia, é uma moda que nos entra pela casa dentro, através da televisão. Existe muita arte ilegal e vandalismo que muitos associam ao Graffiti: provavelmente, essas manifestações artísticas são feitas por pessoas que não têm nada a ver isto.

Prev: Quando pintavas em locais ilegais, costumavas utilizar alguma estratégia?

Breg: Convém estudar-se o local onde se vai pintar e as possibilidades de fuga, caso a polícia apareça. Normalmente, pinta-se à noite, apesar de eu já ter chegado a pintar às 09:00 da manhã...!

Prev: Para legalizar paredes fazem um pedido à Câmara?

Breg: Normalmente não falamos com a Câmara. Se gostarmos de uma parede, tentamos conhecer o proprietário para lhe pedir autorização: uns dão, outros não dão, é uma questão de sorte.

Prev: Na tua opinião, quais as dicas para quem se está a iniciar nesta arte?

Breg: Desenhar muito! ...A base está no desenho. É preciso adquirir técnica e ter atenção ao local em que se vai pintar, no início.

Não convém que alguém que se esteja a iniciar comece a pintar em paredes com Graffitis de qualidade. Deve encontrar um sítio mais escondido, onde possa experimentar e aprender, sem ninguém a chatear: foi assim que eu comecei...

Prev: Que processo usas para a construção do Grafffit: fazes algum rascunho antes começar?

Breg: Como disse, o desenho é fundamental. Deve andar-se com um caderno para fazer um estudo antes de pintar. Hoje em dia já não faço isso, porque não tenho tempo: costumo chegar à parede e começar imediatamente a pintar.

Prev: Para finalizar, quais as tuas perspectivas para o futuro das pinturas de rua, em Portugal?

Breg: Há cinco anos atrás, Lisboa estava muito mais evoluída do que o Porto, mas hoje em dia já estão no mesmo patamar. Claro que, em Lisboa, existe muito mais apoio de Câmaras e associações. Mas espero que Portugal continue a evoluir ao mesmo ritmo dos últimos tempos, pois tem dado um salto enorme.

No entanto, os autores das obras continuam a não querer ser facilmente identificados devido a que, muitas vezes, as suas telas estão em locais públicos, ilegalmente. Assim, fazem uso de nomes de código, para evitar serem reconhecidos pelas forças policiais.Graffiti, também apelidado de arte de rua, tem vindo a ser cada vez mais explorado e inserido na sociedade, fazendo com que uma das suas principais características negativas, a marginalidade, seja posta de lado. Graffiti e toda a sua cultura.

José Rodrigues: «as pessoas quando são velhas têm muitas histórias»

Foi nos jardins do convento de S. Paio, nas terras de Cerveira que a Pessoas revista encontrou o Mestre José Rodrigues a meditar entre as suas esculturas, que abençoadas pela aura franciscana se transformaram em seres íntimos e divinos. Debruçadas sobre a ilha dos amores e protegidas pelos montes que as cercam, as estátuas trocam com os visitantes deste convento-atelier-museu olhares de silêncio e cumplicidade.

Encontramos no convento a sua colecção de desenhos reunidos numa galeria onde estão expostos exemplares de Vieira da Silva, Augusto Gomes, Poussin, Dordio, Almada Negreiros, Soares dos Reis, entre muitos outros.

A capela barroca acolhe neste momento uma exposição ecuménica, que compreende deuses de várias culturas e séculos. Além destes espaços, existe também uma exposição de barros, à qual este escultor que diz ter mãos, de lavrado, porque são toscas… atribuiu o título de "Modelação".

Por: Rita Homem de Mello

Pessoas revista – Mestre, como caracteriza o seu percurso artístico?
José Rodrigues – Fiz Medalhística, Teatro, muitos desenhos para livros… A Medalha é uma prateleira que tenho mais na minha cabeça, no entanto, devo dizer que tive sorte porque desde muito cedo entrei para o Teatro.

Dediquei muito da minha vida ao Experimental, à Cooperativa Árvore, a Cerveira e Trás-os-Montes. Tenho sido uma espécie de cigano andante...! Onde chego tenho uma tese para semear! Às vezes nascem coisas bonitas, outras vezes… Nem sempre tudo corre bem, sobretudo quando se fazem propostas fora do tempo. E eu fiz uma proposta fora do tempo, em Cerveira, quando avancei com a Escola Superior de Arquitectura.

Ninguém acreditava, achavam que era contra natureza fazer uma Escola Superior aqui. Eu disse ao Ministro Valente de Oliveira que era aqui que eu queria fazer a Escola. Achava que era aqui havia condições.

Não era um capricho meu, porque aqui bem perto descia a Galiza e, antigamente, a Galiza não tinha nada...

Prev – Mas foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore... Hoje, como descreve a situação do ensino das artes em Portugal?

JR – Sim, criei, no Porto, a primeira Cooperativa de Ensino do país - a Árvore 3 - porque existe também a Escola de Artes e Ofícios, em Cerveira e no Porto, e há a Árvore - Casa Mãe, que deu origem a tudo isto. Hoje, já são outros directores.

Neste momento, a Árvore – Casa Mãe, atravessa um período muito grave. Grave, mas não mete medo... As pessoas quando são velhas têm muitas histórias. Boas e más.

Eu tive uma história logo ao 25 de Abril e essa sim foi terrível. Foi quando puseram a grande bomba nos edifícios culturais e a minha casa recebeu a maior bomba do país, tivemos essa honra… Destruiu a casa completamente, mas ao mesmo tempo, o Porto respondeu com muita afectividade. As pessoas diziam-me «coragem Zé, coragem!» e, de repente, houve uma solidariedade que eu não sabia que existia.

Não sabia que nós éramos tão conhecidos e amados pelo Porto! Foi um momento lindo e, em pouco tempo, a Árvore estava-se a pôr de pé. Os subsídios vinham de todo o lado.

Hoje, a crise é outra. Uma crise tem a ver com tudo, porque nada é isolado. E esta é uma crise económica... A Árvore tem-se tentado adaptar aos tempos, mas nós ainda não nos conseguimos adaptar ao tempo que está a acontecer neste momento. Há grandes modificações, as vendas são outras, os públicos a atingir também…

As grandes superfícies dão cabo dos pequenos mercados. Vendíamos muita pintura. Hoje, a pintura não se vende. No meio de tudo isto temos de descobrir novos produtos, o múltiplo, coisas mais pequenas… temos de inventar!

Prev – De tantos, qual é o material com que prefere trabalhar?

JR – Eu trabalho com tudo. Não tenho preferência. Tudo é nobre, desde o barro do homem da caverna, ao metal mais precioso! Não tenho preconceitos contra nada. Cada material tem as suas características. Em bronze faço determinadas coisas que não posso fazer em madeira, em madeira faço outras que não posso fazer em gesso, em gesso faço o que não posso fazer em areia...! Enfim, exploro conforme os materiais. Não há materiais novos. O Homem quer obra!

Prev – E gosta muito de enquadrar as suas obras com jogos de água...

JR – A água, o fogo, são coisas muito antigas. A água nasceu connosco, no ventre da mãe e é elemento de grande importância. É, ao mesmo tempo, o sítio onde tudo se vai depositar. As minhas emoções, as minhas experiências, as minhas frustrações vão para um grande poço onde se vai depositando o que é sujo e, passados uns anos, a água acaba por sair cristalina.
Para mim, a água é o cristalino. Ajuda a revelar-se. Às vezes utilizo a água e também uma coisa que é irmã da água, o espelho, que me ajuda a revelar-me e a revelar outros.

Prev – Os temas mitológicos são muito fortes nas suas obras. Qual a razão deste fascínio?

JR – Como bom transmontano que sou (porque sou meio transmontano, meio africano), a mitologia faz parte de mim. Eu sou um contador de histórias e conto-as desenhando, modelando, fazendo teatro.

Estou sempre a contar histórias...! Os transmontanos gostam muito de falar... a oralidade é o principal meio que escolheram para comunicar e como também sou judaico-cristão, desde sempre fui muito marcado pela Igreja. Desde pequenino fui educado a rezar o terço com as minhas tias, por isso, todo esse caminhar foi importante para mim.

Prev – Considera que ainda há lugar para os jovens talentos, em Portugal?

JR – Há muito espaço para os jovens. Não quero ser paternalista, mas os jovens têm de dar a mão ao passado e caminhar em frente!

Prev – Continua ligado à Bienal de Cerveira?

JR – Eu pertenço à Bienal. Eu fico sempre ligado às coisas que faço.

Júlio Resende: «as cores, às vezes, não têm nome»

Eram 10.00h da manhã quando chegámos ao Lugar do Desenho. Tínhamos ido ao encontro do Mestre Júlio Resende. O espaço é inigualável, as flores tranquilizam o ar e as paredes são nuas, para que as cores dos jardins se destaquem e a imaginação não se prenda. Entretanto chegou. Só a sua figura sente o peso das quase nove décadas de vida porque a sua mente tem o tamanho do Mundo sobre todas as formas e expressões pois…

Por: Rita Homem de Mello

Prev- Antigamente, os artistas mantinham fortes laços de cumplicidades, que, hoje, são invisíveis. De que forma viveu essa época?

JR- Era um tempo em que não havia regras, mas conceitos e não havia quem contrariasse os nossos, no campo das artes. Havia escritores que teriam um lado mais filosófico, contudo a Pintura estava mais cingida à realidade… não estávamos muito avançados.

Antes, eu via o mundo de outra maneira. Eu vinha de um meio cultural que derivava de um romantismo, que ainda se mantinha. Então, pensava que a Pintura seria o resultado do mundo exterior e que seria vista a partir do sensível de cada um… A Pintura era o resultado de um estado sensível e não de um estado espiritual…

Prev- Fale-nos um pouco da sua relação com Pedro Homem de Mello e Eugénio de Andrade.

JR- O Pedro e eu tínhamos uma diferença de idades e ele era um homem das letras enquanto eu, das plásticas. Eu era muito jovem quando tive um programa de rádio com os meus irmãos e para o qual resolvemos convidá-lo. Ele, com a sua magnífica voz e com um timbre que reflectia uma sensibilidade extraordinária, era o homem que via a poesia nos gestos das pessoas. Via o mundo com outra perspectiva. Convidámo-lo para porque nos interessava a sua poesia pura... há muitas maneiras de ver a poesia.

Quanto ao Eugénio, ele era possuidor de uma coisa muito dele. O Pedro e o Eugénio eram pessoas muito diferentes, com feitios muito distintos. Dei-me com os dois, mas nunca foi em simultâneo. Primeiro, privei com o seu avô, ele era professor, também como eu, e tínhamos espaços semelhantes.

Prev- Como descreve este afastamento entre os artistas de hoje...?

JR- Estamos a atravessar um momento em que o afastamento não é como alguém que limpa um espaço e varre tudo. Amanhã, a História vai ser vista de modo diferente. Há factos que vão ser procurados e a História vai saber como é.

Nos anos 30/40 ninguém falava de Arte Contemporânea. Claro que havia Arte, mas não tinha nome! Hoje, ninguém se apercebe porque ninguém toma atenção. O artista tem a preocupação (que não é lícita), de mostrar que está tudo mal. Mas, amanhã, vamos ver que a Arte são duas coisas em simultâneo: é a perspectiva de um futuro e é o não acabar com a harmonia, porque Arte sem harmonia não interessa ao Homem.

A Arte é algo vital, que resulta de um embate de ideias. É a perspectiva de algo que não se sabe o que é… A obra sai do coração e, só depois, a razão a encontra e lhe dá justificação.

Prev- Ensinou décadas na Faculdade de Belas Artes do Porto. De facto, a Arte ensina-se?

JR- Dava aulas de Desenho Geométrico e de Desenho à Vista... não era muito desligado do que queria ser, porém, nunca na minha vida quis dar conceitos irrecusáveis.

Penso que a cabeça é para reflectir. Eu prefiro duvidar. Disse no Ministério da Educação que a Arte não se pode ensinar, o que foi um escândalo! Não se pode ensinar porque não se domina por conceitos, senão todos pintavam de igual modo. A Pintura é uma pessoa a andar, a respirar…tal como a Poesia.

Prev- O que é, para si, o Lugar do Desenho?

JR- Lugar do Desenho é o resultado de um plano que tive toda a vida. Um plano a pensar numa finalidade comum. O Lugar do Desenho é um lugar simples de paredes nuas e com um jardim bem tratado. Eu gosto muito das flores e acredito que o Mundo se pode apreciar num palmo de terra…

Quis, com este lugar, abrir perspectivas para que as pessoas sintam, dentro de si, a Arte. Aqui não há visitas guiadas, mas acompanhadas. As pessoas têm que perceber por si e é no diálogo que se entendem. Isto não é para fazer artistas: é para evitar que uns entendam e outros não percebam nada. Pôr as pessoas a ver para lá do olhar, porque o olhar é diferente do ver.

Prev- A sua obra pode ser dividida em fases?

JR- Catalogar é só para arrumar as coisas nas suas gavetas. O público não tem nada a ver com o que vi em Goa ou no Brasil! Para o artista, o que é importante é sentir que o seu trabalho foi altamente solicitado, por questões novas.

A Pintura é uma estrutura que compreende cores, gestos e valores. O quadro é sempre uma arquitectura. Se o pintor vai ao Brasil, vê como se está a sentir e quando vai desenhar, o resultado desse sentir é diferente da visão que tem da Europa. Para mim, a Europa tem regras muito rígidas. Quando cheguei à América do Sul vi que as regras não fazem sentido e que os espaços são natureza geo-humana que determina o modo do pintor estruturar o seu quadro.

Prev- Tem uma cor preferida?

JR- Não gosto de nenhuma cor ou gosto de todas...! Pode haver um quadro de uma só cor ou de todas! As cores não se podem medir porque, às vezes, não têm nome…

Editora de Arte e de Sonhos

Ricardo e Adriana iniciaram há cinco anos um sonho: em Vila Nova de Gaia, deram os primeiros passos na criação da Corpos editora, à qual eles chamam

Por: Rita Homem de Mello

Completou cinco anos em Maio de 2005 e já lançou cerca de 150 artistas. Ricardo de Pinho Teixeira e Adriana Pereira são a alma desta editora que apela à renovação, ao livro aberto para todos.

A postura vanguardista da Corpos respeita o clássico, mas acredita que a Cultura pode ser desmistificada para chegar ao maior número de pessoas. A criatividade e o espectáculo são, para este casal, a maneira ideal de fazer com que a poesia alargue o seu horizonte de leitores.
É por acreditarem que conseguem encorajar mais pessoas a entrar no êxtase da leitura, que Ricardo e Adriana se esforçam por libertar o livro, aliando-o outras expressões artísticas à sua apresentação: «Queremos mostrar diversas vertentes ao mesmo tempo», diz Adriana com a intenção de conquistar um público que, à partida, seria difícil.

Na sua essência, a Corpos quer mostrar que a Arte é acessível para todos e «se a desmistificarmos podemos acabar com o feudalismo intelectual que ainda vigora no nosso país», comenta Ricardo com certa revolta.

A provar esse pensamento estão os "maços de poemas" concebidos pela Corpos. «A ideia é transformar objectos vulgares, como maço de cigarros ou tubos de ensaio, em palavras mágicas que alimentam o vício dos mais curiosos», explicam enquanto apresentam as suas inovações.
«Ousadia e determinação, inspiração e transpiração» são armas que Ricardo e Adriana afirmam na luta do universo livreiro. Isto porque «é difícil introduzir um novo autor num país onde não se lê», mas a Corpos acredita e, por isso, preferem a qualidade à quantidade.

Até hoje já tiraram da sombra 150 corpos literários que até há cinco anos eram desconhecidos das estantes de muitas livrarias e estavam longe da animação das noites literárias do Púcaros, Pinguim, Guarani e outros.

Até ao livro sair, tudo fica a cargo da editora, a primeira edição, a estética da apresentação, a parte gráfica e a distribuição que é selectiva porque nem todas as livrarias aceitam apostar em novos talentos. O preço dos livros é acessível, andando à volta dos quinze euros cada.

Os lançamentos são feitos, geralmente, na noite citadina. Ricardo e Adriana são da opinião que a noite se adequa melhor ao espírito da Corpos. «Queremos surpreender, invadir, mostrar algo diferente a pessoas que nunca entram numa livraria...», o que os faz preferir os espaços onde se possa tomar um copo e ao, mesmo tempo, desfrutar de sons e gestos poéticos».

«O lançamento tem que ser o rosto do autor e é importante fazermos com que o artista acredite em si próprio!», afirma Adriana. O facto de ser uma editora pequena, facilita a parte humana e sensível que se estabelece na relação entre a Corpos e o seu público-autor.

Na Corpos encontramos desde a prosa à poesia; dos contos às histórias infantis; da fotografia, à pintura e também diferentes idades e perfis de autores.

«Já editámos pessoas com convicções mais comuns até professores catedráticos… Há várias formas de ilustrar a literatura, de a declamar, encenar, até porque é nos lançamentos que os artistas se dão a conhecer ao público e, por isso, é importante marcar a diferença» esclarem os editores.

Ricardo frisa a ideia de que, hoje em dia, tudo está ligado ao Marketing e à Publicidade e, por isso, para a Corpos, a ideia de inovar é um conceito fundamental «até para o Estado que obriga a editora a oferecer onze exemplares por edição enquanto que, por exemplo nos Estados Unidos, o Estado é obrigado a comprar 15 por edição! …Talvez se se começasse por aqui, muitos dos problemas nacionais acabariam, particularmente o da subsídio-dependência…»

Aprender português

Portugal foi, durante séculos, um país de emigrantes que se espalharam um pouco por todo o mundo. Contudo, no início deste novo milénio, verificamos que somos também um país de imigrantes que representam, actualmente, cerca de 5% da população portuguesa. Razões de natureza económica estão na base deste fenómeno.

Por: Maria de Fátima Assunção

A AMI é organização não governamental, sem fins lucrativos, desenvolve um trabalho humanitário que tem como principal objectivo lutar contra a pobreza e a exclusão social, intervindo em situações de crise e emergência. O ensino do português integra-se nesta preocupação.

Cristina Andrade (coordenadora do projecto ‘Porta Amiga’), tem dedicado os últimos anos da sua vida ao que, inicialmente, visava ajudar os sem abrigo. Porém, no dias de hoje, tem um papel mais abrangente: «neste momento, a população alvo é os "sem": sem documentação, sem amigos, sem saúde» diz-nos, com naturalidade.

As dificuldades

A frágil situação económica vivida nos países de origem da maior parte dos que emigram, leva-os a procurar melhores condições de vida noutras paragens. A barreira da língua, o desconhecimento da cultura e dos hábitos, dificulta a integração. A maior parte não encontra trabalho na sua área de formação. Mão-de-obra não qualificada e trabalhos de limpeza, são, na melhor das hipóteses, as actividades que lhes permitem sobreviver.

Jurista na sua terra natal, Vitória, 23 anos, russa, há dois anos no nosso país, veio até Portugal para se encontrar com a mãe que já cá vivia. Tem olhos azuis, transparentes, que nos olham de frente, sem medo.

A televisão, como complemento das aulas, tem ajudado na aprendizagem da nossa língua. Encontrou trabalhos esporádicos em fábricas, mas deseja regressar à Rússia no próximo Verão: «Tenho saudades do resto da família e quero continuar a estudar. Portugal é um país muito bonito mas quero ir embora» afirma sorridente.

Há experiências de vida nestes percursos migratórios bem sucedidas, outras nem tanto, como é o caso de Igor, ucraniano, 34 anos, motorista de pesados, há cinco anos a viver em Portugal. Trabalhou na construção civil, mas está desempregado. Vive do que recebe do Fundo de Desemprego. «Neste momento, não consigo trabalho. Gostava de voltar a ser motorista… mas é difícil» No entanto, em Igor nota-se a tristeza de quem saiu do seu país «para tentar uma vida melhor», desabafa num fôlego.

Chegou há três anos a Portugal através do Circo Cardinalli. Originário da Mongólia, Buren, 31 anos, decidiu deixar o seu pequeno comércio para emigrar. Contudo, o destino pregou-lhe uma dolorosa partida: enquanto trabalhava, adoeceu repentinamente e o diagnóstico foi ‘Insuficiência Renal’. Esta doença leva-o a fazer hemodiálise três vezes por semana, o que o impossibilita de executar trabalhos pesados. «Tenho que fazer trabalhos levezinhos» diz. Gosta do nosso país, onde sempre se sentiu aceite, dando preferência aos nortenhos: «são mais simpáticos do que os do Sul».

A Língua Portuguesa

Os poucos exemplos acima descritos acabam por representar muitas vozes que, em comum, têm a vontade de aprender a nossa língua. Fazem-no com mais ou menos dificuldade, mas com muito empenho. A socialização também se faz através da Escola, que desempenha um papel insubstituível na integração destas pessoas.

Foi com o fado de Amália, "Povo que lavas no rio" que Ana Luísa Cardoso, docente de Português em regime de voluntariado, iniciou a sua aula: «Considero-nos mais como um grupo de amigos. Os temas que escolho não são só a língua, mas, principalmente, a cultura portuguesa» adiantou-nos. Sente-se entre alunos e docente laços de amizade e solidariedade: «Aprendo mais com eles do que eles comigo», acrescentou.

Razões do coração

A Escola Secundária Garcia da Orta também tem um papel relevante no ensino do português para imigrantes. A coordenadora deste projecto é Joana Vasconcellos, que, entre as múltiplas actividades desempenhadas ao longo da vida, destaca as funções que exerceu como Leitora de Português do Instituto Camões durante quinze anos, um pouco por todo o mundo. Tailândia, Irlanda, Bélgica, foram países que lhe deixaram gratas recordações e lhe proporcionaram uma experiência de vida, enriquecendo-a humana e intelectualmente.

Daí a vontade de proporcionar aos imigrantes a possibilidade de aprenderem português: «Um dos grandes problemas que eles têm é o desconhecimento da nossa língua e o processo burocrático que têm de seguir até à legalização».

Mas, se uma grande parte dos imigrantes chega ao nosso país por motivos económicos – basta lembrarmo-nos que a Europa tem dezoito milhões de desempregados – outros há que, nos sentimentos, encontraram motivos para deixar tudo e encetarem a grande viagem.

É o caso de Patrícia, 32 anos, dois filhos, contabilista, originária de Guadalupe, ilha de águas quentes do Mar das Caraíbas. Conheceu o namorado em Guadalupe e, quando ele decidiu voltar para casa, decidiu seguir o coração. Porém, o frio, a língua e os costumes aos quais não se habituou, fazem-na querer regressar: «Não quero ficar, quero voltar. A família está longe. Se ganhar a lotaria, vou-me embora…» diz, com uma sonora gargalhada.

Também Imelda, espanhola da Andaluzia, Gestora de Conta, 35 anos e casada com um portuense há seis meses, veio para o nosso país para seguir o seu marido. Sente-se bem e integrada, embora note diferenças nestes dois povos vizinhos: «Sinto-me bem cá. Acho os portugueses muito agradáveis mas muito fechados. Parecem-se com os catalães», referiu-nos.

28 maio, 2005

Jorge Sousa Braga: Doutor Poeta

Por: Leonora Gonçalves

Jorge Sousa Braga, de 47 anos, nasceu numa localidade perto de Braga, onde passou a maior parte da sua juventude até ingressar, no Porto, no curso académico no qual, segundo ele, tinha os olhos postos desde pequenino: Medicina. Como área de especialidade escolheu a Ginecologia/Obstetrícia, porque, afirma, «é onde tudo começa».

Actualmente, trabalha no Serviço de Ginecologia do Hospital de Santo António e dedica-se, também, à investigação genética e fazendo parte de uma selecta equipa no Centro de Estudos de Infertilidade e Esterilidade (CEIE), cujo objectivo é o estudo e o tratamento de situações de infertilidade/esterilidade e aborto recorrente.

Para o ginecologista, a sua especialidade profissional tem uma relação intrínseca com a investigação genética: «Numa primeira fase há a manipulação dos embriões e a sua implantação, que está no domínio da Genética e, depois, temos a Ginecologia e a Obstetrícia, na medida em que todo o desenvolvimento do bebé se passa dentro da mãe», explica.

Jorge Sousa Braga, no entanto, tem uma característica peculiar: o gosto pela Poesia. Já tem alguns livros de poesia publicados, especialmente dedicados às crianças, dentre os quais se destaca “Poemas com Asas”.

Sobre a possível incompatibilidade entre algo tão sentimental e íntimo como a Poesia e, a Medicina, uma ciência que implica distanciamento e imparcialidade, Jorge Sousa Braga desmistifica: «Essa é uma falsa ideia, a Poesia e a Medicina não são paradoxais. Na área da Genética, trabalhamos com Poesia pura. Os aspectos que envolvem os embriões, a fecundação e o deselvolvimento dos bebés também podem ser considerados poéticos».

Dentre os grandes feitos profissionais de Jorge Sousa Braga, destaca-se especialmente um, na área da investigação genética: a contribuição para que fosse desenvolvida a técnica do Diagnóstico Genético Pré-implantatório da Paramiloidose, vulgo “doença dos pezinhos”. Doença esta que, em Portugal, afecta milhares de pessoas, principalmente na região Norte do país.

Através desta técnica, foi possível pela primeira vez garantir que o filho de um casal portador da doença nascesse saudável. Foi, de facto, um verdadeiro marco na história da investigação genética.

Quanto ao futuro profissional, Jorge Sousa Braga pretende continuar a trabalhar na área do estudo da infertilidade e também no estudo de novas técnicas aplicada à Paramiloidose e à outras patologias. E, é claro, a escrever poesia.

Manuela Bacelar: traços de tinta

Tobias e Bulbina são personagens encantadas do universo ilustrativo das crianças. São também elas que ajudam a extravasar a timidez de Manuela Bacelar: «No ensino secundário, eu era má aluna e tímida. E, para sublimar isso, tornei-me um bocadoa palhaço da turma. Ainda hoje sou um bocadinho...», conta a pintora. Ou melhor, ilustradora, pois, como refere, «pintores há muitos».

Por: Inês Braga

Manuela Bacelar nasceu no Porto há 61 anos e, desde pequena, «inventava histórias, personagens». Ilustradora de muitos livros para crianças, não se revê no espaço da infância como fenómeno de catarse. A liberdade e o incentivo à arte eram solicitações e sensibilidades frequentes: «Não nos perguntavam se queríamos ir, mas sentíamo-nos muito contentes por ir à ópera, ao ballet. Também não havia televisão...», recorda.

Tudo começou quando Manuela decidiu, aos 20 anos, ir para Praga, onde foi bolseira, de 1964 a 1970, na Escola Superior de Artes Aplicadas (cursos de Ilustração e Animação). A República Checa foi, assim, «decisiva» no seu percurso artístico, permitindo-lhe ir além da Escola Soares dos Reis (onde concluiu Artes Decorativas, em 1963) e contribuindo para o amadurecimento do seu imaginário.

Naturalmente, o gosto pela pintura, o interesse artístico, a passagem por Paris - «óptima escola de observação» - permitiu-lhe absorver diversas correntes e estilos: «A minha cabeça é uma esponja de imagens, faz um batido e dá um toque especial», explica. Assim, Manuela não consegue dissociar a pintura da ilustração, acabando por «fazer da ilustração uma pintura em ponto pequeno».

As influências cinéfilas e teatrais são, também, intensas. Tirando os retratos ficcionados, Manuela parte de um ambiente que ela própria cria à sua volta: «Faço as minhas encenações a partir do teatro, da música, do caos do atelier. Faço encenação, na medida em que foram leituras daquilo que vi. Quando leio um livro de que gosto muito, sou capaz de meter 20 capítulos numa tela». Ao mesmo tempo, a sua vivência permite-lhe, hoje, encontrar e, não, partir em busca: «Já não sou jovem, já não ando à procura de nada, agora encontro, como dizia Picasso».

Esta artista figurativa já tem perto de 60 livros publicados em Portugal, França, Dinamarca, Espanha, Rússia, Marrocos e Líbano. E já ganhou, entre muitos outros, o prémio Gulbenkian (1990), a Maçã de Ouro, na Bienal Internacional de Bratislava com Silka de Ilse Losa (1989) e o Prémio de Ilustração do Ministério da Cultura/IBBY com A Sereiazinha de Hans Christian Andersen (1996). O reconhecimento pela obra feita fá-la sentir-se bem, ainda que seja um aspecto pouco consciencializado: «Sinto que isso é uma pessoa exterior a mim, ainda tenho muito caminho a fazer».

Conhecendo a obra da autora, nomeadamente, a exposição «Kafka para que vos quero», destaca-se esta grande inspiração que teve início no livro de uma escritora alemã sobre a vida de Milena Jecenská, companheira de Kafka. «Milena era uma jornalista fora do seu tempo... foi uma personagem que me marcou muito. Quando li o livro, há 15 ou 20 anos, comprei os Diários de Kafka e, desde então, que ele anda comigo. É como um parente: de vez em quando, entra-me no quarto sem pedir licença...»

A imagem feminina é também outro elemento saliente: «Quando pinto uma mulher começo pelos olhos e estes comandam tudo o resto, o tema vem do olhar». Aliás, a sensibilidade feminina é demarcada por Jean Perrot, Presidente do Institut International Charles Perrault, em França: «Devemos ler as suas ilustrações [referente ao conto O Barba Azul de Charles Perrault] como uma espécie de manifestação feminista protestando contra a visão masculina dos contos». De referir a forte importância de Perrault para a autora, observável na exposição realizada em Lisboa sobre Kafka e Perrault, em 2002.

As evocações e ideias de Manuela Bacelar despertam, no receptor das suas obras, sensações de inquietação e devir, mas também de bem-estar, de vida e de fruição que pairam num universo seu, muitas vezes sem título. É que a autora não dá nome a muitos dos seus quadros: «Já que nos livros tenho que dar nome às personagens. O máximo que posso nomear será uma exposição».

Entretanto, nomeou os seus mais recentes livros: Uma prenda muito especial e Sebastião, este último, só de imagens. Relativamente à pintura, a última exposição foi na Fundação Engº António de Almeida, em Abril do ano passado, e intitulava-se O traço debaixo da tinta. Quanto ao futuro, e à exposição de novas obras, Manuela Bacelar confessa, «estou a pensar expor em breve».

O Segredo das Rendilheiras

“A tradição já não é o que era”, dizem. Mas quando falamos em Renda de Bilros o caso muda de figura. Maria Lapa, de 72 anos, é uma das rendilheiras de Vila do Conde que preserva esta arte, não só na escola do Museu de Rendas de Bilros de Vila do Conde, mas também em casa, passando o testemunho à sua neta por afinidade, Gabriela Brito.

Por: Filipe Fangueiro

Maria teve, desde muito nova, o contacto com esta arte já secular. Foi aos cinco anos que começou a rendilhar. Confessa que «ficava muito triste quando a avó me negava a possibilidade de seguir essa profissão». Mas foi pelo gosto (e pela persistência) que conseguiu ser rendilheira a tempo inteiro. Deixou de estudar e, aos dez anos, era quase uma profissional, aperfeiçoando e ensinando quem lhe pedia. Nunca negou um trabalho e uma ajuda a ninguém: a paixão pelos Bilros era grande. Foi por isso que aceitou, desde logo, ensinar a sua «recente neta».

Gabriela é uma jovem brasileira, de 19 anos, casada com um dos netos de Maria Lapa e nunca tinha tido contacto com estas rendas no seu país. Foi então que viu Maria, sentada em frente à almofada a rendilhar.

Apaixonou-se. Decidiu-se entregar à aprendizagem desta Arte. Começou e nunca mais quis parar. Segundo Maria, «Gabriela teve o dom do carinho que uma rendilheira deve ter com a renda». Apesar do sangue não ser o mesmo e a diferença de idades ser grande, Maria e Gabriela encontram, nelas, laços de união: o amor pelas Rendas de Bilros e a sensação que têm quando se sentam à frente da almofada e rendilham até altas horas da noite. «É fantástico como algo que dá tanto trabalho nos pode dar tanto prazer», dizem.

Para Maria, as rendas são uma vida, um amor antigo; para Gabriela é um legado, é uma continuação. Contudo, Gabriela não quer ser rendilheira de profissão. Decidiu não o ser seguindo um conselho da avó: «a vida de rendilheira não é fácil. Nem sempre se tem trabalho e as rendas, muitas vezes, não têm o valor mais justo». E é com esta experiência que Maria confidencia: «a Renda de Bilros tornou-se um vício», um vício que se torna uma Arte a preservar.

Apesar de tudo, Teresa Pimenta, professora de técnicas especiais no Museu de Rendas de Bilros tem uma visão um tanto ou quanto pessimista: «Temos pessoas jovens a aprender a arte de rendilhar, mas no seu futuro não incluirão as rendas, o que fará com que Vila do Conde seja, possivelmente, uma das próximas cidades a perder esta tradição» afirma.

Renda de Bilros: a arte na tradição

Percorremos as suas ruas estreitas, com casas baixas, onde os vestígios Manuelinos são particularmente visíveis nas suas janelas. Numa dessas ruas descobrimos a Casa do Vinhal. Solar urbano do século XVIII, a Casa do Vinhal é o Museu das Rendas de Bilros. A porta entreaberta aguça-nos a curiosidade. Fazemos soar a campainha e em instantes entramos no mundo dos Bilros.

Por: Maria Helena Oliveira

Através do tempo

Por entre as fotografias, que retratam a história das rendas, há uma que se destaca: a preto e branco, podemos ver mulheres e crianças a trabalharem em conjunto.

Desperta-nos interesse; “Porque estão todas ali?”. Manuela Silva, de 53 anos, funcionária do Museu, esclarece: «era uma oficina, onde eram pagas à tarefa, e como não havia onde deixar as crianças, acompanhavam as mães». E se, antes, todas as casas tinham uma almofada, o mesmo não acontece agora: apenas existem, em todo o conselho, 300 rendilheiras, «todas com idades avançadas», afirma Manuela Pereira, coordenadora das visitas dos serviços educativos.

A tradição foi-se perdendo e deixou de fazer sentido haver oficinas. Permanece no Museu a única que existe (à semelhança da escola das rendas). Maria da Guia, de 53 anos, rendilheira de profissão, é a coordenadora. A seu cargo tem a compra das rendas que serão comercializadas nas feiras anuais de artesanato.

«Paciência e criatividade» são os requisitos que considera fundamentais para se ser uma boa rendilheira. São, possivelmente, as causas da existência de dois tipos de rendas: as eruditas que têm desenhos mais elaborados, até com um fio mais fino; e as populares cujos desenhos têm formas geométricas.

Reconhecimento merecido

Numa tentativa de contrariar o esquecimento do artesanato nacional, a Câmara Municipal de Vila do Conde criou, em 1999, o projecto “Amor de Bilros... paixão de moda!”. Consiste numa aplicação prática das rendas de bilros na moda.

Desta forma, reúnem-se, anualmente, estilistas nacionais para trabalharem em conjunto com as rendilheiras, patrocinadas pela autarquia. O trabalho conjunto não se limita aos desfiles nacionais, mas também aos internacionais.

Paula Rola, estlista, participa no evento desde 1999, sendo a sua colecção presença assídua na Feira Internacional de Bilros, na Galiza. São muitos os estilistas consagrados que participam neste projecto. Em 2000, uma criadora de moda infantil, Lúcia Duarte, levou à passarela trabalhos realizados pelas crianças da escola do Museu das Rendas de Bilros.

Apesar de tudo, as crianças, que frequentam a escola do Museu, não pretendem ser rendilheiras: «vou continuar a fazer rendas, mas vou ter outra profissão» confidenciou-nos Teresinha, de 11 anos.

Para a posteridade

Num retiro silencioso, ergue-se a maior homenagem às rendilheiras de Vila do Conde. Na margem do rio Ave, junto ao Cais das Lavandeiras, eis a escultura que Ilídio Fontes criou, em Novembro de 1993, para homenagear estas mulheres.

Serena e dedicada, é assim que, dedilhando o bilro, a jovem de bronze, numa tentativa de enganar o tempo, vai criando as ‘obras de arte’ que permitem a esta cidade ser ainda o maior centro produtor de rendas de bilros.

Trazidas por marinheiros e comerciantes do Norte da Europa, a arte sofreu o seu primeiro revés com a lei de D. João V, que proibia o uso de qualquer tipo de rendas. Assim, as mulheres do Norte de Portugal, perante o cenário de pobreza que a aplicação do decreto previa, delegaram a Joana Maria de Jesus, rendilheira de Vila do Conde, a defesa dos seus interesses. Em resultado da sua persistência, quatro meses depois, a 19 de Setembro de 1749, El-rei mandou publicar um alvará que livrava as rendas da medida tomada.

Livros e leituras: a importância do verbo “Ler”

Numa sociedade com baixos índices de leitura e com uma cultura livreira quase inexistente, fomos perguntar aos mais novos o que significa para eles um livro, porque razão tendem a ler tão pouco e o que pensam das obras escolares. Ouvimos também o que pais, professores, escritores, papelarias, livrarias e bibliotecas tinham para dizer.

Por: Raquel Fernandes

“Ler é viajar no mundo da fantasia sem irmos até lá”; “Ler é imaginar e fingir que estamos dentro da leitura”. Estas definições pertencem ao Diogo e ao Nuno de 12 anos, que embora tenham definido a leitura de forma tão efusiva, não esconderam o facto de não gostarem muito de ler: «dificilmente trocávamos por um livro, um jogo de computador!...»

Embora o cenário, de certo modo representativo, que o Diogo e o Nuno nos trouxeram, Vítor Silva Mota, editor infanto-juvenil da ASA, afirma que o mercado desses livros «é um mercado em crescimento, com as crianças a lerem cada vez mais...!»

De facto, podemos pensar no mega-sucesso que é, por exemplo, a colecção ‘Harry Potter’...José Leonardo, escritor e director da Biblioteca Municipal de Rio Maior, distrito de Santarém, lembra o sucesso que essa personagem tem e diz que «metade das iniciativas das actividades desenvolvidas por Bibliotecas Municipais são dedicadas às crianças, que aderem entusiasticamente».

Porém, apesar destes depoimentos e do sucesso de algumas colecções, as crianças entrevistadas foram peremptórias em afirmar que ler, muitas vezes é uma obrigação, e que existem um sem número de coisas mais interessantes com que gastam o seu tempo livre.

Todos concordam que esta tendência tem de ser mudada no seio dos jovens de hoje, pois eles serão os adultos leitores de amanhã: «é importante que os jovens leiam, nem que a qualidade literária não seja a melhor», como lembra o editor da Asa, Vítor Silva Mota.

Ler um livro, um história ou uma simples matéria no jornal, ajuda a criança ou o adolescente em desenvolvimento a adquirir cultura geral, enriquecer o seu vocabulário, diminuir os erros gramaticais e ortográficos e a desenvolver a sua imaginação, tão vital nos dias de hoje.

Influências, deveres e responsabilidades

Quando se tratam de hábitos que fazem parte da vida de crianças e adolescentes é imprescindível falar com todos aqueles que contribuem para a sua educação e formação. No caso dos livros, também se incluem a sua respectiva divulgação e venda.

Anabela Teixeira, professora de Português há treze anos, a leccionar, actualmente, no Colégio Ellen Key, e mãe de uma criança de quatro, atribui o principal dever de incutir hábitos de leituras, numa idade inicial, aos pais e aos professores, na idade escolar. «É aconselhável começar a ler desde que estão na barriga. Desde que o meu filho tem um ano, que me traz livros para eu lhe ler!», afirma.

José Leonardo, já acima mencionado, concorda com a professora: «os pais têm um papel crucial na missão de tornar o livro familiar. Possuindo muitos livros em casa, faz com que a criança se habitue e o aprecie enquanto objecto físico que pode ser tocado, cheirado e manuseado. Para além disso, ler em voz alta, faz a criança associar a leitura/audição de uma história ao prazer da companhia com os pais e momentos de lazer juntos».

O papel dos pais é também salientado na altura de escolher um presente para oferecer ao filho ou gerir o tempo livre deste.

Miguel Branco trabalha na livraria ‘Nova Fronteira’, no Porto, há cinco anos. Do seu contacto com pais e crianças, diz que, muitas vezes, são os filhos que incitam os pais a comprar os livros, deparando-se com as reticências destes pelos preços praticados e possível pouco uso que irão ter. De facto, todos os pais inquiridos apontaram o preço elevado dos livros como um problema para que a sua compra seja vulgarizada.

O papel dos professores e das escolas é também exaltado por pais, editoras e livrarias, uma vez que cabe a estas parte essencial da formação dos jovens.

Pedro Passos, sócio-gerente de um Centro de Ensino e Apoio Pedagógico, na cidade do Porto e pai de um adolescente de 17 anos, mostra a sua indignação pela forma como as escolas lutam contra o decréscimo dos hábitos de leitura: «Na escola, professores de português que não sabem como resolver o problema da falta de hábitos de leitura, pedem aos alunos para realizarem trabalhos de pesquisa na Internet. Será essa uma forma de incentivo à leitura?». Anabela Teixeira concorda: «os professores de português têm a obrigação de desmistificar o monstrozinho da leitura», acusa.

Livros escolares e Livros lúdicos

Dos 15 jovens inquiridos, com idades entre os 7 e os 17 anos, menos de metade afirmaram gostar dos livros que lêem no contexto da disciplina de Português.

A escolha dos livros sugeridos pelo Ministério da Educação é mesmo posta em causa por alunos e professores. Anabela Teixeira diz que algumas destas escolhas estão desactualizadas e provocam pouco interesse nos alunos que não se identificam com história e personagens: «se calhar, a escolha de algumas obras teria de ser revista...», aponta.

Beatriz, de 14 anos, diz que, na escola, gostaria de ler mais aventuras e livros cujos protagonistas fossem adolescentes como ela própria. Carlos, de 11 anos, concorda com a ideia de ler aventuras em sala de aula e confessa que também gostaria de ler livros mais divertidos e não tão maçadores.

Para o director da biblioteca de Rio Maior, José Leonardo, as escolas deveriam não só apostar na leitura obrigatória como promover livros lúdicos que não façam parte do programa da disciplina de Português: «para além das obras de leitura curricular, que por serem obrigatórias causam alguma resistência e desprazer nos alunos, deveria haver, também, um estimulo à leitura lúdica e de entretenimento. Isto para que o acto de ler seja encarado o mais possível como um prazer que se pratica por gosto e por auto-iniciativa, e não como uma obrigação».

Livro vs Tecnologia

Todas as crianças entrevistadas possuíam uma consola de jogos, um telemóvel e, algumas delas, um computador e ligação à rede a partir de casa. De quinze, apenas duas aceitariam trocar as horas com estes aparelhos pela a companhia de um livro. Aliás, a maior parte delas argumentou que o tempo que têm de lazer é tão precioso que de forma alguma o desperdiçariam a ler.

Diogo, 12 anos, diz mesmo que reagiria muito mal caso os pais lhe impusessem a leitura e, ao invés de jogos, recebesse livros pelos anos e Natal. Carla Fonseca é mãe do Tomás e da Beatriz, de 7 e 2 anos, respectivamente: «gosto de lhes dar livros, mas admito que, para eles, os jogos e a televisão são muito mais atractivos...». Tomás confirma as palavras da mãe ao dizer que «ler é uma seca!»

A Internet parece, mesmo, ser o principal rival dos livros: um gigante que tende a crescer paralelamente aos os jogos de computador que tanto seduzem os mais novos. Perante a solução de livros em formatos interactivos ou com um complemento em CdROM, Vítor Silva Mota, lembra que dos 124 livros publicados pela ASA no último ano, apenas um tinha componente interactiva: «os lucros não justificam as despesas».

Com o mesmo argumento, dá resposta a tantos pais que reivindicam publicidade a livros no horário da programação infantil, como forma de combater o desinteresse das crianças por estes. Anabela Teixeira, diz mesmo que «a publicidade só é feita a jogos de computador, bonecas e fast-food, o que os faz tomar partido destas coisas, em vez da leitura».

A função educativa do teatro

Numa altura em que o tema da Cultura está tão em voga, torna-se importante reflectir acerca do papel do Teatro na sociedade. Será que o Teatro tem uma função educativa? Terá a mensagem do actor um carácter educativo? Como reage o público a esta mensagem?

Por: Joana Pinto

Romeu Pereira, actor e director artístico da Associação Teatro Construção de Joane, no concelho de Vila Nova de Famalicão, diz a este respeito: «tentamos sempre dar a entender que se podem mudar as coisas com pequenos gestos: o actor, quando sobe ao palco, pretende transmitir emoções, realismo: a mensagem do autor do texto e do espectáculo».

Custódio Oliveira, autor e encenador de peças de teatro e presidente da Associação Teatro Construção, também de Joane, que «todo o espectáculo de teatro deveria ser didáctico».
Mas também há quem defenda que o teatro é um complemento da educação: «para haver usufruto do espectáculo criativo, para criar sensibilidade à cultura, tem de haver um processo de aprendizagem como se aprende a ler. É por isso que considero que pode ajudar o seu processo de formação vir ao teatro», afirmou Luísa Portal, responsável pelas Relações Públicas e pelo trabalho com as escolas do Teatro Nacional S. João.

«Por exemplo, - continua - temos o caso do espectáculo dos Lusíadas rumo ao Oriente, o qual registou sempre bastante assistência das escolas porque faz parte do programa escolar. A peça, naturalmente, tinha como pré-requisito saber o que são os Lusíadas... até porque os códigos teatrais são diferentes dos códigos de escrita», esclarece.

Fernando Campo Salha, responsável pela frente do Teatro S. João e pela bilheteira, partilha a mesma opinião: «o teatro pode ser um complemento da educação… Por exemplo, a peça A Castro não é imediatamente um texto do currículo escolar, mas, de qualquer forma, vir ao espectáculo pode ajudar a compreender o texto. Não educa, mas ajuda, pode ser um auxiliar de educação neste sentido».

Para Fernando Salha, vir ao Teatro é essencialmente uma coisa de prazer, enquanto que «aprender não é só uma coisa de prazer: é uma coisa de trabalho. Portanto, vir ao teatro não pode ser uma coisa que exija trabalho: tem de ser uma coisa por prazer».

O Teatro Nacional S. João tem um conjunto de iniciativas para fazer com que as crianças tenham cada vez mais acesso ao teatro e à cultura. Contudo, Luísa Portal assume não ser possível dar resposta a tudo: «optou-se pelo trabalho com as secundárias porque entendemos que qualquer aluno do ensino secundário, salvo raríssimas excepções de espectáculos mais complicados, pode e deve assistir a qualquer espectáculo que nós apresentamos. Como não conseguimos chegar a tudo (visto só termos uma sala), os espectáculos para crianças são feitos em palcos mais pequenos, para menos gente».

A tentativa de integrar cobre todos os níveis de actuação: «temos uma preocupação constante com o secundário, juntando essas escolas e esses jovens ao público habitual. Isso foi uma estratégia definida já em 1996 pelo segundo Director do Teatro, Ricardo Pais, e que foi uma aposta ganha!»

Português ou Ptgx?

Ciberlinguagem». Esta nova linguagem imediatista que engole as letras começou a mostrar-se especialmente aliciante para os jovens em idade escolar, dado que os estudantes rapidamente adoptaram o código virtual como forma corrente de comunicação escrita. É devido a esse facto que se coloca a dúvida: conseguirão os jovens separar a linguagem virtual da linguagem real?

Por: Leonora Gonçalves

De acordo com Mário Gonçalves, professor da Escola Secundária Gonçalves Zarco, em Matosinhos, «é pouco provável que a simplificação da ciberlinguagem contamine a norma culta». E acrescenta: «Os adolescentes sabem que a ciberlinguagem deve ficar restrita ao ambiente da rede. Não tenho observado um empobrecimento nos textos devido à disseminação do código linguístico utilizado na Internet», afirma.

O professor salienta ainda que, na sua opinião, «as abreviações, os signos visuais e a ausência de acentuação representam, simplesmente, uma forma de adaptação ao teclado». Para Mário Gonçalves, a grande barreira ao desenvolvimento da aprendizagem da língua ainda se explica pela falta de interesse pela cultura.

Já Rui Estrada, docente da Universidade Fernando Pessoa, tem uma opinião divergente. Para este, a linguagem virtual tem tido bastante influência na redacção dos alunos e acredita que isto constitui um verdadeiro problema. «Penso que hoje os alunos usam essa linguagem [virtual] desde cedo e, como a comunicação vai funcionando, eles pensam que não precisam de uma outra e isso é dramático depois, quando se chega a um nível de estudos avançado, quando têm de escrever uma carta para pedir um emprego, ou quando têm de fazer um texto formal de trabalho», alerta.

Este professor universitário, diz que a ciberlinguagem tem o seu lugar específico e não pode pôr em causa a norma culta da língua portuguesa. E conclui: «o que seria interessante é que os alunos dominassem simultaneamente ambas as linguagens,e não fazer do português uma linguagem de sms».

Também preocupado com o assunto, o psiquiatra de clínica privada, Luís Oliveira dos Santos, do Rio de Janeiro, comenta que a influência da ciberlinguagem pode ser especialmente prejudicial para as crianças. Luís dos Santos afirma que as crianças que frequentam ‘chat rooms’ podem estar a aprender a escrever incorrectamente em virtude da forma característica dos meios digitais. E vai mais longe: «há o risco destes jovens ficarem incapacitados de redigir segundo os códigos linguísticos formais».

Ao abordar os alunos observamos, também, opiniões dissonantes em relação ao tema. Rui Pereira, de 14 anos, estudante do Externato Lúmen, no Porto, é frequentador de ‘blogs’, ‘chat rooms’ e diz-se um «viciado» em SMS. Rui diz que precisa de ter atenção para não utilizar a linguagem abreviada na sala de aula: «‘mt’(muito), ‘tb’(também) e ‘ñ’(não) escapam-me às vezes», confessa.

Já Marilda Ferreira, de 13 anos, também do Externato Lúmen, diz não ter qualquer dificuldade em restringir o uso da ciberlinguagem apenas ao meio informático: «Como muitas das siglas da ‘Net’ são em inglês, não há forma de colocá-las num texto em português. Penso que isso é muito difícil de acontecer. A forma de escrever no telemóvel e na ‘Net’ não tem nada a ver com a escrita normal».

Autor do livro “Linguagem e a Internet”, o linguista inglês David Crystal não dramatiza a questão e classifica os defensores da sintaxe de “alarmistas”. Lembra que a invenção do telefone provocou a mesma desconfiança dos estudiosos.

Por incorporarem uma linguagem repleta de palavras herméticas, as pessoas corriam o risco de perder a capacidade de expressão e sociabilidade: “A nova tecnologia não está a sufocar a gramática, nem tampouco fere a cultura”, afirma. Para Crystal a criação de novos códigos linguísticos “só vem a enriquecer a nossa cultura e abrir uma nova dimensão para a escrita”.

28 janeiro, 2005

A Comunidade Chinesa em Portugal

A inconfundível lanterna vermelha na porta é tão eficiente como um logótipo. Estamos, sem sombra de dúvida, diante de uma loja de comércio chinês. Guarda-chuvas, telefones, blusas, brinquedos, acumulam-se nas prateleiras numa profusão de cores e estilos que chegam a confundir o mais atento cliente. É neste cenário que se concentra grande parte da população chinesa. Este é também o nosso ponto de partida para conhecer um pouco mais da realidade dos imigrantes chineses em terras lusitanas.

Por: Leonora Gonçalves

Falar com um imigrante chinês revelou-se uma missão quase impossível. «Nô falar bem português!», é frase ouvida vezes sem conta ao abordar comerciantes chineses no Porto. Com grande desconfiança e um sorriso nervoso, os sóbrios imigrantes fecham-se em copas só pela menção da palavra ‘reportagem’, recusando a satisfazer a curiosidade jornalística e, gentilmente, indicando a saída do estabelecimento comercial.

É a muito custo, portanto, que Li Bin vai respondendo às perguntas. Sempre com o olhar por cima dos ombros do entrevistador, para assegurar que nenhum cliente fique mal atendido na loja de comércio chinês, lá vai contando a sua história. Com 34 anos de idade, há três em Portugal, mais especificamente no Porto, Li Bin diz-se satisfeito com a vida. «Estou muito contente, vivo melhor do que na China», conta. Todavia, no início contou com algumas dificuldades na adaptação a uma cultura e costumes tão diferentes dos seus.

Li Bin aponta a traiçoeira língua portuguesa como a sua maior dificuldade: «Tive que decorar algumas frases para falar com os clientes. Hoje, já estou bem melhor, só não entendo quando falam muito rápido», explica.

Quando perguntamos se já se sentiu discriminado, Li Bin desvaloriza a questão: «Os portugueses às vezes não têm muita paciência para entender o que quero dizer, é só isso. Não são mal educados e tratam-me bem».

Li Bin diz não sentir saudades da China, mas dos seus familiares. «Tenho dois irmãos lá [na China] que quero que venham, mas eles têm família e é mais difícil», lamenta. Quanto à possibilidade de voltar, Li Bin olha-nos com um ar sério e sem hesitar responde: «Não! Fico cá. À China não volto».

Retrato Oriental

De acordo com dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de 2002, os chineses já são estimados em 11 mil em território nacional, dos quais apenas cerca de 4500 se encontram em situação legal.

«A procura das melhores condições de vida é o principal motivo da emigração. Hoje, os imigrantes chineses já vêm ao encontro de outros familiares instalados em Portugal e, por isso, sentem-se mais estimulados para emigrar», diz Y Ping Chow, representante da Comunidade Chinesa no Porto. E acrescenta: «Posso dizer que 90% dos chineses que emigram para Portugal vêm para ficar. Primeiro, chegam sozinhos. Depois, quando já estão numa situação estável, trazem os familiares».

Segundo Y Ping Chow, a língua constitui um dos maiores obstáculos para os imigrantes chineses em Portugal. «É muito difícil fazermo-nos entender e trocar ideias em português», afirma. Quando questionado sobre o receio da comunidade chinesa em falar, o representante explica que «muitos chineses ainda não estão legalizados no país e esta pode ser uma das causas do silêncio. Mas também há o facto de serem muito reservados».

Y Ping Chow pensa não haver preconceito dos portugueses em relação à comunidade chinesa: «Os chineses imigrantes em Portugal são bem tratados e aceites». Considera ainda, que a mentalidade dos cidadãos dos dois países em questão é realmente diferente, mas desvaloriza a presença de dificuldades intransponíveis por parte dos imigrantes chineses em Portugal.

O representante da Comunidade Chinesa no Porto justifica o escasso convívio dos imigrantes desse país em Portugal, dizendo que os chineses reúnem-se somente em situações especiais. E dá como exemplo um evento de grande dimensão a ocorrer: o novo ano chinês, uma das poucas oportunidades de congregação dos imigrantes chineses.

No entanto, Chow admite o surgimento de alguns atritos entre nacionais e chineses na área do comércio. «O que existe é uma incompreensão por parte dos comerciantes portugueses em relação às chamadas ‘lojas dos chineses’, por estas apresentarem artigos com um preço muito baixo. Mas esse é um problema que vai desaparecer com o tempo».

Invisibilização’ Chinesa

Chen Xiaohong, investigadora do Centro de Estudos Chineses (CEC) da Universidade Técnica de Lisboa, afirma que os chineses têm o que chama de uma "estratégia de ‘invisibilização’". «Fora do espaço dedicado ao negócio étnico em que é possível haver relações inter-pessoais, a visibilidade dos membros da comunidade é quase inexistente. Estes, curiosamente, não apresentam a necessidade, nem ao nível individual, nem ao nível colectivo, de reconhecimento e aceitação por parte do grupo acolhedor», explica.

«Em Portugal, e mais especificamente no Porto, nota-se a ausência de uma região de concentração de comércio e habitação, do género ‘Chinatown’. E refiro o Porto por ser aqui que a imigração chinesa é mais expressiva», diz Xiaohong.

Aquela investigadora considera que a procura de reconhecimento pela comunidade chinesa passa, quase exclusivamente, pela rentabilidade económica dos seus negócios. De acordo com estudos do CEC, o espaço de venda de produtos, seja em restaurante ou em pronto-a-vestir, é a forma que os chineses encontram para projectar a sua etnicidade e reunir-se como um grupo.

Apesar deste contacto ser considerado impessoal e rápido, é um contacto inter-étnico.
Outro estudo de grande relevância neste âmbito foi realizado por Teresa Teófilo, no âmbito de um curso de Pós-graduação em Multiculturalismo e Relações Interculturais, intitulado "Identidade e Reconhecimento: O Outro Chinês".

Para a investigadora, é fundamental questionar a recepção dos chineses junto da população portuguesa e problematizar a interferência de estereótipos e preconceitos na integração da comunidade imigrante na sociedade acolhedora.

Uma das conclusões da investigação foi a não constatação de qualquer expressão de racismo flagrante, mas sim a presença de alguns estereótipos. Sobre a evolução do relacionamento entre portugueses e chineses, afirma: «através da produção, divulgação e partilha de conhecimento será mais fácil transformar comportamentos discriminatórios, para que o multiculturalismo seja um conceito vivenciável e verificável e não uma mera leitura sociológica das actuais sociedades».

A cura pela música

Em Portugal, esta forma de psicoterapia complementar começa a dar os primeiros passos. Se for devidamente adoptada e desenvolvida,a musicoterapia pode constituir uma opção complementar válida para a reeducação de crianças ou adultos com deficiências motoras, sensoriais ou afectivas, atrasos na linguagem, ou com dificuldades mentais.

Por: Maria Manuel Freitas

O João (nome fictício) é um menino de oito anos e é autista. O autismo é uma perturbação típica do desenvolvimento, a qual se manifesta, normalmente, antes dos três anos.

A doença traduz-se em dificuldades ao nível das interacções sociais na comunicação (atraso ou ausência total no desenvolvimento da linguagem verbal) e no comportamento (incapacidade de se adaptarem a mudanças no seu ambiente frequente; fisicamente, são comportamentos estereotipados, como o balanceamento da cabeça, movimentos com os dedos, saltos e rodopios).

Há três anos que o João frequenta um Gabinete de Psicologia, o Psicorumo, uma associação onde meninos como ele ou com outro tipo de perturbações podem encontrar um apoio terapêutico, nomeadamente, ao nível da Musicoterapia.

Margarida Rocha, musicoterapeuta, acompanha o João há três anos e considera que, apesar de toda a problemática clínica inerente a esta patologia, são visiveis o desenvolvimento e os progressos a vários níveis que o menino tem feito. A mãe partilha a mesma opinião e assegurou-nos que a musicoterapia «tem sido, sem dúvida, a terapia que mais e melhor tem ajudado o João».

Margarida Rocha salienta que, em primeiro lugar, deve ser feita uma avaliação da criança «em contacto directo, valorizando a interacção e analisando as suas respostas». O objectivo é conhecer as reacções da criança perante determinados estímulos musicais: «Se não reage, pressiona-se, mesmo que a reacção seja de rejeição», explica aquela técnica.

Posteriormente, avalia-se a resposta aos instrumentos ou do material circunstancial. «Isso serve para ver como a criança usa e manipula esses objectos, como reage aos sons ambiente», diz Margarida Rocha. Em suma, a musicoterapia procura avaliar as competências da criança ao nível da comunicação verbal, vocal e gestual (comunicação não verbal). No fim de cada sessão, esta terapeuta reúne com a mãe do João para comentar a sessão.

Em mais uma sessão, que a sua mãe autorizou a PESSOAS a assistir, o João mostrou-se afável, sorridente, meigo e muito receptivo ao toque. No aquecimento que deve presidir a cada sessão, foi colocada uma música a tocar. «O objectivo é observar a sua vivência corporal num tempo e num espaço. A reacção ao ritmo é muito importante. Mas, principalmente, é preciso mostrar que essa música tem um fim. Por isso é que ele pára quando a música termina», explica a musicoterapeuta. Em seguida, Margarida proporciona o contacto com os instrumentos.

Há uma interacção musical através de diálogos e improvisações. O João foi respondendo positivamente, com um ou outro olhar desviado durante a actividade o que, embora seja considerado normal, implica o recomeço da terapeuta na captação da sua atenção.

A sessão chega ao fim. O João recebe a mãe na sala, que se senta e o afaga, juntamente com Margarida e um outro menino que aguarda pela sua vez. A mãe do João e a sua terapeuta partilham a alegria do menino com o aproveitamento positivo da sessão. Mãe e filho vão embora, agora para casa, até ao próximo encontro.

Um passado presente

A musicoterapia tem as suas raízes na sabedoria cujas origens se perderam no tempo. O homem antigo desconhecia métodos organizados de "terapia de sons". Mas, na verdade, nem precisava deles, pois conhecia espontaneamente a sua influência. O terror provocado pelos trovões, a tranquilidade do ruído da chuva fina, as melodias produzidas pelos pássaros, o som de uma flauta, são exemplos de sentimentos e efeitos inexplicáveis que sempre atraíram e exerceram forte influência sobre o ser humano.

Segundo a definição aprovada pela Federação Mundial de Musicoterapia, "a musicoterapia tem por objectivo desenvolver potenciais e/ou restaurar funções do indivíduo, a fim de melhorar a sua integração intrapessoal e/ou interpessoal e, em consequência, adquirir uma melhor qualidade de prevenção, reabilitação ou tratamento".

Além disso, numa altura em que somos tão prejudicados pelo barulho, por sons agressivos, pela música dissonante ouvida em volume demasiado alto, a musicoterapia torna-se cada vez mais necessária, dada a incontestável e enorme influência da música e dos sons no equilíbrio do ser humano e em aspectos como: o ritmo cardíaco, a pressão arterial, o equilíbrio térmico, o metabolismo geral, o volume de sangue, a secreção do suco gástrico, entre outros.

A Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT) é uma organização sem fins lucrativos que congrega profissionais de musicoterapia. Segundo Gabriela Gil, vice-presidente da APMT, ainda há muito por fazer: "É preciso lutar pelo reconhecimento oficial da musicoterapia em Portugal, investir na seriedade do exercício da profissão, colaborar com instituições públicas e privadas na definição e concretização de políticas no âmbito da musicoterapia, fomentar o intercâmbio e a difusão de experiências entre os indivíduos e as instituições interessadas em musicoterapia, no país e no estrangeiro".

Para isso, esta organização vai desenvolvendo diversas actividades como seminários, congressos,’ workshops’, sem esquecer a tentativa de dar resposta aos inúmeros pedidos de informação sobre musicoterapia, por e-mail ou por telefone. Permanente será a luta pelo exercício da musicoterapia com seriedade e por profissionais com habilitações adequadas e o empenho em colaborar em iniciativas de divulgação, informação e encaminhamento de serviços na área de Musicoterapia.

Comunidade Muçulmana no Porto: uma forma de vida

Em Portugal, o islamismo e o cristianismo convivem de forma civilizada e pacífica. Acreditam em profetas diferentes mas veneram o Deus Uno.

Por: Maria Helena Oliveira

Existem, em Portugal, cerca de quinze mil muçulmanos, espalhados pelo continente e ilhas. A comunidade muçulmana no Porto, embora pequena, conseguiu adaptar a sua cultura à realidade portuguesa. A maioria desses muçulmanos vem do norte de África. A mesquita, longe da sua arquitectura tradicional, é o seu local de culto e reflexão. O Corão é o seu livro sagrado.


Um rosto uma história

Numa loja de produtos oriundos de Marrocos e da Índia esconde-se Farhad Hossain, 28 anos, natural do Bangladesh. Apesar de estar em Portugal há quatro anos, a comunicação não é tarefa fácil. O português é ainda uma língua difícil de se falar. A dificuldade em pronunciar as palavras é clara.

Aceita falar da sua religião. Pede-nos, no entanto, para nos comunicarmos em inglês. Os seus dias são passados na loja, pois o shopping abre cedo e fecha tarde, exigindo-lhe uma presença diária.

Ao longo da conversa são evidentes as saudades do seu país de origem: «Tenho saudades dos meus pais, e vivemos de forma diferente a celebração do fim do Ramadão», conta. No Porto existem poucos muçulmanos, o que torna as celebrações diferentes. «Apenas rezamos de manhã, na mesquita, e fazemos uma ementa especial para o almoço. No meu país visitamos os amigos, decoramos as casas e à noite vemos televisão …existe uma programação especial para esse dia», explica.

Portugal sempre foi visto como um país acolhedor e hospitaleiro. Contudo, Farhad escolheu-o por outros motivos: as condições climatéricas fazem-no sentir em casa; o facto de ser pacífico dá-lhe tranquilidade. Conta-nos que, quase diariamente, um senhor, com alguma idade, vai até à sua loja para o questionar sobre o islamismo. Também os poucos amigos portugueses tentam compreender a sua religião e saber se é verdade o que se diz. Apesar de tudo, existem «semelhanças entre as duas religiões», confirma.

Farhad admite que existem muitos a deturpar as mensagens d’Al Corão. Na sua opinião, «os muçulmanos que matam, não o fazem por questões religiosas, pois a paz é a essência de todas as religiões». Há uma confusão idêntica com a forma como as mulheres são referidas: «Mohamed dá direitos iguais. Mas há quem não os queira seguir». Para o ano, Farhad planeia regressar ao seu país e casar.

A voz da oração

A pouca informação sobre a comunidade muçulmana no Porto complica-nos a chegada à mesquita. Percorremos algumas lojas. Olham-nos com alguma desconfiança e mostram-se reticentes quanto a localizar o templo. Indicam-nos a pessoa que nos pode dar a informação. Quando chegamos, ficam surpreendidos. Perguntam-nos se somos muçulmanas mas, apesar da desconfiança, conseguimos a informação.

Já na mesquita, ficamos sem perceber se estamos no lugar certo. Não existem quaisquer semelhanças com o templo que imaginávamos. Tocamos à campainha. Somos recebidos com um sorriso mas, mais uma vez, surgem os problemas de comunicação: não falam português nem inglês. Somos conduzidas a uma sala, onde ficamos à espera que alguém venha falar connosco.

Passado algum tempo, aparece o Sheir Amadu Camara, natural do Norte de África. Por entre a conversa, revela-nos que estudou a religião islâmica na Universidade da Mauritânia. A sua vinda para Portugal coincidiu com o fim da sua formação académica. Veio para Lisboa em 1991 e está há dois anos no Porto. Na mesquita dá aulas e faz as orações.

Sobre a comunidade muçulmana portuense, explica que a sua maioria é proveniente do «Norte de África, especialmente Magreb e Marrocos. Existem, também, alguns muçulmanos convertidos», afirma.

Não sabemos como abordar a inevitável questão do terrorismo, por isso questionámo-lo sobre Bin Laden. A sua resposta é clara: "Cada um paga pelo mal que faz. Após o 11 de Setembro ganhámos um novo nome: terroristas. Os ocidentais gostam de generalizar. Não é porque um muçulmano cometeu crimes que todos são iguais". No seu tom de voz fica bem expresso o desagrado pela opinião global sobre a sua religião. E conclui que muitos «deturpam o Corão».

26 janeiro, 2005

Tribos Musicais e Cultura Social

O que os une é a música. Ela é o elemento fundamental da sua existência. Alguns jovens de hoje agrupam-se em tribos modernas que são baseadas num género de música. Esse tipo musical dá-lhes uma identidade e comanda o seu modo de ser e de agir.

Por: Tiago Alves

Noutros tempos, a criação do grupo costumava ser fácil: efectuava-se apenas por critérios geográficos ou de parentesco – os que estavam próximos e eram da mesma ascendência constituíam, naturalmente, um grupo - a que podemos chamar clã ou tribo e que era o único grupo a que o indivíduo pertencia durante toda a sua vida. Hoje, a moderna família ainda se constitui como um grupo de grande importância para os indivíduos, mas tornou-se insuficiente só por si. Existe a necessidade de algo mais, de outro grupo que partilhe os mesmos interesses e personalidades, mas que se destaque da família. Um dos factores comum e diferenciador de todos os grupos é a música.

Jorge Matos estuda design industrial, tem 21 anos e longas ‘rastas’ (tranças) que quase cobrem o verde, amarelo e preto da bandeira da Jamaica, a pátria de Bob Marley e do Reggae, estampada nas costas do seu casaco.

O Reggae entrou na sua vida, a sério, há dois anos: «Jorge sempre foi fascinado pela cultura rasta. Esta cultura traduz-se, muito resumidamente, na luta contra a opressão, a pobreza e a desigualdade social, utilizando métodos pacifistas e tendo a música como a sua principal arma. «Quando era pequeno, aqueles vídeos do Bob Marley tocavam-me qualquer coisa cá dentro. Comecei a comprar uns discos e a mostrar aos meus amigos. Depois, fui descobrindo outras pessoas que já percebiam mais do assunto. Acabámos por nos fazer todos amigos e posso dizer que, hoje, somos um grupo. E um grupo muito unido», assume Jorge Matos.

«Ajuda-me a combater o stress». E Jorge explica: «O Reggae dá-me uma paz de alma que no mundo em que vivemos é cada vez mais necessária. Sempre que o ouço fico alegre e sem tensão. Tem muito a ver comigo já que sou contra todo o tipo de violência. O Reggae tem uma mensagem de paz e de amor».

Este Reggear destaca as noites na praia, onde o grupo canta e convive à volta de uma fogueira, como os momentos que mais aprecia. Os charros de erva são igualmente uma presença assídua nestes encontros, mas o essencial é uma viola, alguns ‘djambe’ (tambor africano), boa disposição e a companhia dos amigos para se sentir feliz.

Mas para outros, a praia é apenas para frequentar de dia. As noites são para ser passadas em bares e discotecas onde a fogueira é substituída pelos focos de luz; a viola e o ‘djambe’ são trocados pelas batidas e sons electrónicos.

Ricardo Peres, um estudante de 19 anos, é um dos que elegem a música electrónica e as pistas de dança como elementos indispensáveis para passar um bom momento com o seu grupo. «Adoro dançar e, por isso, desde que haja dinheiro, vou a todas as festas e ‘raves’ que posso. São locais onde a música electrónica tem a sua expressão máxima, adoro. Lá, anda tudo com um sorriso, as pessoas divertem-se e convivem». Apesar de a maior parte destas músicas não ter letras, Ricardo considera que elas estão carregadas de sentimento e as batidas e melodias que ecoam pelas colunas transmitem mais emoções do que as letras das músicas que ouve na rádio.

Ricardo lembra-se de, com 14 anos, sair esporadicamente à noite com os amigos para ouvir quais eram as músicas do momento e depois as pôr a tocar em pequenas festas de garagem à tarde.

«Eram tempos óptimos, mas hoje, ainda nos divertimos bastante. Vamos a discotecas ver os melhores dj’s a tocar. Destaco o Jesus del Campo e o Jiggy: os melhores e os que mais prazer me dão». Para Ricardo, «a música electrónica é a música do momento e do futuro. Nascemos na era da tecnologia, por isso, faz todo o sentido evoluir para um novo género de música e de sons. Não quero ficar preso na música da geração passada. Guitarras e baterias são muito bonitas, mas pertencem a museus», afirma.

Esta última ideia deixaria, com certeza, Eduardo Teixeira à beira de um ataque de nervos. A sua roupa negra e o cabelo liso bem comprido não deixam muitas dúvidas quanto ao seu gosto musical. Mas se, porventura, elas ainda restassem, o nome da banda, ‘Pantera’, escrito na sua camisola, imediatamente as afastaria. Estamos perante um verdadeiro metálico. O Heavy Metal tem a sua origem no início dos anos 70, com bandas como Black Sabath, Deep Purple e Led Zeppelin. As suas principais características são as guitarras carregadas de distorção e uma bateria potente, rápida e agressiva. Desde então, o Heavy Metal evoluiu bastante. Bandas como Metallica e Korn ultrapassaram a marginalidade e a tornaram-se nomes conhecidos por todos.

Eduardo, engenheiro mecânico de 25 anos, acompanha este movimento há mais de 10 anos: «É uma religião, um modo de vida. Uma vez que começas a ouvir este género de música, não o abandonas. Não me consigo imaginar a ouvir outro género de música. Todos os outros tipos de melodia me soam falsos e comerciais, virados para o lucro». A música metálica é violenta, Eduardo não o nega, mas é assim porque o mundo também o é. «Aqui, não há hipocrisia, não se fala do mundo bonito e das flores. Fala-se das coisas que vemos todos os dias nas notícias e que, se calhar, a maioria das pessoas prefere ignorar».

Os concertos são a finalidade última deste género de música. As músicas metálicas são claramente feitas para serem tocadas ao vivo. Nestes espectáculos, há uma enorme descarga de som, energia e emoções, tanto da parte dos músicos como do público.

Os concertos até podem parecer violentos, mas apenas para quem não sabe o que está a ver. «Há encontrões e contacto físico, mas ninguém está ali para andar à pancada. Raramente alguém se magoa a sério», diz Eduardo, que acrescenta: «Já fui a muitos concertos e a única vez que me senti mesmo aflito e pensei que ia ‘marar’ foi num concerto de Prince, no estádio de Alvalade. Ali as pessoas eram selvagens e brutas. Nos concertos de metal há civismo: se cais, ajudam-te a levantar, não passam por ti como se nada fosse», explica.

Para ele, é isto que torna a comunidade metálica especial: «Mesmo não nos conhecendo, somos todos parte do mesmo grupo e todos nos ajudamos. Quer seja a levantarmo-nos uns aos outros ou a pagar uma cerveja a quem não tem dinheiro. Somos um todo, uma comunidade que procura o mesmo: curtir».

No fundo, todos os grupos procuram o mesmo: a diversão, o convívio e a companhia. A música facilita a escolha do grupo a que se quer pertencer. Não há necessidade de perder tempo a "experimentar" vários grupos para descobrir quais os que partilham os seus interesses e convicções.

Com a música, os jovens já sabem à partida o que esperar de um ou de outro determinado grupo. Seja isso a paz interior, as festas ou o descarregar das tensões.

A máquina do tempo

Quem passa pela marginal de Vila Nova de Gaia não fica indiferente às majestosas e imponentes embarcações ancorados nas margens do Douro. Por lá permanecem os barcos rabelos, marcos históricos da gloriosa era mercantil, hoje atracções turísticas, irredutíveis perante a erosão do tempo.

Por: Joel Silva

Historicamente, os barcos desempenharam importante papel no transporte do vinho do Porto, néctar precioso, pedaço de pecado divino de muita e boa gente, desde a região do Alto Douro até às caves sedeadas na margem da cidade de Vila Nova de Gaia. Hoje, são apenas atracções turísticas, que navegam rio acima mostrando a inúmeros estrangeiros a beleza de um Douro considerado Património Mundial da Humanidade.

O seu bom estado de conservação é o resultado, do tempo e cuidado, certamente despendidos por muitas pessoas, autênticos mecenas, que os encaram como um marco da história da cidade Invicta.

A Confraria do Vinho do Porto organiza, anualmente, a 24 de Junho, uma regata entre a Foz e a ponte D. Luís, mobilizando centenas de curiosos para ambas as margens do Douro que assistem, deslumbrados e atónitos, a um cenário do passado em harmoniosa conjugação com o presente.

Porto e Gaia revivem, por momentos, a azáfama de nostálgicos tempos, locais de paragem obrigatória, onde se reuniam intrépidos marinheiros e hábeis comerciantes, portadores da nobre e conquistadora alma lusa, enquanto que o Douro volta a engalanar-se, e a constituir-se como centro das atenções de ambas as margens.

O berço dos rabelos

Desde o século XVIII que o rio Douro é povoado por barcos originais, os ‘Rabelos’, que foram especialmente concebidos para este rio e para o transporte das pipas de vinho. Na altura, antes da construção das várias barragens, o Douro era agitado e irregular e estas embarcações moldavam-se de perícia para a aventura da sua travessia.

Por: Inês Braga

Muitos anos mais tarde, as águas do rio Douro foram acalmadas e, hoje, a sua navegação é muito mais fácil. Apesar de terem, então, vencido a rebeldia do Douro, os ‘Rabelos’ foram perdendo, gradualmente, o seu trabalho para o comboio e para o camião. As embarcações tiveram, assim, que se adaptar a um mundo moderno. As águas calmas do rio já não exigiam tamanha agilidade e, por volta da década de 80, com o desenvolvimento do turismo, o ‘Rabelo’ renasce para outra função: as caves do Vinho do Porto. As caves começam a querer recuperá-los e os estaleiros a equipá-los de motor, cabinas e outras comodidades. O ‘Rabelo’ torna-se num barco de passeio turístico, um ícone publicitário do Douro e das suas caves vinícolas.

Um estaleiro situado nas margens de Vila Nova de Gaia, junto às múltiplas caves, acompanhou de perto, a vida dos ‘Rabelos’ no último século. Foi aqui que as embarcações nasceram, cresceram e foram adaptadas às novas exigências que os fizeram voltar a navegar. A SOCRENAVAL é o único estaleiro que, neste momento, ainda constrói os originais ‘Rabelos’.
António Dixo Sousa é o sócio gerente, que, juntamente com o pai e David Alves, um seu velho amigo, são os proprietários deste estaleiro familiar que preza por manter viva a tradição do Douro há mais de 100 anos.

No entanto, foi há 30 anos que a família começou a dedicar-se à construção destas embarcações únicas. Cerca de 15 anos mais tarde, o estaleiro foi pioneiro na adaptação dos ‘Rabelos’ às necessidades turísticas, dotando as embarcações de motor, WC, serviço de refeições, coberturas de Inverno e Verão, e outros equipamentos de forma a corresponder às exigências dos turistas. Apesar das inovações, António Dixo Sousa sublinha que mantém «uma forte preocupação em preservar a construção, o design, e as aplicações das embarcações, de forma a permanecer fiel às características originais e tão especiais desta embarcação».

O estaleiro concentra 80% da sua actividade na construção de barcos ‘Rabelos’, mas não esquece as dificuldades. António Sousa não deixa de lembrar que «no início do século XIX havia mais de 12 estaleiros e, hoje, este é o único que sobreviveu». Não obstante todas as contrariedades e a falta de apoio de outras instituições, a perseverança da família conseguiu perdurar, ultrapassando, há pouco tempo, mais uma maré difícil. Aquando da construção do empreendimento ‘Cais de Gaia’, o estaleiro esteve em risco de ser demolido de forma a dar lugar ao prolongamento daquele empreendimento.

António Sousa relembra esses maus momentos apontando como causa principal uma grande falta de sensibilidade cultural por parte dos responsáveis: «diziam-me que o estaleiro tanto podia ser ali como noutro sítio qualquer, que não viam qualquer relação especial com o local...» Ora, na opinião do proprietário da SOCRENAVAL, «isso será quase como dizer que as gôndolas italianas podiam ser feitas na China...!», reforçando que a relação com o rio e com as caves é essencial para manter vivo este símbolo cultural.

Nesta contenda, foram muito importantes todos os apoios que, em conjunto com os órgãos de comunicação social e o apoio governamental do ex-presidente da Junta de Freguesia de Vila Nova de Gaia, Fernando Peixoto, mobilizaram a opinião pública e os órgãos centrais para esta questão tão sensível. Hoje, António Sousa refere que não existe qualquer ressentimento, considerando que «o Cais de Gaia foi muito importante para a animação, visibilidade e rentabilização da zona».

Neste momento, as Caves de Vinho do Porto são candidatas a Património Mundial, o que possibilita perspectivas de crescimento para a SOCRENAVAL, nomeadamente, a criação de um outro estaleiro na zona da Afurada. Por agora, os barcos ‘Rabelos’ são utilizados, uma vez por ano, na Regata de S. João que é promovida pelas Caves, num esforço para impedir a degradação das embarcações.

À excepção dessas poucas horas por ano em que se vêem a navegar no rio, permanecem fundeados no Douro, servindo de suportes publicitários. De acordo com António Dixo de Sousa, «seria interessante animar o rio, organizar formações e cursos para ensinar as pessoas a navegar os ‘Rabelos’, organizar mais regatas». De facto, não há falta de interesse de estrangeiros que procuram, cada vez mais, partir num ‘Rabelo’ à descoberta do Douro. E também estes visitam o estaleiro, questionam os processos de construção das embarcações e interessam-se pela sua preservação.

Todavia, não são só os turistas que procuram este estaleiro e tentam saber da continuidade deste ícone portuense: também os órgãos de comunicação social estrangeiros o fazem. «É preciso que as pessoas se virem para o rio», afirma António Sousa. E talvez, assim, as pessoas passem a sentir as águas do Douro e a conhecer os seus recortes, navegando nos seus barcos, que há tantos anos, desenham o seu percurso.

26 junho, 2004

Como se faz um jornal em

Fazer jornalismo de imprensa exige, cada vez mais, uma rápida adaptação às novas ferramentas tecnológicas ao dispor dos jornalistas. Estivemos nas Redacções de três jornais diários do Porto, à procura do mito do fecho das edições. Descobrimos, na nossa passagem pelo "Jornal de Notícias", "Público" e "O Primeiro de Janeiro", que hoje o desafio é usar a tecnologia para trabalhar em rede.

Por: Carlos Duarte

A chegada de Jorge Sampaio ao Porto estava prevista para as oito horas da noite, mas o assessor de imprensa do Presidente da República acaba de comunicar que o chefe de Estado português não conseguirá aterrar no Aeroporto Francisco Sá Carneiro antes das 22 horas. Mudança de planos na redacção do "O Primeiro de Janeiro", não há tempo a perder quando o jornal não pode entrar na gráfica depois das 22 horas. A página reservada à visita de Jorge Sampaio dá lugar a ‘matéria congelada’, uma das expressões escutadas em todas as redacções. Ou seja, notícias mais resistentes à actualidade que são guardadas para socorrer a situações de falta de informação.

À medida que a noite avança, muitas das notícias do jornal do dia seguinte que pareciam definitivas deixam de o ser. Os planos das redacções alteram-se quando, à última hora, acontecimentos imprevistos impõem novos ajustamentos ao jornal. Dezenas de televisões distribuídas pela redacção do "Jornal de Notícias" (JN) começam a dar as primeiras imagens do ataque terrorista ao consulado inglês em Istambul, Turquia.

Os jornalistas, ocupados que estão com a conclusão dos seus textos, prestam pouca atenção às imagens de destruição. Começam, no entanto, os primeiros contactos do director adjunto do "JN", Alfredo Leite, para aumentar o número de páginas da edição do dia seguinte. Explica-nos que não consideram relevante enviar alguém para a Turquia uma vez que têm lá «bons contactos» e porque o repórter não chegaria em tempo útil.

Alfredo Leite é um dos quatro ‘reporters’ e dois fotojornalistas que podem cobrir cenários de guerra pelo "JN". O trabalho já o levou algumas vezes até à Turquia e, por isso, entre os seus contactos constam alguns dos portugueses mais importantes daquele país muçulmano. Sobre as imagens do atentado terrorista ao consolado inglês, Alfredo Leite alerta: «Temos que esperar um bocadinho… as primeiras informações são sempre contraditórias, pode ser um carro bomba ou outra coisa qualquer».

Uma Redacção deve estar preparada para dar resposta a estas situações imprevisíveis. Só as notícias mais recentes interessam aos leitores. São 19 horas e estamos em plena ‘hora de ponta’ no "JN", que é comum prolongar-se até à uma hora da madrugada.

Leitura crítica

Os conteúdos do jornal começam a ser planeados um dia antes. O "Público" faz a sua primeira reunião do dia por volta da 13 horas. Amílcar Correia, subdirector, e os editores sentam-se à mesa para fazer uma «leitura crítica» do jornal que está nesse dia nas bancas e pensar a edição do dia seguinte. Como nos diz José Augusto, editor da secção Minho, muitas das matérias dos jornais são previsíveis porque já estão agendadas.

O "Primeiro de Janeiro" tem métodos de trabalho muito semelhantes. É ao início da tarde que os editores e a directora indicam quem faz a cobertura de determinado evento em agenda. «Nesta altura já sabemos quais serão as linhas mestras da edição», afirma o editor Paulo Maia. Uma das três chefias, pelo menos, deve estar na Redacção durante a manhã para dar resposta a algum imprevisto.

Por esta altura já é possível decidir que textos preenchem cada página da edição que vai estar à venda no dia seguinte. «Se tivermos uma história da nossa região, é a história que prevalece. Um tema regional prevalece sempre sobre um tema nacional, salvo raras excepções», conclui Paulo Maia, editor do "Primeiro de Janeiro", jornal decano da imprensa regional.

O dia começa mais cedo no "JN". Às onze horas da manhã, a direcção, os editores (fotografia, infografia e direcção de arte) e os coordenadores elaboram o primeiro plano de páginas do dia, que tem em conta as quatro edições regionais do "JN": Nacional, Minho, Centro e Sul. A reunião é partilhada pela redacção de Lisboa em sistema de vídeo-conferência.

O plano de páginas provisório para o dia seguinte é elaborado ao fim da tarde. Por volta das 19 horas, Alfredo Leite, director adjunto do "JN", convoca o editor de fotografia e o editor de arte para a «reunião da primeira», em que se decide o tema da primeira página do dia seguinte e «como as restantes páginas serão orientadas». «Às vezes tem que se alterar os planos às nove horas da noite, é raro e traz muitas dificuldades», afirma Alfredo Leite.

Piquetes de serviço

Grande parte dos jornalistas da redacção do "Primeiro de Janeiro" só aparece à tarde, a não ser que tenha trabalho de manhã. Até às 18 horas anda-se a «velocidade de cruzeiro», mas com o passar das horas, a correria aumenta no exíguo espaço deste diário regional criado em 1868. É a única redacção que, em parte, ainda está organizada por secções, como antigamente. O desporto está num andar e as secções principais noutro, à face da rua.

Pelo contrário, no "JN" é de manhã que os jornalistas tratam dos temas locais. Durante a madrugada, há sempre piquete de serviço: um editor, um redactor e um fotojornalista no Porto e outro em Lisboa.

Os jogos de futebol, normalmente ao domingo, aumentam o ritmo de trabalho do "Primeiro de Janeiro" e do "JN". Esse é, no entanto, o dia mais calmo no "Público", tão calmo que alguns jornalistas até levam os filhos para a redacção. A paginação do "Público" é partilhada pela redacção de Lisboa e Porto. Todos os dias, cada redacção distribui, entre si, determinadas páginas do caderno principal. Além disso, a redacção do Porto ainda faz a paginação dos cadernos das edições do Minho, Norte e Centro e do suplemento "Fugas". Quinta-feira é o dia mais movimentado porque é o dia de fecho do "Fugas", suplemento de viagens que sai ao sábado.

Desafios de paginação

Cada jornal utiliza um método de paginação diferente. O "JN" recorre a um complexo sistema editorial composto por 400 páginas modelo. Dependendo do texto, é escolhido um formato de página, os paginadores podem sugerir alterações aos modelos, mas as excepções são sempre da responsabilidade do director de Arte. Uma das vantagens do sistema editorial utilizado pelo "JN" é que permite alguma flexibilidade: durante o dia, o plano de páginas pensado de véspera já foi alterado inúmeras vezes.

São 19 horas e o telefone continua a tocar no gabinete do director adjunto do "JN", Alfredo Leite: o departamento comercial está a negociar um importante contracto de publicidade. Até porque ninguém desvaloriza a sua importância. Amílcar Correio, subdirector do "Público", diz seguir o «modelo industrial» em que as páginas são pagas pela publicidade. Alfredo Leite, director adjunto do "JN", explica que as páginas são decididas em função dela: «não se pode perder publicidade». Chama «páginas brancas» às dedicadas à publicidade. Enquanto Paulo Maia, do "Primeiro de Janeiro", entende que seja necessário fazer alterações «dependendo dos contratos».

Paulo Maia dá muita importância ao aspecto gráfico do "Primeiro de Janeiro". Desde há um ano que este jornal regional adoptou um sistema de pré-maquetas, com algumas semelhanças ao "JN". O editor de serviço escolhe o modelo que os paginadores vão utilizar, todas as ordens são dadas através de uma rede local. «Muitas vezes temos que ser fiéis ao modelo que temos e não o podemos descaracterizar o grafismo», afirma o editor do "Primeiro de Janeiro".

No "Público" não se utiliza tanta tecnologia na paginação. O manual de desenho do "Público" e do "Fugas" estão sempre à mão dos paginadores caso surjam dúvidas na concepção de determinada página. José Soares, paginador do "Público", diz que no início havia alguma dificuldade em seguir as normas gráficas do manual de desenho, mas que hoje quase só se utiliza em casos raros de dúvida. Tanto o aspecto gráfico do "Público" como do suplemento "Fugas" foram desenvolvidos pela Bega Comunición, uma empresa desenho gráfico da cidade catalã de Barcelona.

Analógico ou digital?

O "JN" e o "Público" estão em lados opostos na utilização da tecnologia. Enquanto o "JN" só utiliza equipamentos digitais, o "Público" ainda utiliza os tradicionais analógicos. Amílcar Correia, subdirector do "Público", explica que «quando o jornal surgiu era totalmente inovador, hoje não é tanto assim». Há dois anos ainda adquiriam um complexo programa informático de base de dados que funciona em conjunto com os programas tradicionais de paginação, mas tem sido consecutivamente adiada a sua entrada em funcionamento.

No "Primeiro de Janeiro", quase toda a fotografia é feita em máquinas digitais, à excepção da revista de domingo, mas por opção. Manuel Roberto, fotógrafo do "Público", justifica a falta de equipamento digital: «Isto é muito democrático!».

Alfredo Leite, do "JN", considera que em jornalismo nunca se deve abrandar porque «todos os dias» surgem novas tecnologias. Num esforço de actualização permanente, é visitante regular das maiores feiras internacionais do sector tecnológico. Explica-nos que «em três anos tudo mudou» nas ferramentas de trabalho ao dispor dos jornalistas do "JN", diário portuense do Grupo Lusomundo. Hoje todos os jornalistas do "JN" podem andar pelo país com máquinas fotográficas digitais ou computadores portáteis.

Toda a Redacção do "JN" está ligada em rede. Os jornalistas podem escrever directamente na página do jornal e o editor acompanhar essa escrita. Mesmo quando estão num cenário de guerra, é possível às chefias acompanharem os trabalhos na redacção como se lá se encontrassem presencialmente.

No "Público", «ninguém dos gráficos reenquadra uma fotografia sem falar com a secção de fotografia», garante Manuel Roberto, acrescentando que os editores entendem que os editores de fotografia têm as suas competências próprias.

A pressão sob a secção de fotografia vai aumentando à medida que os paginadores vão pedindo as fotos para paginar os textos. Todos os jornais possuem um arquivo digital próprio, mas ainda estabelecem contractos com as agências de notícias que lhe fornecem fotografias.

Escolher as fotografias é uma tarefa de enorme responsabilidade, entende Manuel Roberto: «Temos que ter cuidado com as coisas que fazemos porque um erro pode pôr em causa as instituições». Paulo Maia, editor do "Primeiro de Janeiro", corrobora esta ideia e afirma que é importante «saber qual a imagem para inserir no texto que temos», entendendo que deve ser essa a função da Semiótica nos cursos de comunicação.

À última hora, é necessário encontrar a fotografia certa, o tempo é sempre escasso. É normal ouvir a pergunta: «É ao alto ou ao baixo?».

A etapa final

O trabalho dos jornalistas acaba a partir do momento em que a paginação é enviada para a gráfica. O "JN" é o jornal com o processo de impressão mais sofisticado. A primeira versão a entrar na máquina é destinada a ofertas, assinaturas ou aviões, mas é possível actualizar as notícias nas edições seguintes. Da mesma forma que são obrigados a mudar os planos de página inúmeras vezes ao dia, também as máquinas da gráfica chegam a parar para alterar determinada notícia.

A impressão do jornal não pode, contudo, atrasar-se senão a distribuição sai prejudicada. As únicas excepções são as edições especiais, mas, mesmo essas, nunca acontecem mais de duas ou três vezes ao ano.

Instrumentos dos jornalistas em cenário de guerra

Computador portátil - É um dos objectos mais preciosos para o repórter e nunca o deve abandonar. Por isso, quanto mais pequeno melhor. Os novos e pequenos "Tablet PC" são os mais cómodos. Para libertar espaço em disco, devem estar munidos de gravador de CD para arquivo das fotografias.
Telefone satélite - O mais pequeno de todos, o Thuraya, é o mais usado pelos jornalistas. Idêntico a um telemóvel, funciona com o vulgar cartão SIM em rooming e acciona de imediato um satélite assim que o sinal de uma operadora móvel falha. Não pode ser usado no sul de África nem no continente americano. Permite ligar o PC à internet e pode ser carregado através de um painel solar portátil. Mais recentemente, é usado o Bgan, modem da rede Inmarsat que permite aceder à internet via satélite a velocidades idênticas à netcabo ou adsl.
Bússola - Além de auxiliar a navegação pessoal, serve também para a orientação correcta do telefone satélite.
Lanterna - Pequena, para poder ser carregada a toda a hora. Deve ainda usar-se uma lanterna para fixar à cabeça, de forma a libertar totalmente as mãos em caso de necessidade. Uma luz para o PC, alimentada através de uma porta USB, é bastante útil para o caso de ser necessário escrever às escuras.
Cabos diversos - Para alimentação dos aparelhos e ligação a um computador remoto, caso seja necessário transferir ficheiros.
Cabo de segurança - Amarra o PC a um objecto pesado. Ideal para zonas de pouca segurança.
Kit de canivete suíço - Preso ao cinto para ser usado a qualquer momento, o canivete multifunções deve dispor de bússola de recurso, mini lanterna, pilhas, espelho reflector, relógio, pastilhas purificadoras de água e pensos rápidos.
Colete e capacete à prova de balas - É dos objectos mais detestados pelos repórteres. São incómodos, pesados e quentes. Mas podem salvar vidas. Os mais eficazes são fabricados em "Kevlar" com pratos frontais e traseiros para um índice de protecção IIIA, equivalente aos usados pelos militares.
Carregador multiusos - Liga-se ao isqueiro do carro e permite carregar praticamente todo o equipamento, desde o PC às baterias da máquina fotográfica, ou mesmo os telefones móvel e satélite.
CDs com software - Todos os programas usados no PC devem ser carregados para o caso de ser necessária a sua reinstalação.
CDs virgens - Para gravação de fotos e consequente libertação de espaço no disco do PC.
Fita gomada - Deve usar-se várias cores, sobretudo para identificar as viaturas da imprensa.
GPS - Aparelho de navegação que permite saber sempre as coordenadas de posição até nas regiões mais remotas.
Gravador digital - Funciona com um gravador convencional de repórter, mas permite baixar ficheiros (uma entrevista, por exemplo) e enviá-los para a Redacção através de correio electrónico.
Talheres - Para usar se não se for absolutamente obrigado a cumprir os costumes locais (em muitas regiões do Médio Oriente come-se com as mãos).
Luvas de alta resistência - Servem para trocar um pneu de um veículo, mas também podem ser usadas para remover arame farpado ou outros objectos que por vezes os militares deixam espalhados nas estradas.
Mapas - Sempre que possível, acompanhar-se de mapas o mais detalhados possível.
Saco de dormir - Para situações de improviso um saco de dormir ultra ligeiro.
Monóculo e altímetro - Do tamanho de meio maço de tabaco, o monóculo Minox é também altímetro, termómetro e relógio. Serve para observar movimentos distantes sem chamar a atenção.
PDA e teclado portátil - Serve de "back up" para uma eventual avaria do PC. Extremamente portátil, permite escrever textos ou mesmo visualizar fotos em "compact flash card".
Kit de primeiros socorros - Além de um conjunto de medicamentos básicos, deve ainda conter um termómetro e vários conjuntos de seringas e agulhas, instrumentos geralmente em falta nas zonas em conflito.
Venda - Útil para tapar os olhos para um sono diurno. Muitas vezes, com a diferença horária, o jornalista é obrigado a trabalhar de noite e a dormir durante o dia.
Telemóvel - Inútil nas zonas remotas até há uns anos, o telemóvel é cada vez mais usado em zonas desertas. No Iraque, por exemplo, há antenas GSM de curto alcance junto às unidades das forças da coligação.
Tomadas de corrente - Conjunto universal de tomadas de corrente eléctrica.
Tomadas de telefone - Conjunto de tomadas para ligação do telefone fixo ao modem do PC. Alguns cabos, incluindo um com ligação por crocodilos, são muito úteis.
Ventosa de gravação - Liga ao gravador portátil para a gravação de uma declaração em circunstâncias em que se torna difícil tomar notas num bloco (por exemplo, a circular numa estrada).
Fonte: Alfredo Leite, JN