01 junho, 2006
Sobrinho Simões: «o que me dá mais prazer é o trabalho em que vou ensinando e aprendendo»
Por: Maria de Fátima Assunção
Pessoas revista: Consegue destacar alguma das actividades que preenchem o seu vasto percurso académico/científico?
Sobrinho Simões: Consigo. Consigo distinguir como mais recompensadoras aquelas em que considero contribuir para que as pessoas aprendam alguma coisa, sejam médicos ou investigadores.
O que me dá mais prazer é o trabalho em que vou ensinando e aprendendo alguma coisa. Por outro lado, faço Medicina, diagnóstico de Cancro, todos os dias. Sou investigador. Agora, a actividade que me dá mais prestígio internacional é a função científica, sem dúvida.
Prev: Na sua essência, o que é o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto – IPATIMUP, quais as suas funções e objectivos, quais os seus sucessos efectivos?
SS: O IPATIMUP é uma Instituição que procurou juntar, professores universitários e investigadores de muitas faculdades. Tentou juntá-los tendo como objectivo estudar doenças humanas e, sobretudo, o Cancro.
Tínhamos gente que vinha das Faculdades e do mundo da Ciência, da Patologia Humana e da Genética. E fizemos uma Instituição que, na área do cancro da tiróide, do cancro do estômago, cancro da mama, está, na verdade, entre as melhores do Mundo. O que se prova não só pelas publicações. Fiz consulta para cancro da tiróide para dezanove países diferentes É assustador! Temos estes pequenos sucessos porque juntamos muita gente, de muitas faculdades.
A Fundação Luso-Americana pagou-nos, desde o primeiro ano, a vinda de avaliadores estrangeiros e concentramos as nossas sinergias em três ou quatro assuntos. Pela mentalidade portuguesa, teríamos não um, mas catorze pequenos IPATIMUPS e, no seu pequeno mundo cada um era o melhor de Portugal...!
Prev: Quais as consequências reais que o IPATIMUP tem para o Governo português, na perspectiva do investimento e da investigação, tendo em conta a sua projecção internacional?
SS: O Governo tem que consolidar Instituições. Não é dar dinheiro aos bocadinhos. Deve escolher as que lhe mereçam confiança e estabelecer com elas contratos-programa. No fundo, deve avaliar e recompensar. Tem de garantir as regras do jogo.
O Estado tem de introduzir no seu Orçamento Geral o financiamento-base das instituições e, depois, estimulá-las para que ganhem projectos europeus.Agora, não é criar mais função pública. É criar instituições sólidas, com um financiamento de base e, depois, trazer pessoas de fora para uma avaliação isenta.
Seria importantíssimo que o Governo também fizesse, no sistema universitário, o que tem feito no sistema científico: introduzir avaliação e prestação de contas. Deve introduzir-se isso, na Universidade.
Prev: Não considera, então, que o IPATIMUP tem sido subavaliado pelo Governo português...
SS: Não. Não temos nenhuma discriminação O que tem havido é algumas dificuldades nalgumas instituições do Centro e do Norte do país. Temos alguma dificuldade em competir com as instituições de Lisboa e Vale do Tejo que, geralmente, são protegidas.
Há, em Portugal, alguma tendência macrocéfala. Existem quinze laboratórios associados que estão espalhados pelo país, mas só três laboratórios de Estado foram criados na década de 50/ 60 e em Lisboa. Isto é um factor de assimetria assustador.
A capacidade de atrair miúdos para a investigação é muito diferente se se estiver numa região de laboratórios, ou não. No entanto, o meu laboratório tem sido muito bem tratado, dentro desta coisa de não ser lisboeta.
Prev: Que passos deveriam ser dados para fazer regressar a Portugal os investigadores que estão a desenvolver trabalho no estrangeiro?
SS: Criar as condições necessárias. Nós não pagamos mal: é uma questão de ambiente e massa critica e é, sobretudo, um problema institucional...
Não conseguimos criar em Portugal instituições sólidas, quer nas universidades quer nos institutos. Somos muito individualistas. Há um problema minifundiário.
Devíamos criar sinergias para podermos ser competitivos ao nível internacional. Somos competitivos nalgumas pequenas áreas de excelência, mas ganhamos poucos projectos europeus. Intelectualmente, não somos piores do que os outros competidores, o que não temos é nem organização, nem dimensão.
Prev: Tendo em conta a força que Portugal já esteve no Mundo, qual a sua opinião sobre o país de hoje, o que faltou e onde estaríamos?
SS: Hoje em dia, a globalização diminuiu muito a afirmação dos países. Portugal vai continuar a desempenhar o papel que conseguir, sobretudo, se alcançar a optimização das coisas em que somos bons e também as relações com o mundo que fala português e que é latino. Temos que privilegiar a nossa relação com o Brasil e com a África que fala português, até para resolver alguns dos nossos problemas de emprego...
Vamos ter, a curto prazo, um excesso de médicos e de técnicos. Um dos sítios onde devíamos ter uma colaboração muito eficiente e vontade mútua, era na área da Saúde, com o Brasil e com a África que fala português. A Medicina, as Ciências da Saúde, são instrumentos poderosíssimos de articulação entre os povos.
Prev: ...por questões de afinidade linguística!
SS: Não tenho dúvida nenhuma. Se for para os EUA, por exemplo, posso ter sucesso ou não: é um problema individual. Não posso articular uma estratégia com os EUA no domínio da investigação científica ou da Saúde, mas posso ter uma estratégia com o Estado brasileiro ou com um país africano!
Prev: A sua experiência profissional foi-lhe alterando ou enriquecendo a sua definição de Vida e de Morte?
SS: Foi, indiscutivelmente. Sobretudo, durante muito tempo, enriqueceu-me a ideia de Vida. A nossa investigação é, em vida, querer perceber a vida e como se organiza a vida. Com a morte do meu pai e com o nascimento da minha neta, do ponto de vista afectivo, estou muito mais atento ao problema da Morte, da minha morte.
Vamos vendo pessoas morrer, percebendo melhor os problemas do aumento da idade. Depois, há acontecimentos que são muito clarificadores: a morte dos pais (de qualquer um dos pais), é uma pancada. A morte de um irmão é outra, de grande violência, mas é exterior a nós... Percebi que ia morrer quando nasceu a minha neta.
Prev: Considera que o "modus vivendi" das sociedades ocidentais as torna mais vulneráveis às doenças do foro oncológico?
SS: Não, é só porque envelhecem. A não ser o tabaco que é, indiscutivelmente, um poderosíssimo causador de Cancro e os cancros de actividade profissional. Em termos de sociedades ocidentais, temos o tabaco e temos a velhice.
O cancro é uma doença da idade avançada e, por isso, vai continuar a aumentar, mas o número de pessoas que morrem desta doença está a diminuir. Há mais cancros, sobretudo porque, em Portugal, aumentou a esperança de vida o que fez aumentar a probabilidade de prevalência da doença e que é o que já está a acontecer nos países evoluídos.
Prev: E em Portugal há estatísticas fiáveis?
SS: Nós, em Portugal, não temos um registo de cancro nacional com dados actualizados: temos acesso aos dados das nossas Instituições. Por exemplo, eu sei o que se passa no Hospital de S. João. Porque é um grande hospital, posso usá-lo para comparar as tendências. Assim, sei que estamos a ter mais casos de cancro em todos os países do mundo ocidental, mas que não estamos a morrer mais dessa doença.
Prev: Vinte e seis anos após o seu pós-doutoramento, parece-lhe que as novas gerações podem ter esperança que o cancro poderá ter cura?
SS: Mais de metade dos cancros são, hoje, perfeitamente controláveis. A palavra Cancro, é uma palavra perigosa... No pulmão, estômago e pâncreas não estamos a lidar bem com ele. Por outro lado, no cólon, mama, próstata e intestino temos bons resultados.
As leucemias das crianças e os cancros da tiróide e do testículo curamos mais de noventa por cento. Este é um cancro muito frequente nos adultos jovens e está a aumentar, aparentemente, por causa da poluição das águas residuais, com todas as substâncias que parecem hormonas: os plásticos, os pesticidas, as pílulas femininas, etc.
Prev: É da opinião que não se deve esconder o estado do doente, como acontece, por exemplo nos EUA, ou considera preferível não dizer a uma pessoa que sofre desta doença, que não lhe resta muito tempo de vida?
SS: Isso é muito interessante. Nunca falei com um doente com cancro, enquanto seu médico. Sou contactado por um cirurgião, por um internista ou por um oncologista que me diz: "estude este caso e diga o que é que acha"...
A minha comunicação é com esse internista ou com esse cirurgião. Não tenho nenhuma experiência de comunicar aos doentes como profissional.
Como pessoa que anda metida nisto, tenho que arranjar um compromisso. Nunca podemos mentir aos doentes: temos é que se perceber muito bem como é que se diz a verdade.
A experiência que eu tenho, através de colegas com quem falo diz que quando um médico conhece o doente e vice-versa, o doente advinha pela expressão facial do médico, pela tristeza, que ele não tem boas notícias. Ora, se o médico demonstrar respeito, ternura, o doente sente-se mais à vontade para fazer algumas perguntas que são cruciais. E o próprio doente descobre a verdade. Tem que se ser muito cuidadoso…
Há outra coisa que é muito importante: é uma burrice dizer a uma pessoa que tem um tempo limitado de vida. O que se pode dizer é que: "Com a doença que o senhor tem, nesse estadio, pode durar muito, mas pode durar pouco. Se tem algum problema a resolver, resolva..."
Outra coisa que é preciso dizer aos doentes, é que, hoje em dia, há respostas terapêuticas inesperadas. Não vou dizer que o vou curar. Não vou mentir-lhe!... mas dizer-lhe que, se fizer a terapia indicada, há casos que têm muito boa resposta. Há que introduzir no doente alguma esperança, que não seja mentirosa, mas que seja reconfortante.
um dia ideal é «chegar a casa mais cedo para estar com a minha neta, a Mariana»...
Com uma forte ligação à família, que considera o seu porto de abrigo, para Sobrinho Simões, um dia ideal é «chegar a casa mais cedo para estar com a minha neta, a Mariana»...
Pessoas revista: Professor, tem hobbies?
Sobrinho Simões: Se tiver de identificar a minha obsessão maior, é o ler, porque foi o que perdi em relação à vida que levo. Para a lém disso, gosto de desportos colectivos e de andar junto do mar e da serra.
Por outro lado, como um terço dos meus fins-de-semana não são passados em Portugal, quando estou cá, vou para Arouca e para Vila Praia de Âncora, e aí ando de bicicleta. Também gosto muito de viajar e voltar aos sítios onde já estive.
Prev: ...e que temas gosta de ler?
SS: Gosto de ler tudo, com o disse, é de longe, a minha actividade favorita. Também sou um leitor obsessivo de jornais. Gosto de informação através do suporte físico.
Prev: Como é, para si, um dia ideal?
SS: Levantar-me com tempo para tomar o pequeno-almoço e ler os jornais. Num dia ideal, consigo ter tempo para ir almoçar com amigos ou a casa da minha mãe e poder "escapar", chegar a casa mais cedo para estar com a minha neta, a Mariana. Ler e ver um filme, também faz parte de um dia ideal.
Prev: Que papel tem a família na sua vida?
SS: Venho de uma família numerosa. Fui educado de uma forma patriarcal e matriarcal. Só aguento a vida que levo porque tenho uma família que me dá todo o apoio. A família é a única coisa que me liga de forma segura ao Mundo, é a grande instituição onde tenho a minha âncora.
Prev: Tem uma palavra para se definir?...
SS: "Professor"! ...porque é aquilo que gosto de ser, de ensinar e aprender.
Prev: Tem um lema para a vida?
SS: Trabalhar! Tiro muito prazer do trabalho. No limite, penso que ganhávamos em passar para as novas gerações que, seja qual for a evolução do mundo, há uma coisa segura: não conseguimos nada sem trabalho.
28 maio, 2005
Para além da Juventude: o despertar para a problemática dos idosos
De algumas décadas para cá, a esperança de voda alongou-se de forma notável e as famílias começaram a ter que se preocupar com os seus idosos. De acordo com os dados do Ministérios do Trabalho e da Solidariedade Social, o número de pensionistas por velhice, de 1990 para 2004, subiu de 1.329.049 para 1.662.046, verificando-se, no grupo etário acima dos 84 anos a maior mudança: de 89.683 para 148.816. A Geriatria, especialidade médica dedicada aos idoso, tem-se tornado, portanto, um anecessidade crescente nesta nova realidade.
Por: Leonora Gonçalves
António Leushner, director do Serviço de Psicogeriatria do Hospital Magalhães Lemos, chama a atenção para a importância absoluta das Ciências Geriátrias, para além das estatísticas populacionais.
«A importância absoluta é a que resulta de que nós todos nos devemos preocupar com as pessoas mais velhas, com os processos de envelhecimento que conduzem a essa fase da vida e porque nós próprios nos relacionamos com o envelhecimento, à partida dos filhos, à solidão ...a um conjunto de problemas que está muito associado aos idosos», ressalta este profissional.
Leushner aborda ainda a relevância dos serviços psiquiátricos específicos para o cidadão sénior e esclarece no que consiste a Psicogeriatria: «É, de alguma maneira, o conjugar de duas preocupações: por um lado as da Geriatria e, por outro, as da Psiquiatria. E é disso que se ocupa, fundamentalmente: das perturbações mentais, de comportamento e psicológicas nessa fase da vida».
De acordo com Sara Melo, animadora sócio-educativa no Centro Social Paroquial de S. Tiago de Silvalde, ainda há alguma confusão em perceber no que consiste a especialidade.Para esta educadora social, «as pessoas que têm realmente conhecimento sobre a gerontologia e a geriatria são apenas os profissionais da área da saúde ou da solidariedade social» e a maior parte da população não têm qualquer ideia da distinção entre esta ciência e outra qualquer.
Quanto aos interesses e processos mais frequentes na Geriatria, a especialista Dolores Fernandez, docente da Universidade Fernando Pessoa, no pólo de Ponte de Lima, explica que qualquer patologia do adulto pode apresentar-se no idoso, mas neste a situação é mais complicada pela coexistência de outras patologias.
Dentre estas temos, como exemplos mais frequentes, insuficiências orgânicas e ósseas a vários níveis, demências, doença de Parkinson, diabetes, a síndrome de imobilidade (com as suas consequências) e os problemas de alimentação, levando muitas vezes a problemas graves de malnutrição.
Os Lares e as residências
A falta de formação dos auxiliadores para a saúde nos lares de terceira idade é uma das grandes deficiências no apoio aos idosos em Portugal.
De acordo com o Psicogeriatra António Leushner, «na grande maioria dos casos a preparação é muito próxima de nada e há muito poucas exigências de formação». Tem de haver, na visão deste Psicogeriatra, «uma formação prévia e também uma formação continuada do pessoal».
Directora de uma empresa pioneira no cuidado domiciliário a idosos, a “Avós e Netos”, Beatriz Pires repreende o fenómeno das residências assistidas, os denominado ‘lares de luxo’: «Parece que toda gente encontrou um problema: a velhice, a falta de natalidade... descobriram a pólvora. Decorrente disso, alguns grupos económicos resolveram tomar o seu filão de ouro. Criam-se, assim, exemplos mirabolantes de ‘residências assistidas’, que cobram preços exorbitantes e que são uma solução apenas para uma parcela ínfima da população», explica.
Sara Melo considera muito mais proveitoso a presença de um médico geriatra permamente ao invés de apenas duas vezes por semana. «Dessa forma, o médico poderia com muito mais eficácia ir ao encontro de muitas das doenças que os nossos idosos apresentam, dado que para serem ouvidos ou terem atenção os idosos, muitas vezes, começam a sentir dores que não existem e que nenhum medicamento consegue amenizá-las», salienta.
Abandono e Solidão
A falta de apoio dos familiares para com os mais velhos envolve questões económicas, mas também questões éticas. É impressionante constatar que nos hospitais portugueses existam de camas ocupadas por idosos sem qualquer tipo de doença, mas que não recebem alta simplesmente porque não têm para onde ir.
De acordo com o Psicogeriatra António Leushner, é essa negligência e abandono que leva muitas vezes a que os mais velhos desenvolvam problemas de saúde do foro psiquiátrico: «A solidão pode ser um sentimento que se sobrepõe ao isolamento, ou seja, as pessoas podem não querer ter muitos contactos sociais... Mas podem viver isso com angústia e a solidão é, de alguma maneira, o lado negativo do isolamento», explica.
Também Beatriz Pires aborda a problemática da solidão. «Uma pessoa que trabalhe sente que os dias passam a correr, mas para o idoso, que está em casa o dia todo, isso não é assim o que pode desencadar num sentimento profundo de tristeza», salienta a gestora.
Uma melhor forma de actuar
Dolores Fernandez defende que um profissional que trabalhe com idosos não pode abordar a Geriatria como uma ciência em si, «mas deve sim adaptar-se às características do subgrupo populacional no qual actua».
Na percepção da especialista devem ser quatro as preocupações primordiais de um Geriatra: (1) a promoção da saúde e prevenção das incapacidades da pessoa idosa; (2) a diminuição da mobilidade e o retardamento da dependência e institucionalização, (ajudando, assim, à permanência do idoso no seu domicílio com maior qualidade de vida possível); (3) a identificação das pessoas com maior risco de perda de autonomia e (4) a atenção à dependência nas actividades da vida diária.
A permanência do idoso no seu domicílio é um conceito novo e ainda pouco valorizado pelos poderes governamentais. Beatriz Pires alerta para a falta de apoios do Estado para soluções alternativas aos lares de terceira idade: «Se calhar é mais fácil legislar no sentido do apoio domiciliário ser comparticipado e que se criem condições para as famílias ficarem com os idosos em casa, do que estar a investir em lares, que demoram muito tempo a concretizar e que têm custos muito elevados», afirma.
Beatriz Pires aponta ainda para o bem-estar psicológico do idoso como mais um aspecto a considerar na solução do apoio residencial. Segundo a gestora, para os mais velhos, sair do local onde sempre viveram, «onde têm as suas memórias de vida, para residirem em lares é uma mudança muito drástica e traumática».
A educadora social Sara Melo, que já teve experiências de trabalho em lares de terceira idade, deixa uma possível solução para a problemática que envolve os idosos na sociedade em que vivemos: «Se fossem disponibilizados profissionais na área da Geriatria em diversos serviços da sociedade seria uma revolução em prol do bem-estar do idoso e da mentalidade do povo Português. Tenho a certeza que o idoso ganhava um espaço muito mais digno no seio da nossa sociedade e não aquela ideia de um ‘coitadinho’ sozinho, velhinho com frio e triste, que quase toda a gente tem em mente».
Vasco Almeida: Vocação - ciência genética
Por: Leonora Gonçalves
No seu gabinete na Faculdade de Ciências do Porto, o Professor Vasco Almeida recebe-nos para a entrevista.
Rodeado por artigos e trabalhos que representam anos de estudo e investigação, provavelmente indecifráveis ao leitor comum, relata-nos com surpreendente humildade a sua história e o seu percurso notável na área científica.
Vasco Almeida, de 47 anos, nasceu e foi criado no Porto. Desde muito cedo soube que sua vocação era a Ciência. Frequentou o curso de Biologia na Faculdade de Ciências do Porto e hoje é professor de Genética na Instituição que o viu formar-se.
A sua actividade profissional actual prende-se também com a biologia da reprodução, desenvolvendo investigação nesta área no Centro de Estudos da Infertilidade e Esterilidade (CEIE), uma das instituições de maior reconhecimento neste âmbito e que tem como objectivo o estudo e o tratamento de situações de infertilidade/esterelidade e aborto recorrente.
Vasco Almeida é um nome sonante no campo da investigação genética em Portugal e no estrangeiro, uma vez que fez parte da equipa de cientistas que desenvolveu a técnica do Diagnóstico Genético Pré-implantatório da Paramiloidose (também conhecida por “doença dos pezinhos”), permitindo que filhos de pais portadores da doença pudessem nascer saudáveis.
A relevância da descoberta é inquestionável, uma vez que a Paramiloidose é uma doença ainda sem cura e que tem, em Portugal, o maior foco do mundo em termos de número de casos diagnosticados.
«O apoio do Estado à investigação genética é muito precário», lamenta Vasco Almeida salientando que, em conjunto com seus colegas envolvidos nesta área, alertou inúmeras vezes para a falta de investimento em laboratórios minimamente equipados para a actividade científica, o que implica inúmeras dificuldades e entraves para uma evolução efectiva da investigação em Portugal.
Uma das propostas de Vasco Almeida é a criação de uma unidade laboratorial de genética no Hospital de Santo António, para dar respostas à estas necessidades, mas não pensa que seja exequível a curto prazo, ao menos, enquanto a escassez de apoios se mantiver. «Cada nova descoberta é um estímulo para gerações futuras» garante o professor e que, actualmente, sente por parte dos seus alunos, um grande interesse pela área de investigação genética.
Apesar do estatuto que conquistou, Vasco Almeida diz que nunca nos devemos acomodar e que «é preciso aprender sempre». Tem como objectivos profissionais a continuação do desenvolvimento de estudos genéticos quer da Paramiloidose, quer de outros tipos de doenças e também de estudos no campo da infertilidade masculina e feminina.
Jorge Sousa Braga: Doutor Poeta
Por: Leonora Gonçalves
Jorge Sousa Braga, de 47 anos, nasceu numa localidade perto de Braga, onde passou a maior parte da sua juventude até ingressar, no Porto, no curso académico no qual, segundo ele, tinha os olhos postos desde pequenino: Medicina. Como área de especialidade escolheu a Ginecologia/Obstetrícia, porque, afirma, «é onde tudo começa».
Actualmente, trabalha no Serviço de Ginecologia do Hospital de Santo António e dedica-se, também, à investigação genética e fazendo parte de uma selecta equipa no Centro de Estudos de Infertilidade e Esterilidade (CEIE), cujo objectivo é o estudo e o tratamento de situações de infertilidade/esterilidade e aborto recorrente.
Para o ginecologista, a sua especialidade profissional tem uma relação intrínseca com a investigação genética: «Numa primeira fase há a manipulação dos embriões e a sua implantação, que está no domínio da Genética e, depois, temos a Ginecologia e a Obstetrícia, na medida em que todo o desenvolvimento do bebé se passa dentro da mãe», explica.
Jorge Sousa Braga, no entanto, tem uma característica peculiar: o gosto pela Poesia. Já tem alguns livros de poesia publicados, especialmente dedicados às crianças, dentre os quais se destaca “Poemas com Asas”.
Sobre a possível incompatibilidade entre algo tão sentimental e íntimo como a Poesia e, a Medicina, uma ciência que implica distanciamento e imparcialidade, Jorge Sousa Braga desmistifica: «Essa é uma falsa ideia, a Poesia e a Medicina não são paradoxais. Na área da Genética, trabalhamos com Poesia pura. Os aspectos que envolvem os embriões, a fecundação e o deselvolvimento dos bebés também podem ser considerados poéticos».
Dentre os grandes feitos profissionais de Jorge Sousa Braga, destaca-se especialmente um, na área da investigação genética: a contribuição para que fosse desenvolvida a técnica do Diagnóstico Genético Pré-implantatório da Paramiloidose, vulgo “doença dos pezinhos”. Doença esta que, em Portugal, afecta milhares de pessoas, principalmente na região Norte do país.
Através desta técnica, foi possível pela primeira vez garantir que o filho de um casal portador da doença nascesse saudável. Foi, de facto, um verdadeiro marco na história da investigação genética.
Quanto ao futuro profissional, Jorge Sousa Braga pretende continuar a trabalhar na área do estudo da infertilidade e também no estudo de novas técnicas aplicada à Paramiloidose e à outras patologias. E, é claro, a escrever poesia.
Dadores de sangue
Por: Amanda Alves
O Instituto Português de Sangue (IPS) revelou que, no ano passado, os dadores de sangue portugueses - que são, na sua maioria, masculinos - proporcionaram 303 mil dádivas: um número que quase permite a auto-suficiência dos hospitais do nosso país.
António Lopes é ex-aluno da Universidade Fernando Pessoa (UFP) e dador de sangue há cerca de 10 anos. Começou por uma brincadeira de fim de noite: «na altura ainda estava a tirar o curso e, nesse dia, vínhamos de uma noitada. Na chegada à UFP, vimos um peditório do IPS nas instalações e como estavam a dar comida, disse: “Porque não?!” ...e, desde aí, sou dador».
António já acabou o curso mas ainda agradece à Universidade por esta inicitativa (que se repete sempre que solicitada pelo IPS) e sente-se feliz em dar sangue pois: «é o poder anónimo de ajudar alguém». Por essa razão, sempre que pode incentiva amigos e colegas a fazerem o mesmo, pois acredita que os portugueses ainda não estão sensibilizados para esta causa primordial.
António Russo tem 74 anos e também é dador: «senti necessidade de o fazer há cerca de 20 anos atrás para poder salvar a vida de meu pai que estava a precisar urgentemente de uma transfusão. Desde aí que sou dador pois vejo a importância de o fazer». Mais do que isso, António já necessitou de sangue também para lhe salvar a vida: «por essa razão, dou ainda mais valor à dádiva».
Marisa Alves não é dadora mas já necessitou muito de uma transfusão de sangue: «fiz uma operação e como no pós-operatório não estava muito bem, necessitei urgentemente de uma transfusão de sangue. Nunca pensei que fosse precisar mas precisei e foi muito importante». Desde aí que sentiu na pele a importância que existe em dar sangue pois: «podemos salvar várias vidas de uma forma tão simples!»
Liga dos Amigos do Centro Hospitalar de Gaia
Por: Joel Silva
9:00 horas da manhã. Hospital Santos Silva, Vila Nova de Gaia. Nos corredores vão-se aglomerando dezenas de pessoas com consulta marcada. O ritmo lento com que se processa o atendimento faz desesperar o mais calmo dos mortais. Surge então o serviço de cattering disponibilizado pelos Voluntários da Liga dos Amigos, do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.
Este serviço só é possível graças «à grande contribuição do Banco Alimentar», de acordo com Olímpio Ferreira, médico-reformado, vice-presidente da instituição de apoio hospitalar, que alberga cerca de 160 voluntários.
A Liga de Amigos do Hospital de Gaia nasceu há 15 anos. As suas motivações altruístas e de invulgar solidariedade são os alicerces do crescimento e importância patenteada nos últimos anos, que eleva a instituição a uma das mais emblemáticas do concelho de Gaia.
«É, de facto, com orgulho, que todos temos acompanhado o crescimento desta instituição. O mérito pode ser repartido por muitos, desde os voluntários, até às administrações do Hospital Santos Silva, que sempre contribuíram de uma forma activa para o bom funcionamento da mesma», refere este antigo profissional da medicina.
Dina Barbosa, é uma dessas 160 voluntárias. Reformada, Dina já leva mais de sete anos de voluntariado, tempo esse que tem servido para a mesma «enriquecer a todos os níveis, através da ajuda a doentes e pessoas internadas carentes de apoio». É este sentimento de solidariedade que reina e faz com que todos tentem convergir no lema e bandeira da instituição.
Conta Ilda Carvalho, outra voluntária, que «por vezes é extremamente difícil confrontarmo-nos com um paciente que tem uma doença terminal, ou irá ser brevemente amputado. Nessas situações resta-nos dar toda a nossa atenção e carinho». Ilda cumpre as suas funções no departamento de cirurgia vascular. O quotidiano desse departamento obriga-a a enfrentar situações de angustiante sofrimento físico e psicológico. «Temos de ser fortes - diz a voluntária - são de facto muitos aqueles que, perante a adversidade pensam em desistir, simplesmente deixar de lutar», conclui.
Se não é fácil acordar e depararmo-nos com uma realidade completamente transfigurada, mais difícil é ver aqueles que nos são queridos sofrerem constantemente, sem nada a fazer. É esta a história de Lucinda Torres, 55 anos, desempregada, que na altura desta reportagem cumpria o primeiro dia de voluntariado na Liga dos Amigos do Centro Hospitalar.
A vida pregou-lhe uma partida cruel, já que a sua mãe padecia de uma grave doença, o que a obrigou a abdicar da sua vida activa. O tempo que passou nos cuidados médicos com a mãe, levou-a a conhecer este grupo de pessoas e prometeu: «no dia em que a minha mãe partir, irei ser mais uma». Promessa cumprida, Lucinda é duplamente feliz.
A história de Lucinda é um factor comum entre muitos dos voluntários que aderiram à liga depois de se terem confrontado com uma tragédia familiar, ou no seio dos que os rodeiam. Muitos são aqueles que fazem do seu tempo livre um espaço de intervenção e conforto para aqueles que mais necessitam.
A receptividade por parte dos doentes é, por norma, acolhedora, embora haja casos de isolamento extremamente difíceis de combater.
Balbina Correia, 72 anos, esteve internada cerca de duas semanas devido à fractura de uma perna. Salienta o importante papel dos voluntários que privaram com ela durante a sua curta estadia: «É gente formidável. Nos dias que correm, é normal acharmos que existem só pessoas que pensam primeiro em si e só depois nos outros. Ainda bem que isso é mentira e quero acreditar que, como muitos voluntários, ainda há muita gente boa espalhada por esse mundo fora». Opinião partilhada por Lurdes Maria, 85 anos, e que parece ser, sem duvida, o sentimento dominante entre os muitos que já foram tocados por esta causa.
28 janeiro, 2005
Diário infantil de esperanças renovadas
Nove horas e trinta minutos, sexto piso. Saio do elevador e deparo logo com espaços coloridos. Acabo de entrar na ala de Pediatria do Instituto Português de Oncologia do Porto.
Por: Cláudia Ferreira da Silva
Ao longe, olhares curiosos observam tudo ao pormenor. Vejo ansiedade, curiosidade, medo, vergonha e esperança entre tantos outros sentimentos contraditórios.
Depois de se passar, ouve-se um «olá!» tímido e nervoso. É o Ruben. Passados cinco minutos, já está na conversa como se fosse amigo de há muito. O pai, José Silva, explica que hoje, mais uma vez, o Ruben vai ter alta. «Acabou mais uma sessão de quimioterapia. Não sei quando teremos que voltar, mas o importante é que, para já, vamos para casa», diz.
Uns olhos ansiosos pela partida revelam que a alta é o momento mais esperado. Abraçar a mãe e a pequena irmã é o próximo passo. «Sim, porque aqui – explica o pai – temos de viver um dia de cada vez. Este é, aliás, um sentimento partilhado por todos aqueles que diariamente vivem neste piso».
O Ruben é um menino de nove anos com uma vida pela frente. Isso está patente em cada movimento que faz, em cada palavra que profere. Brincalhão, inteligente e com um cálculo mental invulgar, revela que quer continuar a estudar «para um dia ser doutor». Para tal, frequenta todos os dias a sala de aulas do Instituto Português de Oncologia, aí continua com os seus estudos e aprende coisas novas todos os dias, sempre com esperança. Para um futuro próximo, avizinha-se um transplante à medula, cujo doador será a irmã. O Ruben tem leucemia de alto risco.
No quarto em frente encontro a Ana, de seis anos, sentada, a brincar com a mãe. Olha para mim com um sorriso maroto e travesso, e um olhar encantador. Pergunta o que queremos. Acha-me chata e não me quer deixar falar com a mãe. Mostra o brinquedo e explica que é com aquilo que está a aprender as letras e os números, com muitos sons à mistura, para ajudar. Pergunto há quanto tempo ali está: não sabe. «Aqui o tempo passa rápido e como, de cinco em cinco dias, os tratamentos acabam, vou para casa», explica.
Foi-lhe diagnosticado um tumor maligno de órbita, aos quatro anos. Enquanto que o transplante do doador alemão não chega, os seus dias são passados ali, entre o colo da mãe, a dor dos tratamentos e a alegria de aprender, todas as tardes, algo de novo na sala pedagógica. «Ali aprendo, pinto, brinco e porto-me mal como os outros meninos». Para a mãe, Paula, a esperança é o que ainda a traz ali para dar forças à Ana.
Para o Sérgio, as brincadeiras e travessuras normais a um menino de dez anos são limitadas, uma vez que uma doença genética no cérebro o impossibilita quer de andar, quer de brincar. Em Maio deste ano, a mãe Fátima descobriu que o Sérgio também tem um tumor no pescoço. Com um sorriso estampado no rosto, o menino continua a ver os desenhos animados, alheio a tudo o resto que se passa à sua volta. Quando lhe pergunto se sabe o que tem, abana com a cabeça e responde, apenas, que acredita em Jesus.
Nesta ala há muito mais do que médicos, enfermeiros ou auxiliares. Aqui há voluntários da Liga Portuguesa Contra o Cancro, há membros da Associação de Pais e Amigos das Crianças com Cancro (ACREDITAR), há uma professora e várias educadoras.
Aqui, o importante é tratar a criança com cancro e não só o cancro da criança. Para tal, Filomena Cardoso, professora do primeiro ciclo, ajuda todos os dias a que um menino saia da sua sala com um bocadinho de conhecimento a mais. Confessa que o tempo foi o seu grande mestre e a experiência de duas décadas de ensino especial, também.
O carinho pelas crianças levou-a a concorrer ao ensino especial e a ser colocada no IPO, há já três anos. Neste tempo, muitas alegrias e tristezas ocorreram, mas a vontade de ensinar permanece. Revela que, aqui, o ensino se diferencia-se do ensino normal, pela ausência de livros e pela permanência em aulas individualizadas, de acordo com a personalidade e disposição de cada criança. «Aqui não há regras, nem horários. A sala está aberta toda a tarde a cada aluno que quiser e estiver com disposição para aprender», diz Filomena Cardoso.
São 15 horas e a sala de apoio pedagógico está cheia. «A maior dificuldade é mesmo criar uma boa disposição ao aluno quando este sabe que terá que fazer um exame complicado, a qualquer momento», explica a professora. Dos pais, obtém a maior receptividade possível. Todos acham que, com as aulas, os meninos terão uma continuidade no ensino, não quebrando a sua rotina.
A Liga e a Associação ACREDITAR, trabalham em parceria com a constante preocupação em animar e mimar a criança, sem que esta o perceba. São inúmeras as actividades que preparam, desde saídas aos arredores do Porto, até ateliers de pintura ou de teatro.
A cura pela música
Em Portugal, esta forma de psicoterapia complementar começa a dar os primeiros passos. Se for devidamente adoptada e desenvolvida,a musicoterapia pode constituir uma opção complementar válida para a reeducação de crianças ou adultos com deficiências motoras, sensoriais ou afectivas, atrasos na linguagem, ou com dificuldades mentais.
Por: Maria Manuel Freitas
O João (nome fictício) é um menino de oito anos e é autista. O autismo é uma perturbação típica do desenvolvimento, a qual se manifesta, normalmente, antes dos três anos.
A doença traduz-se em dificuldades ao nível das interacções sociais na comunicação (atraso ou ausência total no desenvolvimento da linguagem verbal) e no comportamento (incapacidade de se adaptarem a mudanças no seu ambiente frequente; fisicamente, são comportamentos estereotipados, como o balanceamento da cabeça, movimentos com os dedos, saltos e rodopios).
Há três anos que o João frequenta um Gabinete de Psicologia, o Psicorumo, uma associação onde meninos como ele ou com outro tipo de perturbações podem encontrar um apoio terapêutico, nomeadamente, ao nível da Musicoterapia.
Margarida Rocha, musicoterapeuta, acompanha o João há três anos e considera que, apesar de toda a problemática clínica inerente a esta patologia, são visiveis o desenvolvimento e os progressos a vários níveis que o menino tem feito. A mãe partilha a mesma opinião e assegurou-nos que a musicoterapia «tem sido, sem dúvida, a terapia que mais e melhor tem ajudado o João».
Margarida Rocha salienta que, em primeiro lugar, deve ser feita uma avaliação da criança «em contacto directo, valorizando a interacção e analisando as suas respostas». O objectivo é conhecer as reacções da criança perante determinados estímulos musicais: «Se não reage, pressiona-se, mesmo que a reacção seja de rejeição», explica aquela técnica.
Posteriormente, avalia-se a resposta aos instrumentos ou do material circunstancial. «Isso serve para ver como a criança usa e manipula esses objectos, como reage aos sons ambiente», diz Margarida Rocha. Em suma, a musicoterapia procura avaliar as competências da criança ao nível da comunicação verbal, vocal e gestual (comunicação não verbal). No fim de cada sessão, esta terapeuta reúne com a mãe do João para comentar a sessão.
Em mais uma sessão, que a sua mãe autorizou a PESSOAS a assistir, o João mostrou-se afável, sorridente, meigo e muito receptivo ao toque. No aquecimento que deve presidir a cada sessão, foi colocada uma música a tocar. «O objectivo é observar a sua vivência corporal num tempo e num espaço. A reacção ao ritmo é muito importante. Mas, principalmente, é preciso mostrar que essa música tem um fim. Por isso é que ele pára quando a música termina», explica a musicoterapeuta. Em seguida, Margarida proporciona o contacto com os instrumentos.
Há uma interacção musical através de diálogos e improvisações. O João foi respondendo positivamente, com um ou outro olhar desviado durante a actividade o que, embora seja considerado normal, implica o recomeço da terapeuta na captação da sua atenção.
A sessão chega ao fim. O João recebe a mãe na sala, que se senta e o afaga, juntamente com Margarida e um outro menino que aguarda pela sua vez. A mãe do João e a sua terapeuta partilham a alegria do menino com o aproveitamento positivo da sessão. Mãe e filho vão embora, agora para casa, até ao próximo encontro.
Um passado presente
A musicoterapia tem as suas raízes na sabedoria cujas origens se perderam no tempo. O homem antigo desconhecia métodos organizados de "terapia de sons". Mas, na verdade, nem precisava deles, pois conhecia espontaneamente a sua influência. O terror provocado pelos trovões, a tranquilidade do ruído da chuva fina, as melodias produzidas pelos pássaros, o som de uma flauta, são exemplos de sentimentos e efeitos inexplicáveis que sempre atraíram e exerceram forte influência sobre o ser humano.
Segundo a definição aprovada pela Federação Mundial de Musicoterapia, "a musicoterapia tem por objectivo desenvolver potenciais e/ou restaurar funções do indivíduo, a fim de melhorar a sua integração intrapessoal e/ou interpessoal e, em consequência, adquirir uma melhor qualidade de prevenção, reabilitação ou tratamento".
Além disso, numa altura em que somos tão prejudicados pelo barulho, por sons agressivos, pela música dissonante ouvida em volume demasiado alto, a musicoterapia torna-se cada vez mais necessária, dada a incontestável e enorme influência da música e dos sons no equilíbrio do ser humano e em aspectos como: o ritmo cardíaco, a pressão arterial, o equilíbrio térmico, o metabolismo geral, o volume de sangue, a secreção do suco gástrico, entre outros.
A Associação Portuguesa de Musicoterapia (APMT) é uma organização sem fins lucrativos que congrega profissionais de musicoterapia. Segundo Gabriela Gil, vice-presidente da APMT, ainda há muito por fazer: "É preciso lutar pelo reconhecimento oficial da musicoterapia em Portugal, investir na seriedade do exercício da profissão, colaborar com instituições públicas e privadas na definição e concretização de políticas no âmbito da musicoterapia, fomentar o intercâmbio e a difusão de experiências entre os indivíduos e as instituições interessadas em musicoterapia, no país e no estrangeiro".
Para isso, esta organização vai desenvolvendo diversas actividades como seminários, congressos,’ workshops’, sem esquecer a tentativa de dar resposta aos inúmeros pedidos de informação sobre musicoterapia, por e-mail ou por telefone. Permanente será a luta pelo exercício da musicoterapia com seriedade e por profissionais com habilitações adequadas e o empenho em colaborar em iniciativas de divulgação, informação e encaminhamento de serviços na área de Musicoterapia.
22 junho, 2004
Anorexia: beleza em estado sórdido
Qualquer um de nós já viu, nas reportagens de televisão, ou até numa revista, relatos na primeira pessoa, sobre doentes que padecem de Anorexia. Esta doença, aparentemente menos preocupante do que outras, é difícil de resolver. Em muitos casos, pode ser fatal.
Por: Andreia Carneiro
A palavra ‘anorexia’ designa a falta de apetite. Mas, de facto, essa falta de apetite não corresponde à realidade: o que acontece é uma recusa consciente em se alimentar. Um fenómeno muitas vezes associado a pessoas que pretendem manter um peso abaixo do que seria desejável, tendo em conta a sua altura e idade.
Os médicos explicam a doença como uma distorção na percepção do esquema corporal, pois, sempre que o anoréctico se olha ao espelho, mesmo com uma diminuição constante do seu peso, continua a achar-se gordo. Este ciclo é tão preocupante que, em alguns casos, se não se pede ajuda a tempo, a situação acaba em fatalidade.
As mulheres são as mais afectadas por esta doença, mas desengane-se quem pense que os homens não podem padecer dela. Quanto à idade de maior risco, situa-se entre os 13 e os 30 anos.
Os médicos que estudam o problema não conseguem detectar qual a sua causa principal, mas apontam um quadro de factores que aumentam o risco de a contrair: a combinação de elementos biológicos tais como a pré-disposição genética, ou conflitos familiares e sociais.
Normalmente, tudo começa por uma simples dieta, retirando da sua cadeia alimentar alguns alimentos que o paciente sabe que contêm um elevado número de calorias. Depois, a quantidade de alimentos a ingerir vai diminuindo de forma vertiginosa, ficando a dieta alimentar seriamente restrita.
O problema agrava-se ainda mais quando os anorécticos juntam a esta má qualidade alimentar um elevado esforço físico, passando uma grande quantidade de horas no ginásio. Em casos mais extremos, tudo isto é complementado pela auto-indução do vómito.