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01 junho, 2006

Voluntariado: altruísmo em tempo livre

São jovens, estudam, trabalham, têm inúmeros projectos por realizar, mas o voluntariado tem sempre lugar nas suas vidas.

Por: Fátima Pereira

Todos os anos, em Janeiro, as portas do Instituto Português de Oncologia (IPO), do Porto abrem-se para novos voluntários. Maria Helena Quinta, directora deste serviço, acolhe estes jovens e ajuda-os a integrarem-se num dos dezasseis serviços que a Liga Portuguesa Contra o Cancro tem. «Fazemos uma formação geral por ano. Depois, os responsáveis de cada serviço levam os voluntários e ensinam-lhes o modo como se fala com um doente», explica Maria Helena.

O serviço preferido é o de Pediatria. «No último curso, vinte dos cinquenta voluntários foram para Pediatria e os outros departamentos ficaram com pouca gente», desabafa a directora do voluntariado.

Voluntariado forçado

A palavra ‘voluntariado’ torna-se cada vez mais comum graças à Internet ou, mesmo, pela indicação de um amigo, mas existem outros motivos.

«Há muitos universitários interessados e, até, jovens recém-formados. Aqui, aparece gente de todas as áreas...», refere Maria Quinta mas, tal como refere a enfermeira Sónia Castro: «há cada vez mais a ideia de que fazer voluntariado é enriquecedor, em termos de curriculum. Existem empresas que valorizam este aspecto, ao contratarem alguém. Só que corremos o risco das pessoas só o colocarem no curriculum e, depois, não exercerem».

O voluntariado nem sempre é feito por iniciativa própria, mas o caso agrava-se quando o voluntário passa a ser o próprio paciente. «Infelizmente, há algumas pessoas que vêm para aqui porque os psiquiatras o sugerem! ...Eles acham que os pacientes estão cá para ocupar o tempo dos voluntários, mas as pessoas que tem depressão não devem ser voluntárias, enquanto não estiverem curadas», explica Sónia.

Momentos bons e momentos maus

O dia-a-dia de um voluntário nem sempre é fácil, mas a convicção geral é de que os momentos difíceis nunca são motivo para desistir. Sónia Castro explica que «por exemplo, quando se perde um paciente implica, por vezes, mudar de serviço ou mesmo afastar-se, mas nada mais...»
Joana Fernandes, uma das voluntárias, corrobora: «todos tendem a pensar que, perante certos casos, o mais natural seria desanimar, mas pelo contrário: toda esta experiência ajuda a relativizar aquilo que a vida tem de menos bom».

Mariana Dias, de 24 anos, faz parte do grupo dos que sempre fizeram um esforço para conciliar a sua vida pessoal com o voluntariado: «quando estamos mais absorvidos pelos nossos assuntos pessoais, mais sentimos que aquelas horas de voluntariado são um desperdício, mas não há nada melhor do que dedicar um pouco dos nosso tempo aos outros. A ideia de desistir não dura mais de alguns segundos...!»

Voluntariado como vocação

O voluntariado, para alguns jovens, chega a ser algo que ultrapassa a boa-vontade e ruma para outro plano superior, o da vocação.

Um jovem voluntário explica-nos que ser voluntário não se limita a actuar dentro de quatro paredes: «é imensurável a quantidade de coisas que podemos fazer pelos outros, e o significado que podem ter na vida das pessoas que ajudamos. Não é necessário ser voluntário numa instituição, basta no nosso dia-a-dia estarmos disponíveis para os outros e não entrarmos na rotina egoísta de pensarmos só no que nos convém».

28 maio, 2005

Cultura Sócio-Profissional Inclusiva

Ao longo de vários anos, as pessoas com deficiência eram vistas como inactivas. Hoje em dia, só lhe falta a oportunidade de poderem mostrar que não o são...

Por: Cátia Videira

“A Sociedade de Informação, visão estratégica para a sociedade inclusiva”, foi debatida nas instalações da Ordem dos Médicos, do Porto, no passado dia 20 de Abril. Os objectivos deste evento tiveram por base a necessidade de que o progresso socio-profissional das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TIC) fosse também de encontro à inserção dos deficientes na sociedade actual.

De acordo com os dados apresentados pelos oradores, em Portugal, a formação profissional institucional, ministrada pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) está demasiadamente orientada e centralizada na formação presencial.

Esta metodologia de ensino dificulta a inserção tanto escolar como social, o que também vai contra o que mais foi defendido neste evento: que a aprendizagem do indivíduo portador de deficiência não se deve cingir ao ensino no domicílio, mas sim na aposta nas TIC para que os resultados na criação de uma sociedade sem partições sejam visíveis e rapidamente alcançados.
No que diz respeito à formação profissional privada, relativa aos Centros de Formação, existe muita oferta de informação on-line, porém demasiado dispendiosa.

No Ensino Superior já existem meios técnicos para este tipo de ensino alternativo, mas existe ainda pouca adesão por parte do corpo docente e discente. «Existe alguma evolução mas não interactiva, pois existe uma falta de sensibilidade generalizada face à utilização das TIC, comprovado pelo insistente método de aulas presenciais versus o e-learning», aponta Clara Cidade Lains, directora de Info-exclusão e Necessidades Especiais da Fundação Portugal Telecom (INE-FPT).

Um mundo empresarial global

Actualmente, a educação é vista como uma capa social, onde o ramo empresarial tem de investir. Porque o volume e o tempo de vida da informação se alteraram, a ideia de um investimento na organização do espaço científico no domicílio começa a ganhar forma.

Em paralelo, a aprendizagem tem de ser revista para não se tornar uma obstrução ao avanço das TIC, sendo consensual que estas permitem um salto qualitativo entre sectores de empresa. «Com elas podemos chegar a um desenvolvimento sustentável, criando um espaço que sugere a ideia de empresa do conhecimento, onde todos os actores sociais têm de ajudar para criar uma sociedade solidária», reforça Lains. «A aposta nestas competências levam à inserção!», conclui.

As TIC criam mais população activa. Desde uma melhor cobertura territorial a uma redução de custos (tanto ao nível educacional como de formação), as TIC podem trazer uma retoma na igualdade de oportunidades, abrindo uma possibilidade real de integração dos deficientes na população activa através do, por exemplo, Tele-trabalho.

Madalena Malta, psicóloga, que esteve presente na plateia, acresce que «as questões que se prendem com a Sociedade da Informação oferecem por si só muitas oportunidades às pessoas com deficiências e, neste sentido, tem de se discutir e descobrir formas para potenciar essas oportunidades».

Inserção Social pelas TIC

Clara Lains (INE-FPT) reforça a ideia de que é vantajoso que o aluno vá às aulas: «as crianças podem beneficiar de apoio por video-conferência ou por uma simples ligação de uma câmara, um microfone e um computador». Para Cidade Lains, este é o pormenor chave para a interacção aluno-professor/colegas, visto que, neste caso, «a escola não é para aprender - é para conviver, e é esse convívio que nos dá conhecimento».

Para Arménio Sequeira, director da licenciatura em Reabilitação e Inserção Social do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), na questão da Inserção Social, não basta acompanhar a revolução tecnológica. Aspectos como a formação e a informação constituem igualmente a Sociedade do Conhecimento: «as tecnologias assustam por serem muito amplas: não basta ter possibilidades de as saber usar, mas termos acesso a elas» realçou, reforçando.

Por este prisma, as TIC causam mais desigualdades, criando um novo paradigma também presente no discurso de Arménio Sequeira: «não se cultiva a capacidade de ter, mas de distribuir».

É importante, deste ponto de vista, que «o deficiente tenha tanto acesso informativo quanto a restante sociedade tem» alega Manuel Barra, vice-presidente da Delegação Distrital do Porto da Associação Portuguesa de Deficientes (APD), que assistiu à conferência.

Deste ponto de vista, e de acordo com Arménio Sequeira, as Tecnologias da Informação e da Comunicação podem difundir o novo conhecimento porque «transmitir a informação através do computador é muito rápido», processo que apazigua polaridades socio-educativas desiquilibradas. Assegura, porém, que «só há mudança de mentalidade com uma mudança de prática».

Susana Gonçalves, bibliotecária com deficiência visual presente na plateia, afirma que «as novas tecnologias permitem-nos ter uma sociedade inclusiva dentro da sociedade de informação, tomarmos o nosso lugar, que é nosso por direito».

Seguindo esta perspectiva, Maria João Silveira, docente do ISPA, observou que «a mediação é um objecto para promover a inserção social». Para que a inserção seja possível necessita de «capital humano, sendo este visto como competências humanas. Ou seja, as novas tecnologias de Informação servem a melhoria da qualidade de vida, a integração sócio-educativa, económica e cultural, para dar respostas específicas através de projectos concretos».

Sociedade Individualista

Para Clara Cidade Lains (INE-FPT), o que falta às sociedades é uma forte mudança de mentalidades: «uma falta de sensibilidade não caritativa mas positivista, no sentido de albergar as diferenças, anulando-as, e tendo sempre em vista a criação de uma sociedade para todos», defende.

Também Marco Geraldes, docente na Universidade da Beira Interior, que revelou também sofrer de paralisia cerebral, focou essa questão: «a distância é um grande desafio, mas não é uma fronteira final». «Quando existe comunicação nos dois sentidos, – defende este docente - o estudante beneficia do diálogo e aumenta a retenção de informação, tendo, assim, mais incentivo», enfatiza.

Não se pode apenas fazer esta metamorfose nos espaços de educação: as novas TIC colaboram no desenvolvimento e partilha de conhecimento, o que promove a inserção social. Assim «só podemos alcançar a inclusão da pessoas com deficiência se todos ajudarem» enfatizou Arménio Sequeira (ISPA).

Susana Gonçalves defende que «temos de abalar as estruturas e chamar a atenção para estas questões, no fundo!». A representante da autarquia de Campanhã, Isabel da Costa Alves, também presente no evento, diz-nos que «temos de ter sempre em atenção a igualdade de oportunidades para todos, em igualdade de circunstâncias».

Os Media e a integração

De acordo com a plateia, os Media poderiam ajudar a essa sensibilização. Para Catarina Rodrigues, docente do ISPA, os media são fundamentais para construir e apoiar essa modificação de mentalidades «mostrando os casos de sucesso, de integração e de inserção».
Também Adolfo Barbosa, administrativo de 36 anos, refere que «temos de sensibilizar os governantes, as pessoas que estão ligadas a estas áreas, para que as injustiças deixem de existir».

Ficou bem patente no evento o elevado grau de insatisfação na cobertura mediática sobre a inserção dos deficientes. Manuel Barra enfatiza que «os media têm uma função importante, no entanto virada para uma certa elite. As pessoas que têm maiores dificuldades, essas, não têm acesso e daí que, naturalmente, a nossa luta também aqui incida para que ela seja de igual forma distribuída».

Neste sentido, Susana Gonçalves desabafa: «se nos mostrassem mais, no sentido de mostrar realmente as nossas capacidades, acho que se calhar a nossa inclusão na sociedade seria facilitada». E acrescenta: «têm de nos dar mais tempo de antena».

Isabel da Costa Alves refere que «ainda há muito que fazer, mas a problemática aqui é a mentalidade portuguesa. Peguemos no caso da Conservatória do Registo Civil e Comercial do Porto, na rua Alves Cabral. É uma instituição pública, não tem rampas para deficientes e os elevadores são convencionais. É uma instituição publica, mas quando uma instituição daquela envergadura tem aquelas condições… não se pode exigir muito dos outros».

Uma visão mais positiva foi a de Madalena Malta, psicóloga: «até muito recentemente os media têm estado um bocadinho fechados. Com o ano 2003 - o Ano Europeu da Deficiência - começou a haver uma presença mais assídua... Deveriam, porém, ter um papel de desmistificação...»

Também Daniela Resende, assistente social de 29 anos defendeu um pouco esta perspectiva: «de vez em quando há uma reportagem ou outra, mas ainda há muitas crianças que, com certeza, estarão em casa, porque não têm um sistema que lhes permita fazer chegar a escola a casa ...e poderiam ter».

Caso de Vida

A 10 de Dezembro de 1988, na Guiné, aquando a um rebentamento de um detonador de oito minas, a vida de António Matos de Almeida, director do jornal “Associação” da APD, mudou.
Cego desde esse dia, a sua vida passou a ser um pesadelo, resultando em ter de depender dos seus familiares para, por exemplo, adquirir informação, «o que era um fardo para todos! …o simples acto de escrever uma carta era um tormento para mim e o que, psicologicamente me afectava, atingia todos os que me rodeavam!» recorda com angústia.

No entanto, Matos de Almeida garante que «após a entrada do computador na minha vida, tudo se tornou muito mais fácil. Receber informação e comunicar com o Mundo, pelo simples facto de poder escrever um texto de voz com o uso de um microfone como suporte informático, recriou a minha independência…»

Novo Código da Estrada

«Cerca de 1000 a 1200 pessoas morrem, por ano, nas estradas», como nos refere Carlos Duarte, sub-comissário da Polícia de Segurança Pública (PSP) de S. João da Madeira. Este novo Código da Estrada tem como objectivo diminuir o número de vítimas, mas será este um método de coação eficiente?

Por: Vanessa Arlandis Mota

O novo Código da Estrada está muito mais severo para quem não cumpra as regras de trânsito. Aprovado em 23 de Fevereiro deste ano, o decreto-lei nº44/2005 entrou em vigor já em 26 de Março passado.

O objectivo destas alterações é tornar mais rígidas as penalizações das infracções que os condutores cometem ao código da estrada com a finalidade de diminuir os grandes acidentes que existem e que provocam tantas vítimas, um apelo à sensibilidade das pessoas de forma a haver uma maior segurança.

A mais significativa alteração foi o aumento das coimas, o que já começou a produzir efeitos. Carlos Duarte, sub-comissário da PSP de S. João da Madeira (SJM), observa que «já existe uma postura defensiva por parte dos condutores: o aumento das coimas motivou as pessoas».

Por essa razão, o mesmo profissional das forças de segurança começa a notar, em vários aspectos, «uma ligeira preocupação por parte dos condutores», o que leva a algumas alterações no comportamento na estrada. «O espírito da lei é educar a actuação, e esta educação tem de ser aplicada a vários níveis e de um modo contínuo no utente» afirma Carlos Duarte.

A principal razão apontada para o aumento dos valores das multas foi o peso coasivo que, à partida, o pagamento das infracções pode vir a ter. Porém, há quem defenda que o melhor método seria o da formação em valores éticos e cívicos dos condutores, o que começa nas Escolas de Condução.

Inês Braga, de 21 anos, é instrutora de código há seis meses na escola de condução de Paranhos, no Porto. De acordo com Inês, os alunos em geral, mas principalmente os de mais idade, têm dificuldade em aprender o Código da Estrada: «noto essa diferença, porque não têm tanta disponibilidade de tempo, o que os faz não terem um ritmo certo de aprendizagem e, consequentemente de interiorização dos conhecimentos!»

E para esta situação específica Inês reafirma a sugestão: «deveriam constituir-se turmas em benefício destes alunos, mas as pessoas querem as coisas rápidas!...»

Alterações ao Código da Estrada

As modificações ao Código da Estrada não foram muitas, no entanto exigem dos condutores mais atenção, tudo em prol da segurança.

Excepto as rotundas, não houve nenhuma alteração nas regras do Código da Estrada, propriamente ditas. As modificações dão-se nos limites (1) velocidade mínima da auto-estrada (que passa a ser 50km/h), (2) passa a ser obrigatório colocar o triângulo de pré-sinalização de perigo sempre que o veículo fique imobilizado ou tenha deixado cair carga; (3) todos os veículos a motor têm de estar equipados com um colete reflector de modelo aprovado.

De referir que contra-ordenações que não eram consideradas como tal passam a sê-lo, como é o caso do (4) arremesso de qualquer objecto para o exterior do veículo; (5) as contra-ordenações graves passam para muito graves, como por exemplo o não cumprimento do sinal STOP e do sinal vermelho.

Jorge Correia, de 33 anos, instrutor e responsável da Escola de Condução Paranhos, mostra-se céptico relativamente à eficácia destas medidas: «infelizmente, penso que o número de vítimas não diminuirá pois o mais complicado é o civismo. A mentalidade dos utentes das estradas, condutores ou peões, faz com que os sinistros aconteçam!...»

Quanto à responsabilidade civil e profissional das Escolas de Condução, Jorge Correia assegura-nos que ela é posta à prova em sala de aula tanto com o aluno como com a Direcção Geral de Viação: «é a Direcção Geral de Viação que nos manda os planos curriculares e um instrutor tem formação contínua. Já os alunos têm de dar um número de unidades temáticas, portanto, não sinto que estes tenham dificuldades em aprender o novo Código Estrada».

Vivências Pessoais

Na verdade, os alunos que andam a tirar a carta de condução não sentem dificuldades, pois partilha-se a opinião que tudo é novidade e estão cientes que é o melhor para todos. No entanto, nem todos são condutores e nem tudo é a favor da segurança dos peões, pois todo o cidadão tem direito a um clima seguro.

Existe uma falta de informação generalizada para estes outros utentes da via pública, mas quem tem uma noção básica destas regras considera que estas alterações poderão ter um resultado benéfico.

José Manuel dos Santos, condutor de 65 anos, refere que «nem por isso sei muito dessas modificações, tenho sido pouco esclarecido acerca disso e tenho alguma dificuldade em percebê-lo». Para Manuel dos Santos, não é complicado conduzir, «mas as pessoas é que precisam de ter mais cuidado, nomeadamente com as manobras».

Mas na realidade...

...já se começa a notar alguma modificação no comportamento na estrada, nomeadamente uma maior prudência.

À primeira vista, e de acordo com sub-comissário da PSP de SJM, Carlos Duarte, «verifica-se que existem menos pessoas ao telemóvel e sem cinto de segurança!» Como declara o sub-comissário, «a lei só tem aplicabilidade se houver modificação de comportamentos, e a este respeito os polícias tem funções importantíssimas, quer na fiscalização, quer na função pedagógica!» Para alcançar este propósito, a esquadra de SJM distribuiu prospectos elucidativos das alterações ao Código da Estrada aos cidadãos da cidade.

No entanto, para o sub-comissário «não é suficiente mas foi um esforço. Para que a população possa aplicar a lei tem que estar informada e um polícia sente-se mais responsabilizado por isso» e acrescenta: «a polícia, efectivamente, tem de fazer cumprir o Código da Estrada e andar atrás dos criminosos, mas as pessoas não percebem isso e há mesmo quem nos tente enganar fazendo-se de deficiente. Mal deixam de ver os polícias começam andar direitinhos!...»

Dadores de sangue

Por: Amanda Alves

O Instituto Português de Sangue (IPS) revelou que, no ano passado, os dadores de sangue portugueses - que são, na sua maioria, masculinos - proporcionaram 303 mil dádivas: um número que quase permite a auto-suficiência dos hospitais do nosso país.

António Lopes é ex-aluno da Universidade Fernando Pessoa (UFP) e dador de sangue há cerca de 10 anos. Começou por uma brincadeira de fim de noite: «na altura ainda estava a tirar o curso e, nesse dia, vínhamos de uma noitada. Na chegada à UFP, vimos um peditório do IPS nas instalações e como estavam a dar comida, disse: “Porque não?!” ...e, desde aí, sou dador».

António já acabou o curso mas ainda agradece à Universidade por esta inicitativa (que se repete sempre que solicitada pelo IPS) e sente-se feliz em dar sangue pois: «é o poder anónimo de ajudar alguém». Por essa razão, sempre que pode incentiva amigos e colegas a fazerem o mesmo, pois acredita que os portugueses ainda não estão sensibilizados para esta causa primordial.

António Russo tem 74 anos e também é dador: «senti necessidade de o fazer há cerca de 20 anos atrás para poder salvar a vida de meu pai que estava a precisar urgentemente de uma transfusão. Desde aí que sou dador pois vejo a importância de o fazer». Mais do que isso, António já necessitou de sangue também para lhe salvar a vida: «por essa razão, dou ainda mais valor à dádiva».

Marisa Alves não é dadora mas já necessitou muito de uma transfusão de sangue: «fiz uma operação e como no pós-operatório não estava muito bem, necessitei urgentemente de uma transfusão de sangue. Nunca pensei que fosse precisar mas precisei e foi muito importante». Desde aí que sentiu na pele a importância que existe em dar sangue pois: «podemos salvar várias vidas de uma forma tão simples!»

JC: Operação Sem-Abrigo

Dizem que não existem super-heróis, ou que estes são imaginários, mas é certo que os podemos encontrar nas ruas do Porto. Espalhados por toda a parte, procuram um ombro amigo, um sorriso, uma voz que lhes aqueça o coração. Difícil é pensar que, de um dia para o outro, se pode ficar sem nada. Resta apenas um recanto na cidade porque esta é pública e as poucas mãos amigas que insistem em ajudar...

Por: Patrícia Rocha

Basta um olhar pela janela do carro para se conseguir ver o que se passa. A cidade enche-se de sem-abrigo, gente a quem a vida pregou uma partida.

Existe uma variedade infinita de pessoas que vivem temporariamente na rua. O sem-abrigo, o mendigo, o vagabundo, ocupam o espaço e o tempo de uma forma bem diferente da nossa.

Mas algo tem de mudar. O sem-abrigo não pode continuar a ser considerado um ‘corpo andante’: ele é também um ser humano que vive nas ruas que todos os dias são pisadas por cidadãos comuns. Já teve uma família, um emprego, dinheiro e, principalmente, um lugar quente e acolhedor.

São seres humanos com o mesmo direito de partilhar informação, de comunicar, de ocupar o banco do jardim, de sentar e pedir um café…

A família dos sem-abrigo não escolhe idades e todos necessitam do mesmo afecto e atenção.
Uns mais escondidos que outros não hesitam em pedir a tal ‘moedinha’ que, dizem eles, «é para comer qualquer coisinha, que já não como desde ontem». Outros limitam-se a vaguear pelas ruas da cidade. O que é certo é que não podemos virar as costas a este problema que de dia para dia parece aumentar.

A equipa é JC!

A Jesus Cristo (JC), ao contrário do que se possa pensar, não é uma instituição, mas sim um grupo de alguns elementos que decidiu unir-se para ajudar aqueles que mais necessitam e que estão sós nesta, para eles, dura vida.

Todos os domingos, às 20 horas, saem para as ruas do Porto com os seus ‘sacos ternura’ para aliviar e matar a fome do sem-abrigo.

Levam um pouco de tudo: bolachas, croissants, salsichas, leite chocolatado, bonés, sapatos, roupa… e o tal miminho que nunca falta: o chocolate que todos adoram.
Se é difícil observar a situação destas pessoas durante o dia, mais difícil se torna ao cair da noite. Recolhem-se e habitam no recanto mais aconchegado, que é sempre o mesmo. No fundo, parecem uma família, pois conhecem-se uns aos outros. Alguns até a têm, mas preferem estar sós na rua, do que maltratados em casa.

Heróis todos os dias

A equipa JC segue sempre os mesmos locais da sua ronda. O primeiro destino é o edifício do Jornal de Noticias, onde se encontra a Sabrina, uma menina de 3 anos que vive com a mãe. Nunca teve uma casa, mas o seu olhar é doce e meigo. Está sempre à espera de um saco mimado, de um brinquedo, de um sorriso.

O Carregal é o destino seguinte, e lá estavam os amigos do costume, na enorme e antiga casa que noutro tempo foi um Lar e que hoje os acolhe, todas as noites.

O Alfredo, sempre com a sua boa disposição, oferece aos presentes um pouco da sua habilidade musical. Estão lá também o António, com uma capacidade enorme para contar histórias e a dona Emília (a avózinha, como é considerada), uma senhora de 76 anos que não admite que falem da sua família, pois esta só lhe trás más recordações. Na hora da despedida fica sempre a chorar, embora saiba que a equipa vai voltar com os tão desejados beijos e carinhos que lhe sabem sempre a tão pouco.

No Hospital de Santo António abriga-se o Vladimir, um ucraniano que vai ficar para sempre agradecido das muletas que a equipa lhe arranjou, pois só assim se consegue manter de pé.
São várias as histórias destas pessoas, cada um tem um motivo para ali estar, ou porque os pais e/ou os filhos os rejeitaram, ou porque o álcool e a droga lhes falou mais alto, enfim, uma infinidade de histórias que fazem pensar e reflectir.

A história de Domingos é interessante: «há 30 anos, tinha eu 12, vivia em Angola com toda a família. A minha mãe trabalhava para uns senhores do continente. Um dia, esses senhores disseram-lhe que vinham à metrópole e que me trariam com eles». A mãe de Domingos limitou-se a aceitar. «Entretanto rebentou a guerra em Angola e os senhores disseram à minha mãe que não iriam mais voltar», e o Domingos ficou entregue a si mesmo, desde os 12 anos.

Mais adiante, na rua Júlio Dinis, e já com o frio a fazer sentir-se na pele, encontramos o Mauro de 19 anos e o Sérgio, um ucraniano que passa os dias à porta do centro comercial Cidade do Porto. Estava triste e aborrecido, pois a promessa de emprego que lhe haviam feito no mercado do Bom Sucesso não se concretizou. Mais uma vez tinha sido enganado.

A Anabela não confia os seus medos a ninguém, a tudo responde com o olhar assustado que a vida lhe tatuou. A uma determinada altura pensei: «Que coragem a destas pessoas. Agora dou valor a tudo o que tenho e preservo!».

O rumo segue agora em direcção à Avenida da Boavista onde se encontram o Hélder e o Luís finalmente de pé, pois os ‘Médicos do Mundo’ tinham estado a tratar deles, a pedido da JC. Um pouco mais à frente está o Avelino sempre com o seu lugar muito limpo e organizado, com a sua única companhia, o seu cão que, como diz, o ditado: “O cão é o melhor amigo do Homem.”

Junto ao Hotel Meridien está o Fernando, sem forças para se levantar. Diz ter HIV, hepatite B, hepatite C, diabetes, cancro, mas ainda chora desesperadamente, «porque tenho dignidade», diz.
No percurso entre o Campo Alegre até Lordelo do Ouro mostra mais uma rapariga de muletas, sem uma perna, a pedir uma esmola a todos os condutores que paravam naquele semáforo.

A Bruna tem 22 anos, ficou sem a perna num acidente de automóvel. Tinha fugido de casa porque o pai a maltratava e, na ilusão de uma vida melhor, aceitou levar ser acompanhante, até ao dia em que engravidou. Foi perdendo o rasto dos seus e acabou sozinha na rua, de braço dado com a droga.

Disse que dormia no bairro do Aleixo e que todo o dinheiro que juntava era para se alimentar daquele vício, que já não consegue largar. Perguntei se existiam mais sem-abrigo e se podia levar-me até lá. De um momento para o outro começaram a aparecer, mais pareciam seres fantasmagóricos.

Foi impossível comunicar com eles. Aceitaram apenas a oferta e recolheram novamente para o único lugar que têm:um cobertor e alguns caixotes, que é tudo o que lhes resta para dormirem mais uma noite.

Liga dos Amigos do Centro Hospitalar de Gaia

Por: Joel Silva

9:00 horas da manhã. Hospital Santos Silva, Vila Nova de Gaia. Nos corredores vão-se aglomerando dezenas de pessoas com consulta marcada. O ritmo lento com que se processa o atendimento faz desesperar o mais calmo dos mortais. Surge então o serviço de cattering disponibilizado pelos Voluntários da Liga dos Amigos, do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.

Este serviço só é possível graças «à grande contribuição do Banco Alimentar», de acordo com Olímpio Ferreira, médico-reformado, vice-presidente da instituição de apoio hospitalar, que alberga cerca de 160 voluntários.

A Liga de Amigos do Hospital de Gaia nasceu há 15 anos. As suas motivações altruístas e de invulgar solidariedade são os alicerces do crescimento e importância patenteada nos últimos anos, que eleva a instituição a uma das mais emblemáticas do concelho de Gaia.

«É, de facto, com orgulho, que todos temos acompanhado o crescimento desta instituição. O mérito pode ser repartido por muitos, desde os voluntários, até às administrações do Hospital Santos Silva, que sempre contribuíram de uma forma activa para o bom funcionamento da mesma», refere este antigo profissional da medicina.

Dina Barbosa, é uma dessas 160 voluntárias. Reformada, Dina já leva mais de sete anos de voluntariado, tempo esse que tem servido para a mesma «enriquecer a todos os níveis, através da ajuda a doentes e pessoas internadas carentes de apoio». É este sentimento de solidariedade que reina e faz com que todos tentem convergir no lema e bandeira da instituição.

Conta Ilda Carvalho, outra voluntária, que «por vezes é extremamente difícil confrontarmo-nos com um paciente que tem uma doença terminal, ou irá ser brevemente amputado. Nessas situações resta-nos dar toda a nossa atenção e carinho». Ilda cumpre as suas funções no departamento de cirurgia vascular. O quotidiano desse departamento obriga-a a enfrentar situações de angustiante sofrimento físico e psicológico. «Temos de ser fortes - diz a voluntária - são de facto muitos aqueles que, perante a adversidade pensam em desistir, simplesmente deixar de lutar», conclui.

Se não é fácil acordar e depararmo-nos com uma realidade completamente transfigurada, mais difícil é ver aqueles que nos são queridos sofrerem constantemente, sem nada a fazer. É esta a história de Lucinda Torres, 55 anos, desempregada, que na altura desta reportagem cumpria o primeiro dia de voluntariado na Liga dos Amigos do Centro Hospitalar.

A vida pregou-lhe uma partida cruel, já que a sua mãe padecia de uma grave doença, o que a obrigou a abdicar da sua vida activa. O tempo que passou nos cuidados médicos com a mãe, levou-a a conhecer este grupo de pessoas e prometeu: «no dia em que a minha mãe partir, irei ser mais uma». Promessa cumprida, Lucinda é duplamente feliz.

A história de Lucinda é um factor comum entre muitos dos voluntários que aderiram à liga depois de se terem confrontado com uma tragédia familiar, ou no seio dos que os rodeiam. Muitos são aqueles que fazem do seu tempo livre um espaço de intervenção e conforto para aqueles que mais necessitam.

A receptividade por parte dos doentes é, por norma, acolhedora, embora haja casos de isolamento extremamente difíceis de combater.

Balbina Correia, 72 anos, esteve internada cerca de duas semanas devido à fractura de uma perna. Salienta o importante papel dos voluntários que privaram com ela durante a sua curta estadia: «É gente formidável. Nos dias que correm, é normal acharmos que existem só pessoas que pensam primeiro em si e só depois nos outros. Ainda bem que isso é mentira e quero acreditar que, como muitos voluntários, ainda há muita gente boa espalhada por esse mundo fora». Opinião partilhada por Lurdes Maria, 85 anos, e que parece ser, sem duvida, o sentimento dominante entre os muitos que já foram tocados por esta causa.

Integração sócio-profissional dos cidadãos invisuais

A Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) é uma instituição particular de Solidariedade Social, de âmbito nacional, que tem como fim a promoção da habilitação dos invisuais e amblíopes para o exercício de um vida em sociedade participativa. Trata-se de um projecto com financiamento do Estado Português, nomeadamente, do Ministério o Trabalho e da Segurança Social e do Fundo Social Europeu.

Por: Sónia Resende

Celeste Cardoso, 47 anos, é telefonista na Universidade Fernando Pessoa (UFP) . Tem um sorriso contagiante e uma agilidade a trabalhar impressionante. “Trim” de um lado, “trim” do outro, os telefones não param, mas Celeste não se atrapalha. “Universidade Fernando Pessoa, fala Celeste Cardoso...!”, quem ouve esta voz do outro lado do telefone não imagina que ali está uma pessoa a quem a vida deu força para lutar contra o inesperado.

Tinha 24 anos quando deu conta que estava a ficar sem visão. Gradualmente, num período de cerca de um ano, os rostos de todos os dias desvaneciam-se aos poucos. Como que a entrar num túnel sem fim onde a luz se ia perdendo. Em contrapartida, a memória e os outros sentidos começaram a aperfeiçoar-se.

O maldito glaucoma que cega cerca de 2,4 milhões de pessoas por ano surgiu sem aviso na vida de Celeste, mas inesperada foi também a força de vontade que teve para continuar a viver. Naquela altura valeu-lhe a ajuda do namorado, com quem estava desde os 22 anos: «ele foi muito importante para mim porque, realmente, foi uma fase que, se estivesse sozinha, não sei se tinha aguentado».

A família também a apoiou muito, mas o amor foi, de facto, o seu último reduto para a sobrevivência emocional e social. Viriam a casar-se quando Celeste tinha 31 anos.

Até aos seus 24 anos chegou a trabalhar, temporariamente, como auxiliar de educação e numa agência de viagens. Nessa altura, poucos anos tinham passado depois do 25 de Abril e a vida de Celeste continuava numa revolução constante à procura de emprego fixo.

Depois, perante a incontornável situação que a viria a afectar, Celeste teve conhecimento que existiam associações que a podiam ajudar. «Foi então que comecei a aprender o braille e fiz uma reabilitação de modo a conseguir maior mobilidade».

O estágio profissional que decidiu fazer na ACAPO, depois de já ter estado a trabalhar durante oito anos também como telefonista, levou-a até à UFP, onde permanece há quatro anos. Admite gostar do que faz, «embora se fosse normo-visual com certeza que gostaria de ter outro tipo de trabalho mas, como invisual, acho que telefonista é o lugar onde podemos ser mais independentes... é tudo uma questão de hábito», define Celeste.

Novas Tecnologias da Comunicação

Quando a Internet começa a ser um elemento quase indispensável na vida das pessoas, também para os invisuais foi criado um software que permite ouvir a informação que os sites contêm. Assim, hoje em dia abrem-se as portas para que os invisuais possam ocupar outros cargos senão os já comuns.

Mas não é fácil viver num país com tantos obstáculos para os invisuais. Andar nas ruas, em edifícios públicos ou no próprio local de trabalho pode tornar-se uma verdadeira aventura.
Embora tenha a facilidade de trabalhar no primeiro andar, Celeste considera que a sua mobilidade é difícil, «se quiser ir ao bar, tenho de ir acompanhada. É difícil descer as escadas e muitas vezes os alunos também se distraem muito. Mesmo que leve a bengala, às vezes nem se apercebem que estou a querer passar».

Saudades é, com certeza, uma palavra talvez demasiado redutora para exprimir o quanto Celeste gostaria de tornar a ver o sol, o mar, as plantas. «Uma coisa que adorava era andar no meio da natureza, ir à praia... e isso eu continuo a fazer, mas sinto-a de outra maneira» confessa, com melancolia.

Mas nos seus olhos vê-se, sobretudo, afecto, quando fala nas sobrinhas, que considera as filhas que nunca teve. «Gostava de ver o rosto delas, mas não consegui porque ceguei pouco antes. A mais velha nasceu passado cerca de dois anos de eu cegar». No entanto, Celeste vê-as com o coração.

Felicidade à vista

João António Moreira, invisual desde os 13 anos, não teve uma integração profissional como Celeste. No entanto é feliz porque, mais que isso, o que ele precisava era de estabilidade social.
Foi um ser humano com todas as suas capacidades, até ao dia que uma ablepsia se apoderou da sua visão. Cegou primeiro da vista esquerda e, apesar de aos 14 anos ter feito uma operação que lhe dava 5% de probabilidade de ficar a ver, acabou por ficar invisual.

Desde os 6 anos que viveu num Colégio interno, em S. Félix da Marinha (Vila Nova de Gaia), que o acolheu a si e aos seus três irmãos. Tinha 17 quando começou a trabalhar na agricultura, numa Quinta, na Madalena (Vila Nova de Gaia). Segundo ele, «os patrões ajudaram-me mas, por outro lado, pagavam mal». Dormia num espigueiro, sem condições para um ser humano, ainda mais sendo invisual. Dormia lá praticamente todos os dias, havendo semanas que nem ia ao colégio. Um dia teve de sair do colégio. Os irmãos, já maiores de idade, tornaram-se desordeiros e foram expulsos. João também teve de acompanhá-los, «disseram-me que eu tinha mais cabeça que os meus irmãos. Por isso tinha que tomar conta deles...!» desabafou.

João era, então, um rapaz responsável e trabalhador. Consigo levou os poucos bens que tinha e também as poucas boas recordações, indo viver para uma pequena casa em Vila Nova de Gaia, onde os quatro rapazes partilhavam a profunda falta de condições.

Aos 26 anos a sua vida começou um novo rumo. Através de um «camarada», como prefere chamar a alguém que o ajudou, conseguiu livrar-se do mundo cruel em que vivia. Foi quando encontrou, em Cinfães do Douro, uma nova forma de viver. Perto do Porto, é no berço espantoso de montanhas bravias que fica a aldeia onde vive. O horizonte fecha-se em volta e o céu parece ali excessivamente baixo. Isolado do mundo, leva um quotidiano sempre igual mas com um saudável estilo de vida.

No desandar dos ponteiros do relógio dá sempre tempo para João lavrar as terras, cuidar dos animais que cria (porcos, galinhas e coelhos) e, ainda, para o convívio entre os poucos habitantes daquele sítio, pessoas que, desde o primeiro momento, sempre o acolheram bem. «São a minha família», diz, aquela que ele nunca teve, pelo menos na verdadeira acpeção da palavra. Os caminhos são feitos de pedras desequilibradas mas, com o seu traquejo, João já aprendeu a conhecê-las.

Hoje tem 28 anos e diz ser um rapaz feliz: «muitas pessoas que conheci gozavam comigo por ser invisual, mas encontrei um camarada que me levou para a aldeia. Não quero voltar para o Porto».

A última coisa que levou da Invicta foi uma companheira. Diana, de 22 anos, residia no colégio onde o João viveu. «Ele ajuda-me muito», diz Diana, feliz por estar ao lado dele. «Só com ele é que aprendi a andar na rua, ir às consultas do médico, às compras, coisa que nunca tinha feito enquanto estive no colégio».

Diana tem uns olhos escuros grandes e expressivos, que revelam a curiosidade de quem viveu poucos dias fora dos muros do colégio. Mas têm um brilho e uma simpatia que demonstram a sua alegria de viver ao lado de João. Uma alegria que o companheiro não vê, mas sente.
João ainda guarda mágoas da sua vida passada, onde quase todos lhe viraram as costas. No entanto, agora tem motivos para sorrir.

ACAPO olha pelos invisuais

O desemprego que afecta a população invisual é um dos problemas que a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal tenta resolver.

Na delegação do Porto, Diana Benfica (Técnica de Integração Profissional), Natividade Abreu (Assistente Social) e Margarida Gomes (Psicóloga), lutam diariamente pela integração sócio-profissional dos deficientes visuais. Concretizam um projecto que tem como objectivo principal a integração profissional dos invisuais ou, no caso de já terem emprego, melhorar a sua posição profissional.

Para isso há vários passos: o utente inscreve-se na instituição onde é recebido, numa primeira instância, pela psicóloga que irá conduzi-lo num processo de adaptação profissional; depois disso, entra numa outra área que é apoiada pela Técnica de Integração Profissional que tem o papel de contactar as entidades. A Assistente Social faz o elo de ligação, uma vez que os utentes também necessitam ajuda com documentos e outras questões técnicas.

No processo de integração profissional, encontram alguns obstáculos «por parte das empresas há um grande desconhecimento, por isso é um processo moroso» afirma a psicóloga, Margarida Gomes.

Aponta também o dedo aos próprios hospitais, que deveriam passar as prescrições para as ajudas técnicas, «a maior parte deles tem problemas gravíssimos, não só a nível de acessibilidades, mas também pelo próprio desconhecimento daquilo que é necessário, acontecendo que, muitas vezes, nem têm o formulário que deveria ser preenchido nestes casos».
Natividade Abreu integra a equipa de formação profissional através de acções formativas, acessibilidades e revisão de todo o programa que deve ser cumprido. «A parte mais interessante no meu trabalho é as ajudas técnicas, porque são necessárias adaptações para que os invisuais possam desempenhar as suas actividades tão bem como qualquer outra pessoa», diz a Assistente Social.

Diana Benfica está há poucos meses na ACAPO mas avalia positivamente a participação das empresas neste processo de integração profissional. A Técnica de Integração Profissional considera, porém, que «o que acontece, muitas das vezes, é que as entidades que os recebem não estão preparadas a nível das acessibilidades».

Consciente de que também o acesso à informação é um dos principais problemas dos deficientes visuais, a ACAPO dispõe de bibliotecas em braille e sonoras, assim como promove diferentes e variadas acções de âmbito cultural, como idas ao teatro, concertos e actividades desportivas como o goalball. Curiosamente, este desporto surgiu logo após a II Guerra Mundial, criado especificamente para ocupar desportivamente os ex-combatentes que haviam cegado em combate.

As actividades desportivas e culturais desenvolvidas pela Associação têm despertado algum interesse por parte dos utentes. Porém, a Psicóloga considera que existe uma divisão dentro do próprio grupo das pessoas com deficiência visual: «há pessoas que acham que este tipo de actividades são essenciais e gostam de participar, e há outras que não ligam muito e nem respondem a esse tipo de iniciativas que são desenvolvidas».

O cidadão face à deficiência visual

Confrontadas com esta questão, as opiniões são unânimes entre as técnicas que lidam diariamente com esse tipo de situações: felizmente, há uma tendência para tentar ajudar mas que, muitas vezes, acaba por ser inoportuna. A psicóloga Margarida Gomes considera que há uma tendência exagerada de «verem os deficientes visuais no papel de coitadinhos»...

Nos ambientes de trabalho, as pessoas lidam com os deficientes visuais sempre numa base de condescendência. Margarida Gomes considera que «é suposto que uma pessoa que esteja a trabalhar seja autónoma. Dificilmente conseguiremos integrar, num ambiente de trabalho, uma pessoa que tenha défices grandes e que não esteja capacitada para exercer as suas funções».

Segundo dados do INE (2001), são 163569 os portadores de deficiências visuais em Portugal. Vale a pena existir uma instituição que não fecha os olhos a estes problemas.