01 março, 2007
A vontade de Mariana
Por: Sandra Lopes Nogueira
Mariana Rocha de 27 anos, é advogada e nasceu no Porto. Ainda teve tempo para conhecer as cores, mas pouco mais. Quando chega ao 12º ano, perde integralmente a visão.
Em Portugal, o sistema de ensino integra as pessoas com deficiências físicas nas escolas normais. Foi o caso de Mariana. Até ao 10º ano teve o acompanhamento de um professor do ensino especial, que ia cerca de duas vezes por semana à escola. «Ajudava-me naquelas tarefas mais específicas, como passar texto para Braille», lembra Mariana.
Os livros que precisava tinham de ser passados a Braille, o que se traduzia numa grande dor de cabeça. Tudo porque este processo é muito lento e, por isso, Mariana nem sempre tinha os livros em casa desde o início do ano.
O que lhe valia muitas vezes, era o serviço de leitura especial da Biblioteca do Porto. «É um serviço realizado por voluntários que lêem os livros e os gravam em cassete. Os meus livros de história eram todos assim. Por um lado era bom, tinha os livros desde o início do ano, por outro era complicado, pois eram cerca de 20 cassetes», explica.
O importante – fundamental – eram o apoio e a compreensão dos professores e colegas. Disso, diz, não se pode queixar: «lembro que quando a professora escrevia alguma coisa no quadro, havia sempre algum colega que me ditava».
No Ensino Superior...
Na Universidade as dificuldades em conseguir material duplicaram. Dos livros que precisava, apenas uma pequena percentagem existia em Braille. Mas é a partir daqui que começa a utilizar a ferramenta que, sem dúvida, maior autonomia lhe veio trazer: o computador. Com ele tirava apontamentos, estudava e fazia os exames. Como? Mariana explica: «Era um computador portátil, igual a tantos outros, a diferença é que tinha um software, chamado leitor de ecrã, que lê tudo o que está no ecrã».
Lentamente, começa a deixar o Braille e passa a utilizar permanentemente o computador. E aparecem novos problemas, que, dsta vez, se prendiam com conseguir o material em suporte digital: «os professores não me forneciam livros, que eles próprios escreviam, em suporte digital, com receio dos Direitos de Autor», afirma a advogada.
Por isso, viu-se obrigada a recorrer a outro método muito mais trabalhoso e que nem sempre funciona, o da digitalização. «Fazia a digitalização do texto e depois o leitor de ecrã lia. O problema é que quando se trata de fotocópias não capta tão bem e se for letra à mão não consegue mesmo ler», conta Mariana, recordando o esforço da irmã: «Ela sofreu muito! Enquanto ditava eu escrevia no computador».
Apesar de acreditar que o acesso a livros está mais facilitado, Mariana considera ser urgente uma nova medida por parte das editoras, isto é, a comercialização dos livros em suporte digital, de modo a que os invisuais vejam o seu acesso facilitado.
Falta de meios
Manter-se informada e estar em contacto com aquilo que se passa à sua volta, nem sempre foi fácil. ‘Visão’ e ‘Jornal de Notícias’, são alguns dos poucos meios de comunicação impressos que disponibilizam edições em Braille. Recentemente foi lançada uma nova revista, a ‘Activa’. Uma ideia feliz, já que até ao momento era impossível para a Mariana o acesso às chamadas revistas cor-de-rosa.
No entanto, e numa altura em que as novas tecnologias dominam, estas iniciativas parecem um pouco tardias: «Hoje basta-me ir à Internet, abrir a página que pretendo e ouvir», comenta a advogada.
Contudo, como sempre, há mais dificuldades. É que para que os leitores de ecrã possam ler as coisas, os sites devem respeitar certas normas de acessibilidade, o que nem sempre acontece.
Mas afinal o que é isso de normas de acessibilidade? Mariana explica: «É uma resolução do Conselho de Ministros de 1999, que obriga todos os sites públicos a cumprir certas normas, que tornam os sites mais acessíveis, não só a nível dos leitores de ecrã, mas do ponto de vista da organização e do conteúdo, o que é vantajoso para todos, não só para os invisuais». Os STCP, Metro e Caixa Geral de Depósitos são apenas alguns dos sítios da Internet que não cumprem essas normas.
Além de todas as ajudas técnicas de que actualmente dispõe, e que a fazem conseguir levar uma vida em muito idêntica à de qualquer outra pessoa, Mariana conta com o Júnior.
Apoio a quatro patas
O Júnior é um Retriever do Labrador, um cão guia que foi educado pela única escola de cães-guia existente em Portugal. Trata-se da Associação Beira-Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV) que fica em Mortágua. Para o ter, a jovem advogada teve que esperar alguns anos.
Apesar de haver muita gente à espera para ter um cão-guia, só existem três educadores, neste momento a ABAADV não possui meios económicos para mais. Cada educador educa, na melhor das hipóteses, quatro cães por ano.
Para além de só ser permitido ter um cão-guia a partir dos 18 anos, o processo para a aquisição do cão é muito lento. «Para se inscrever deve preencher-se um questionário. Cerca de dois anos depois chamam para uma entrevista com a finalidade de ver qual o estado de orientação da pessoa, o equilíbrio e a audição. Um ano após a entrevista chamam para um estágio com o cão, que dura quinze dias».
E vale a pena esperar tanto tempo? Mariana não hesita: «Vale!». O Júnior, para além de estar sempre atento e disponível para ajudar, é muito intuitivo. Mariana conta orgulhosa que o seu Júnior é mais do que um cão guia, é um companheiro e um amigo.
Actualmente, quando acompanhado pelo utilizador, o cão guia pode entrar, segundo a lei prevê, em todos os locais de acesso ao público. Mas também aqui Mariana aponta uma lacuna: «A lei não prevê, em caso de incumprimento da mesma, uma coima. Essa é agora uma grande luta dos invisuais, ver a lei alterada e multados aqueles que não a cumprirem».
Modernas utilidades, mas...
Desde há dois anos que Mariana pode tirar partido de muitas das funcionalidades de um telemóvel, que antes apenas lhe servia para fazer e receber chamadas. Agora existem leitores de ecrã, que têm a mesma função dos leitores de ecrã para computador, facilitando a leitura do visorler. Um leitor de ecrã, por exemplo, custa à volta de 200€, mas a boa notícia é que o estado financia esta e muitas outras ajudas técnicas. O maior problema é a demora na entrega do material.
Existem muitas iniciativas em Portugal que têm como objectivo facilitar a integração do deficiente visual na sociedade. A voz indicadora das paragens no metro e nos autocarros é exemplo disso, por vezes a falha está na sua execução. É o que acontece no caso do Multibanco. «Existem apenas algumas máquinas com sistema de som, mas além de só estarem disponíveis quatro operações, não conseguimos controlar o som. Há máquinas que estão, literalmente, aos berros e outras que praticamente não se ouvem».
Mariana faz uma vida normal, enfrentando, como qualquer outro, as dificuldades do quotidiano. Todavia, no que respeita às infraestruturas, a advogada considera que já era altura de se fazerem certas alterações: «Não haver postes no meio do caminho, buracos ou obras indevidamente vedadas e sinalizadas, carros em cima dos passeios e passadeiras apagadas, pois os cães-guia não consegue encontrar as linhas para atravessar».
Os atrasos que se faziam sentir há alguns anos, em relação ao resto do mundo, são hoje praticamente imperceptíveis. Em termos de legislação, têm surgido muitas leis favoráveis aos eficientes visuais. A verdade é que ainda há muito por fazer, para que a vida de Mariana e de outras pessoas como ela, seja bem mais fácil.
01 junho, 2006
Voluntariado: altruísmo em tempo livre
São jovens, estudam, trabalham, têm inúmeros projectos por realizar, mas o voluntariado tem sempre lugar nas suas vidas.
Por: Fátima Pereira
Todos os anos, em Janeiro, as portas do Instituto Português de Oncologia (IPO), do Porto abrem-se para novos voluntários. Maria Helena Quinta, directora deste serviço, acolhe estes jovens e ajuda-os a integrarem-se num dos dezasseis serviços que a Liga Portuguesa Contra o Cancro tem. «Fazemos uma formação geral por ano. Depois, os responsáveis de cada serviço levam os voluntários e ensinam-lhes o modo como se fala com um doente», explica Maria Helena.
O serviço preferido é o de Pediatria. «No último curso, vinte dos cinquenta voluntários foram para Pediatria e os outros departamentos ficaram com pouca gente», desabafa a directora do voluntariado.
Voluntariado forçado
A palavra ‘voluntariado’ torna-se cada vez mais comum graças à Internet ou, mesmo, pela indicação de um amigo, mas existem outros motivos.
«Há muitos universitários interessados e, até, jovens recém-formados. Aqui, aparece gente de todas as áreas...», refere Maria Quinta mas, tal como refere a enfermeira Sónia Castro: «há cada vez mais a ideia de que fazer voluntariado é enriquecedor, em termos de curriculum. Existem empresas que valorizam este aspecto, ao contratarem alguém. Só que corremos o risco das pessoas só o colocarem no curriculum e, depois, não exercerem».
O voluntariado nem sempre é feito por iniciativa própria, mas o caso agrava-se quando o voluntário passa a ser o próprio paciente. «Infelizmente, há algumas pessoas que vêm para aqui porque os psiquiatras o sugerem! ...Eles acham que os pacientes estão cá para ocupar o tempo dos voluntários, mas as pessoas que tem depressão não devem ser voluntárias, enquanto não estiverem curadas», explica Sónia.
Momentos bons e momentos maus
O dia-a-dia de um voluntário nem sempre é fácil, mas a convicção geral é de que os momentos difíceis nunca são motivo para desistir. Sónia Castro explica que «por exemplo, quando se perde um paciente implica, por vezes, mudar de serviço ou mesmo afastar-se, mas nada mais...»
Joana Fernandes, uma das voluntárias, corrobora: «todos tendem a pensar que, perante certos casos, o mais natural seria desanimar, mas pelo contrário: toda esta experiência ajuda a relativizar aquilo que a vida tem de menos bom».
Mariana Dias, de 24 anos, faz parte do grupo dos que sempre fizeram um esforço para conciliar a sua vida pessoal com o voluntariado: «quando estamos mais absorvidos pelos nossos assuntos pessoais, mais sentimos que aquelas horas de voluntariado são um desperdício, mas não há nada melhor do que dedicar um pouco dos nosso tempo aos outros. A ideia de desistir não dura mais de alguns segundos...!»
Voluntariado como vocação
O voluntariado, para alguns jovens, chega a ser algo que ultrapassa a boa-vontade e ruma para outro plano superior, o da vocação.
Um jovem voluntário explica-nos que ser voluntário não se limita a actuar dentro de quatro paredes: «é imensurável a quantidade de coisas que podemos fazer pelos outros, e o significado que podem ter na vida das pessoas que ajudamos. Não é necessário ser voluntário numa instituição, basta no nosso dia-a-dia estarmos disponíveis para os outros e não entrarmos na rotina egoísta de pensarmos só no que nos convém».
Aprender português
Portugal foi, durante séculos, um país de emigrantes que se espalharam um pouco por todo o mundo. Contudo, no início deste novo milénio, verificamos que somos também um país de imigrantes que representam, actualmente, cerca de 5% da população portuguesa. Razões de natureza económica estão na base deste fenómeno.
Por: Maria de Fátima Assunção
A AMI é organização não governamental, sem fins lucrativos, desenvolve um trabalho humanitário que tem como principal objectivo lutar contra a pobreza e a exclusão social, intervindo em situações de crise e emergência. O ensino do português integra-se nesta preocupação.
Cristina Andrade (coordenadora do projecto ‘Porta Amiga’), tem dedicado os últimos anos da sua vida ao que, inicialmente, visava ajudar os sem abrigo. Porém, no dias de hoje, tem um papel mais abrangente: «neste momento, a população alvo é os "sem": sem documentação, sem amigos, sem saúde» diz-nos, com naturalidade.
As dificuldades
A frágil situação económica vivida nos países de origem da maior parte dos que emigram, leva-os a procurar melhores condições de vida noutras paragens. A barreira da língua, o desconhecimento da cultura e dos hábitos, dificulta a integração. A maior parte não encontra trabalho na sua área de formação. Mão-de-obra não qualificada e trabalhos de limpeza, são, na melhor das hipóteses, as actividades que lhes permitem sobreviver.
Jurista na sua terra natal, Vitória, 23 anos, russa, há dois anos no nosso país, veio até Portugal para se encontrar com a mãe que já cá vivia. Tem olhos azuis, transparentes, que nos olham de frente, sem medo.
A televisão, como complemento das aulas, tem ajudado na aprendizagem da nossa língua. Encontrou trabalhos esporádicos em fábricas, mas deseja regressar à Rússia no próximo Verão: «Tenho saudades do resto da família e quero continuar a estudar. Portugal é um país muito bonito mas quero ir embora» afirma sorridente.
Há experiências de vida nestes percursos migratórios bem sucedidas, outras nem tanto, como é o caso de Igor, ucraniano, 34 anos, motorista de pesados, há cinco anos a viver em Portugal. Trabalhou na construção civil, mas está desempregado. Vive do que recebe do Fundo de Desemprego. «Neste momento, não consigo trabalho. Gostava de voltar a ser motorista… mas é difícil» No entanto, em Igor nota-se a tristeza de quem saiu do seu país «para tentar uma vida melhor», desabafa num fôlego.
Chegou há três anos a Portugal através do Circo Cardinalli. Originário da Mongólia, Buren, 31 anos, decidiu deixar o seu pequeno comércio para emigrar. Contudo, o destino pregou-lhe uma dolorosa partida: enquanto trabalhava, adoeceu repentinamente e o diagnóstico foi ‘Insuficiência Renal’. Esta doença leva-o a fazer hemodiálise três vezes por semana, o que o impossibilita de executar trabalhos pesados. «Tenho que fazer trabalhos levezinhos» diz. Gosta do nosso país, onde sempre se sentiu aceite, dando preferência aos nortenhos: «são mais simpáticos do que os do Sul».
A Língua Portuguesa
Os poucos exemplos acima descritos acabam por representar muitas vozes que, em comum, têm a vontade de aprender a nossa língua. Fazem-no com mais ou menos dificuldade, mas com muito empenho. A socialização também se faz através da Escola, que desempenha um papel insubstituível na integração destas pessoas.
Foi com o fado de Amália, "Povo que lavas no rio" que Ana Luísa Cardoso, docente de Português em regime de voluntariado, iniciou a sua aula: «Considero-nos mais como um grupo de amigos. Os temas que escolho não são só a língua, mas, principalmente, a cultura portuguesa» adiantou-nos. Sente-se entre alunos e docente laços de amizade e solidariedade: «Aprendo mais com eles do que eles comigo», acrescentou.
Razões do coração
A Escola Secundária Garcia da Orta também tem um papel relevante no ensino do português para imigrantes. A coordenadora deste projecto é Joana Vasconcellos, que, entre as múltiplas actividades desempenhadas ao longo da vida, destaca as funções que exerceu como Leitora de Português do Instituto Camões durante quinze anos, um pouco por todo o mundo. Tailândia, Irlanda, Bélgica, foram países que lhe deixaram gratas recordações e lhe proporcionaram uma experiência de vida, enriquecendo-a humana e intelectualmente.
Daí a vontade de proporcionar aos imigrantes a possibilidade de aprenderem português: «Um dos grandes problemas que eles têm é o desconhecimento da nossa língua e o processo burocrático que têm de seguir até à legalização».
Mas, se uma grande parte dos imigrantes chega ao nosso país por motivos económicos – basta lembrarmo-nos que a Europa tem dezoito milhões de desempregados – outros há que, nos sentimentos, encontraram motivos para deixar tudo e encetarem a grande viagem.
É o caso de Patrícia, 32 anos, dois filhos, contabilista, originária de Guadalupe, ilha de águas quentes do Mar das Caraíbas. Conheceu o namorado em Guadalupe e, quando ele decidiu voltar para casa, decidiu seguir o coração. Porém, o frio, a língua e os costumes aos quais não se habituou, fazem-na querer regressar: «Não quero ficar, quero voltar. A família está longe. Se ganhar a lotaria, vou-me embora…» diz, com uma sonora gargalhada.
Também Imelda, espanhola da Andaluzia, Gestora de Conta, 35 anos e casada com um portuense há seis meses, veio para o nosso país para seguir o seu marido. Sente-se bem e integrada, embora note diferenças nestes dois povos vizinhos: «Sinto-me bem cá. Acho os portugueses muito agradáveis mas muito fechados. Parecem-se com os catalães», referiu-nos.
01 maio, 2006
Universidades Sénior
Têm um olhar vivo, penetrante, como se tivessem a vida toda pela frente. Estudam com a mesma vontade e empenho dos jovens. Ou talvez mais. Falam-nos com alegria das matérias, dos professores, das metas a atingir. O que deveria ser um complemento, transforma-se na razão principal.
Por: Maria de Fátima Assunção
Encontramos na Associação Social, Cultural e Artística para a Universidade do Autodidacta e Terceira Idade do Porto (UATIP), um ambiente acolhedor, propício à aprendizagem, mas e acima de tudo, ao convívio, à proximidade entre as pessoas, à preocupação com o outro.
Actualmente com cerca de quinhentos alunos, iniciou a actividade em 1991, com oitenta. Nasceu da vontade e tenacidade de Maria Teresa Mota, fundadora e presidente da direcção, que acreditou desde o início neste projecto. Inicialmente, tiveram o apoio do Executivo Camarário de então, liderado por Fernando Gomes, que lhes dispensou uma casa localizada na Rua da Constituição.
Foi o ponto de partida para um projecto de sucesso e do qual tem um grande orgulho. A direcção e a secretaria trabalham em regime de voluntariado, dedicando aqui grande parte do seu tempo. Fazem-no por altruísmo e com muita alegria. Oferecem um leque variado de disciplinas (cerca de trinta e seis) que vão desde Alemão, passando pela Biologia, Psicologia, História, até às Artes Decorativas e Ginástica.
Estas universidades não se destinam só aos que não tiveram, na devida altura, oportunidade de estudar, mas também aos que querem preencher algum vazio que a idade vai dando e reaprender o que provavelmente já esqueceram: «inicialmente, pensei que se destinava a pessoas que não tinham tido oportunidade de estudar quando jovens. Mas não é assim. Aparecem-me muitas pessoas licenciadas, algumas até vêm recomendadas por psiquiatras. Aqui dão um sentido à vida» referiu-nos Maria Teresa.
É importante que as pessoas possam sentir-se úteis, membros activos de uma sociedade em constante movimento. «Sou voluntária da secretaria e ao mesmo tempo aluna. Aqui preencho um vazio que se tinha instalado na minha vida» confessou-nos Liberta Hermengarda, de 70 anos cheios de vida.
Os professores são preferencialmente jovens, para se conseguir uma interacção entre gerações. João Vieira Gouveia, de 34 anos, responsável pela disciplina de Canto Coral, admitiu que alguns alunos manifestam algumas dificuldades: «as pessoas têm o seu ritmo e depois é uma questão de tempo. Alguns alunos têm, naturalmente, dificuldades de concentração. No entanto, as pessoas têm determinadas metas a cumprir e querem cumpri-las».
Mas há os que, apesar da idade, conseguem desenvolver as suas capacidades culturais e artísticas: «tivemos uma aluna que conseguiu desenvolver de tal forma as suas capacidades artísticas, que agora expõe e até tem um certo mercado» disse-nos João Gouveia.
A solidão
Muitas pessoas encontram aqui uma forma de colmatar a solidão que se instalou nas suas vidas.
É o caso de Alexandre Ribeiro da Silva, que chegou à UATIP com uma profunda depressão, motivada pela morte da mulher. Conseguiu ultrapassá-la com o convívio e com a solidariedade que encontrou aqui: «cheguei em Janeiro de noventa e seis e nunca mais deixei de frequentar esta Universidade. Sinto-me outro. Esta é a minha segunda casa. Com uma particularidade: a senhora directora deu-me a chave para poder vir para cá quando quiser. Isso é muito importante O problema é quando estou de férias...» confidenciou-nos.
A componente lúdica é tida como um dos factores essenciais, que se manifesta através de visitas de âmbito cultural, espectáculos e viagens que realizam regularmente: «todos os anos damos um espectáculo de fim de ano» referiu-nos Maria Teresa
Os filhos abandonaram há anos o ninho, apareceram os netos, vê-se a vida de outra forma, com menos ansiedade mas muita curiosidade. Por vezes, sentem na carne a solidão mas procuram minimizá-la. Sabem que o mundo mudou, mas querem fazer parte integrante dele. Não desistem, não soçobram, não calçam as pantufas. Vivem um dia de cada vez. Não será que têm razão?
A Douro Sénior
A Douro Sénior nasceu em mil novecentos e noventa e nove e tem as suas instalações num dos locais mais aprazíveis da cidade do Porto, a Foz do Douro. As salas são espaçosas, com muita luz, bem equipadas. Apercebemo-nos que não foi descurado o mais pequeno pormenor para que as pessoas se sintam confortáveis. A sala de convívio e salão de chá corroboram a nossa impressão.
Actualmente com cerca de duzentos alunos, tem como director Mário Dias, licenciado em filosofia. Decidiu que era necessário levar por diante um projecto que poderia colmatar uma das lacunas da sociedade – minimizar a solidão dos mais velhos: «o motivo que me trouxe até aqui é meramente social. Este é um projecto muito interessante. As pessoas, a partir de uma certa idade, não têm como passar o seu tempo com um mínimo de qualidade intelectual. Estas Universidades podem ser a resposta» assegurou-nos.
Com uma propina mensal de quarenta euros os alunos podem inscrever-se em três disciplinas, como pacote mínimo. Por cada disciplina a mais que queiram frequentar pagam cinco euros. «Não temos fins lucrativos, mas também nunca nos foi dado nenhum apoio camarário ou outro. Tudo o que as pessoas pagam é investido em salários e equipamento» assegurou-nos.
Promovem conferências, colóquios e há sempre espaço para as viagens quer em Portugal, quer no estrangeiro.
Há também uma grande preocupação no recrutamento dos docentes, que exigem de grande nível académico: «procuramos actividades lúdicas, mas exigimos que os nossos docentes tenham um elevado nível académico. A maior parte dos nossos professores são mestres ou doutorados no activo, o que não é comum neste tipo de universidades» acrescentou ainda.
Foi no salão de chá que encontrámos Maria Eugénia Sá Coutinho de setenta e nove anos, Assistente Literária Principal da RDP, reformada há anos dessas funções. Com uma imensa alegria de viver, de gargalhada contagiante e pessoa de grande cultura. Contudo, não foi a solidão que a fez voltar a aprender: «as fases da vida sucedem-se umas às outras. Não tenho tempo para a solidão. Tenho tido algumas dificuldades económicas e psicológicas, mas nunca parei de estudar.
Antes de se despedir de nós, confidenciou-nos: «a minha disciplina favorita é Literatura Portuguesa. Tenho grande fascínio por estas matérias»
28 maio, 2005
A presença feminina em áreas de trabalho masculinas
As mulheres têm conseguido, cada vez mais, infiltrar-se em actividades e profissões quase exclusivas dos homens. Resta saber: serão elas tratadas de igual para igual?
Por: Leonora Gonçalves
“Aos homens, os seus direitos, e nada mais; às mulheres, os seus direitos e nada menos”. A frase é de Susan B. Anthony, uma das primeiras feministas da história do século XIX. Hoje, enfrenta-se o terceiro milénio e podemos afirmar que grandes transformações se procederam na sociedade ocidental. As mulheres têm direitos que Susan jamais imaginaria e, contudo, continuam a procurar um estatuto de igualdade ao escolher profissões porque lhes agrada, e não porque são ‘adequadas’ às mulheres.
Apesar da constatação de que a presença da mulher no mercado de trabalho é uma realidade incontornável, muitas das justificativas dos empregadores para não contratarem mulheres ainda se prende a uma classificação estanque dos papéis do Homem e da Mulher. Nos empregos dominados por homens, este preconceito observa-se de forma ainda mais marcante.
De acordo com Lina Coelho, docente da Faculdade de Sociologia de Coimbra, «ainda há uma ideia pré-concebida de que algumas actividades profissionais são para homens e outras para mulheres».
Lina Coelho vai ainda mais longe ao afirmar que há uma concepção generalizada de que «as mulheres irão, eventualmente, abandonar os seus empregos para terem filhos e que, portanto, o emprego deve ser atribuído a um homem porque permanecerá no emprego e dará menos encargos à empresa». A docente diz constatar que «esta é uma realidade que requer uma preocupação adicional nos países latinos, sociedades caracterizadas por uma visão muito tradicionalista da mulher».
Segurança no Feminino
Virgínia Aguiar, oficial de segurança do Instituto de Medicina Legal no Porto, é segurança há 11 anos e diz, no entanto, nunca ter tido problemas com os colegas de trabalho: «no meu emprego anterior só havia homens e senti-me sempre à vontade», afirma. De acordo com Virgínia, «alguns homens ainda têm dificuldade em aceitar as mulheres em posições de autoridade... Quando apanho o autocarro para o emprego, vejo que alguns parecem ter um certo medo e nem se sentam ao meu lado», diz.
No que diz respeito à presença de mulheres na sua profissão de segurança, Virgínia afirma que existem muitas na área da segurança «e, até, como guarda-costas!». Lamenta, no entanto, que um homem consiga emprego na sua área muito mais facilmente que uma mulher: «as empresas ainda pensam que um homem impõe mais respeito do que uma senhora», lamenta.
No que respeito à escolha de uma profissão de algum risco, a funcionária do Instituto de Medicina Legal diz que sua profissão «é tão perigosa como outra qualquer». E acrescenta, irónica: «conduzir nas estradas é de certeza mais perigoso». Virgína confessa ter tido alguma preocupação por parte dos seus familiares quando escolheu ser oficial de segurança: «ficaram com algum receio, mas viram que era o que eu queria fazer e conformaram-se!...», conta.
Mulher ao volante
Emília Silva, taxista há 5 anos, diz ter escolhido a profissão simplesmente porque gosta e não vê nenhuma razão para que uma mulher não deva ser motorista de táxi. «Eu volto todos os dias para casa às 10 horas da noite, não corro perigo e ganho o meu dinheiro: é um emprego como outro qualquer», afirma.
A taxista refere que nunca sentiu nenhum tipo de preconceito por parte dos passageiros. «Eles bem ficam surpreendidos e olham-me com um ar de curiosidade, mas têm respeito», explica. Segundo Emília, o problema, com efeito, centra-se nos colegas de profissão. Os taxistas têm uma atitude antipática com Emília, que não se sente bem-vinda na sua paragem de táxis.
O preconceito no trânsito está presente no dia a dia da taxista, que revela ser alvo constante do nervosismo de alguns condutores. Mas salienta que esta não é uma realidade apenas das taxistas, mas de todas as mulheres que costumam conduzir um carro. E como reagem os taxistas à presença de um membro feminino na frota? «Não conheço nenhuma senhora taxista!...» e não prestaram mais declarações.
Correio!
Ouve-se o som estridente da campainha e, ao atender, o morador ouve uma voz feminina a pedir que abram-lhe a porta. “É o correio!” anuncia, rapidamente, Maria João Ribeiro, funcionária dos CTT do Porto há 8 anos. Para saber perceber melhor o dia-a-dia de uma carteira, a ‘Pessoas revista’ seguiu-a, porque «o correio tem que ser entregue a horas!», informa-nos seriamente.
Para Maria João, há muito poucas mulheres no serviço de entrega, pois preferem trabalhar no atendimento. Quando questionada sobre a possível dificuldade em carregar tanto peso, refere que isso não é problema: «nós temos carrinhos quando a correspondência é muita, não é um esforço muito grande!».
Confrontada com a afirmação corrente de que as mulheres não são tão dedicadas ao trabalho quanto os homens, Maria João rebate enfaticamente: «os homens são muitas vezes mais preguiçosos e querem fazer as coisas a despachar, mas ninguém se importa. Mas se uma mulher fizer qualquer coisa de errado é logo porque é mulher!...»
Subintendente no feminino
Paula Peneda foi notícia, juntamente com a sua colega Madalena Amaral, em quase todos os Meios de Comunicação Social, ambas oficiais da Polícia de Segurança Pública (PSP), em Lisboa.
O motivo de toda a atenção é indiscutível: foram as primeiras mulheres a serem promovidas a Subintendentes dentro da PSP em Portugal e que irão, agora, frequentar o curso de promoção ao posto de Intendente.
Paula Peneda e Madalena Amaral terão a companhia de mais 40 Subintendentes, todos homens. Para além de comandarem divisões, as oficiais terão responsabilidades de chefia em todo o dispositivo da PSP.
A motivação apontada para a entrada na PSP por Paula Peneda, de 37 anos, é a vocação. Entrou para a PSP em 1985, após terminar o 12º ano. Nessa altura, estava na Escola Superior de Polícia, a começar o 2º curso de formação de oficiais de polícia. «Foi o único caminho que considerei seguir», diz.
A Subintendente diz que, desde que entrou, a PSP mudou muito quanto às oportunidades para as mulheres. «As diferenças são, essencialmente, de comportamento. Hoje, a PSP está mais receptiva às senhoras. Já somos muitas mais do que éramos quando entrei», constata.
Quando questionada sobre a possível discriminação das mulheres no seio da PSP, Paula Peneda pondera: «as coisas vão mudando com o passar do tempo e tudo está bastante diferente do que encontrei quando iniciei a minha carreira, há 19 anos. Penso que os colegas já se conformaram que têm que conviver connosco». Em relação ao futuro, a Subintendente mostra uma grande confiança. Se for aprovada em todos os cursos, poderá chegar a Superintendente Chefe aos 45 anos.
Sra. Presidente
O cargo político de Presidente da Junta de Freguesia em Portugal é, inegavelmente, ‘território masculino’. Ana Maria Silva Pereira é a presidente da Junta de Miragaia.
Dos 48 presidentes de junta do concelho do Porto é a única senhora. «Os eleitores não estão habituados a ver mulheres neste tipo de cargos. É uma questão de tempo até que haja muito mais mulheres a concorrer e serem eleitas para Presidente da Junta», esclarece.
A presidente diz existir uma enorme hipocrisia para com mulheres em cargos de responsabilidade política e salienta que o preconceito continua a existir na política, embora de forma disfarçada. «Os adversários sabem que não é politicamente correcto criticar uma mulher recorrendo à argumentos machistas. Ao invés, encontram formas de a acusar de incompetência e deixam o preconceito alheio fazer o resto», confessa.
Combatente no fogo
Andreia Carvalho, de 27 anos, é membro do Corpo de Bombeiros Voluntários do Porto. Para si, a escolha da profissão de bombeiro era inevitável. «Sempre quis... não consigo imaginar-me em nenhum outra carreira», confessa.
Quanto ao risco inerente à profissão, Andreia diz que «é uma opção de vida» e que todos os oficiais têm a percepção do perigo. «O treino a que somos sujeitos destina-se especificamente a diminuir as probabilidades de algo correr mal, nesse aspecto, as mulheres correm tanto risco quanto os homens», observa.
Andreia afirma ainda que a relação com os colegas é muito saudável, mas que têm uma tendência para a superprotecção das mulheres: «Numa situação de incêndio, eles estão sempre atentos onde nós estamos e se estamos a proceder de forma segura», diz. «Penso que é muito difícil para os homens entender que não precisamos de ser mais protegidas que todos», acrescenta.
Carreira estruturada
Engenheira civil da Edifer, um grupo empresarial da área da construção civil, Júlia Serra não tem dúvidas de que a mulher tem grandes possibilidades de ter sucesso em profissões maioritariamente masculinas. Na sua opinião criou-se um mito da inadequação da mulher à profissões das áreas ligadas à Tecnologia. «As mulheres não têm nenhum tipo de obrigação em seguir áreas ligadas às Ciências Humanas», refere.
Para Júlia Serra, é importante observar a evolução do papel da mulher na sua profissão: «quando obtive a minha licenciatura, era uma raridade encontrar senhoras formadas em Engenharia Civil. Hoje já observo um número razoável de mulheres nas empresas de construção civil, embora a predominância masculina seja inegável», esclarece.
Quanto questionada sobre como são as visitas aos empreendimentos em construção por parte de uma mulher, a engenheira destaca que não enfrenta qualquer problema. «Os operários fazem uma certa cerimónia comigo, mas o trabalho decorre da melhor forma possível», esclarece.
Júlia Serra discorda completamente da atribuição de falta de feminilidade às mulheres engenheiras. «De todas as engenheiras que conheço, nenhuma se encaixa no estereótipo masculinizado», afirma. E acrescenta: «pelo contrário, penso que é exactamente por ser uma profissão tão caracterizadamente masculina que procuramos usar roupas femininas, obviamente adequadas ao ambiente de trabalho».
A mulher no mercado de trabalho
Lê-se no Artigo 22º do Código do Trabalho vigente em Portugal que “todos os trabalhadores têm direito à igualdade de oportunidades e de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego, à formação e promoção profissionais e às condições de trabaho”. Este direito à igualdade é também assegurado na Constituição Portuguesa, assim como na Carta das Nações Unidas.
Estes diplomas vêm mostrar que, na actualidade, quase não existem vazios legais no que diz respeito aos direitos da Mulher no mercado de trabalho mas, infelizmente, ainda há um claro abismo entre a realidade jurídica e realidade prática. Constatam-se, de facto, claras diferenciações entre o estatuto feminino e o masculino nos postos de trabalho.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), num inquérito ao emprego em 2001, as mulheres continuam a ter salários mais baixos e apresentam uma taxa de desemprego mais elevada. O ganho médio mensal por actividade de uma mulher em 2001 era de cerca de 550 euros, valor claramente inferior ao masculino: cerca de 610 euros.
A título de curiosidade, informamo-nos sobre a presença de mulheres em algumas das grandes empresas portuguesas, ao que constatámos um quadro preocupante. Na Energias de Portugal (EDP), todos os 13 membros da estrutura de apoio ao Conselho de Administração são homens. Na Portugal Telecom (PT) os números são ainda mais impressionantes: em 23 directores administrativos não há, sequer, uma mulher. O porquê dessa exclusividade masculina nos órgãos de direcção não foi esclarecido pelas empresas referidas.
Os empregos não-tradicionais
Nos Estados Unidos da América, há uma organização denominada “Work4Women”(Trabalho para Mulheres), que disponibiliza informação e estratégias para ajudar a aumentar a integração feminina em empregos considerados não-tradicionais para o sexo feminino.
Ao contrário do que acontece em Portugal, nos EUA essa classificação - emprego não-tradicional - tem uma definição bem clara. O Departamento do Trabalho Norte-Americano define empregos não-tradicionais como aqueles em que as mulheres constituem até 25% da força de trabalho. Em Portugal não há uma denominação tão específica, mas é possível determinar algumas profissões como paradigmas da baixa inserção feminina.
Ao analisarmos dados do INE, observamos que, em 2001, 95% dos membros das Forças Armadas, assim como 76% dos operadores de instalações de máquinas e trabalhadores na área de montagem eram do sexo masculino. Por outro lado, cerca de 65% dos trabalhos administrativos eram realizados por mulheres.
Aninhas, a tasqueira
Por: Luis Urbano
Numa destas manhãs, fomos encontrar na tasca “O Escondidinho”, Ana de Fátima da Costa Araújo Barbosa, de 60 anos, natural de Sequiade, Barcelos. No inicio, ficou um pouco inibida e sem saber o que nos contar porque, segundo ela: «o cantar também tem hora». Mas depressa se desinibiu e revelou-nos a sua boa disposição e, à conversa, ficamos a saber mais sobre esta popular personagem de Paranhos.
Pessoasrevista: Há quanto tempo é proprietária desta tasca?
Ana Barbosa: Há quarenta anos, ou seja, desde que casei com o meu marido. Já era dos avós dele, há mais de oitenta anos.
Prev: Que profissão tinha antes de casar?
AB: Era criada de servir na Trofa. Mas comecei a trabalhar muito cedo, ainda em Barcelos. Aos seis anos já trabalhava no campo e fazia recados. Tinha de ser... A minha mãe fazia tochas de palha de centeio para iluminar o caminho, porque acordava muito cedo e os caminhos eram muito perigosos. Eram caminhos de cabras cheios de moitas e silvados.
Prev: Teve uma infância muito dura?
AB: Mesmo muito. Passei muita fome, muita miséria. A fome era tanta que nem podíamos ficar muito tempo na cama a dormir devido às dores de barriga. Então, acordávamos muito cedo para comer as migas e ir trabalhar para ter o que comer à noite. Aos catorze anos fui trabalhar para a Trofa, também para o campo. Ganhava seis escudos por dia. Ganhei várias medalhas de ouro na feira da Trofa. Tinha sempre o gado mais limpo e bem tratado! Só mais tarde fui criada de servir.
Prev: Quando veio para o Porto?
AB: Aos dezoito anos. Vim trabalhar para um senhor que era dono dos terrenos onde agora está a Faculdade de Engenharia e as outras. Tinha de carregar hortaliça de madrugada daí até ao Bolhão. Carregava o mesmo peso que qualquer homem. Eu tinha muita força! Eram sacos com mais de 60 quilos. Às vezes chegavam aos 80! Também ganhava tanto quanto um homem! Oitenta escudos por mês! Iam sempre connosco dois homens para nos ajudar a subir e descer as paredes dos caminhos. Era muito duro. E se chegasse atrasada pagava a mercadoria que levava!
Prev: Até quando trabalhou no campo?
AB: Até aos 20 anos, quando me casei.
Prev: A partir daí a sua vida melhorou?
AB: Sem comparação! Passei por situações de morrer a rir! A vida, aqui na tasca, era muito bonita. Tinha um grupo de clientes muito engraçado. Mas já morreram quase todos e outros já não moram cá.
Prev: Recorda-se de alguma história engraçada que nos queira contar?
AB: UI! Tantas (sorrisos). Esta é uma das mais engraçadas: Tinha dois clientes mancos. Um de cada perna. Eram muito engraçados... Um dia cismaram que tinham de fazer uma corrida. E lá foram. Saíram para a rua, com o resto dos clientes a verem. E começaram a correr pela rua fora. O que era manco da perna direita teve sorte porque ficou com o passeio do lado da perna manca. Então correu com a perna esquerda na estrada e a perna manca em cima do passeio para ficar com vantagem. Claro que ganhou. O outro ficou muito atrás. Mas foi uma paródia com toda a gente a rir na rua!
Prev: Aos sessenta anos, a dona Ana tem muitas experiências e histórias para contar. Que balanço faz à sua vida?
AB: Graças a Deus, tive até agora uma vida muito feliz. Passei muita fome, muito trabalho mas sempre fui honesta! Honesta e trabalhadora! Comi muito pão com bolor. Não me fez mal nenhum! Não é com o bolor que fazem a terramicina? É remédio (gargalhada). Hoje posso dizer com orgulho que ninguém me tem nada a apontar! Nunca enganei nem roubei ninguém. Felizmente as coisas melhoraram a partir dos meus vinte anos. A partir daí tive uma vida muito alegre, muito bonita.
O Segredo das Rendilheiras
“A tradição já não é o que era”, dizem. Mas quando falamos em Renda de Bilros o caso muda de figura. Maria Lapa, de 72 anos, é uma das rendilheiras de Vila do Conde que preserva esta arte, não só na escola do Museu de Rendas de Bilros de Vila do Conde, mas também em casa, passando o testemunho à sua neta por afinidade, Gabriela Brito.
Por: Filipe Fangueiro
Maria teve, desde muito nova, o contacto com esta arte já secular. Foi aos cinco anos que começou a rendilhar. Confessa que «ficava muito triste quando a avó me negava a possibilidade de seguir essa profissão». Mas foi pelo gosto (e pela persistência) que conseguiu ser rendilheira a tempo inteiro. Deixou de estudar e, aos dez anos, era quase uma profissional, aperfeiçoando e ensinando quem lhe pedia. Nunca negou um trabalho e uma ajuda a ninguém: a paixão pelos Bilros era grande. Foi por isso que aceitou, desde logo, ensinar a sua «recente neta».
Gabriela é uma jovem brasileira, de 19 anos, casada com um dos netos de Maria Lapa e nunca tinha tido contacto com estas rendas no seu país. Foi então que viu Maria, sentada em frente à almofada a rendilhar.
Apaixonou-se. Decidiu-se entregar à aprendizagem desta Arte. Começou e nunca mais quis parar. Segundo Maria, «Gabriela teve o dom do carinho que uma rendilheira deve ter com a renda». Apesar do sangue não ser o mesmo e a diferença de idades ser grande, Maria e Gabriela encontram, nelas, laços de união: o amor pelas Rendas de Bilros e a sensação que têm quando se sentam à frente da almofada e rendilham até altas horas da noite. «É fantástico como algo que dá tanto trabalho nos pode dar tanto prazer», dizem.
Para Maria, as rendas são uma vida, um amor antigo; para Gabriela é um legado, é uma continuação. Contudo, Gabriela não quer ser rendilheira de profissão. Decidiu não o ser seguindo um conselho da avó: «a vida de rendilheira não é fácil. Nem sempre se tem trabalho e as rendas, muitas vezes, não têm o valor mais justo». E é com esta experiência que Maria confidencia: «a Renda de Bilros tornou-se um vício», um vício que se torna uma Arte a preservar.
Apesar de tudo, Teresa Pimenta, professora de técnicas especiais no Museu de Rendas de Bilros tem uma visão um tanto ou quanto pessimista: «Temos pessoas jovens a aprender a arte de rendilhar, mas no seu futuro não incluirão as rendas, o que fará com que Vila do Conde seja, possivelmente, uma das próximas cidades a perder esta tradição» afirma.
Renda de Bilros: a arte na tradição
Percorremos as suas ruas estreitas, com casas baixas, onde os vestígios Manuelinos são particularmente visíveis nas suas janelas. Numa dessas ruas descobrimos a Casa do Vinhal. Solar urbano do século XVIII, a Casa do Vinhal é o Museu das Rendas de Bilros. A porta entreaberta aguça-nos a curiosidade. Fazemos soar a campainha e em instantes entramos no mundo dos Bilros.
Por: Maria Helena Oliveira
Através do tempo
Por entre as fotografias, que retratam a história das rendas, há uma que se destaca: a preto e branco, podemos ver mulheres e crianças a trabalharem em conjunto.
Desperta-nos interesse; “Porque estão todas ali?”. Manuela Silva, de 53 anos, funcionária do Museu, esclarece: «era uma oficina, onde eram pagas à tarefa, e como não havia onde deixar as crianças, acompanhavam as mães». E se, antes, todas as casas tinham uma almofada, o mesmo não acontece agora: apenas existem, em todo o conselho, 300 rendilheiras, «todas com idades avançadas», afirma Manuela Pereira, coordenadora das visitas dos serviços educativos.
A tradição foi-se perdendo e deixou de fazer sentido haver oficinas. Permanece no Museu a única que existe (à semelhança da escola das rendas). Maria da Guia, de 53 anos, rendilheira de profissão, é a coordenadora. A seu cargo tem a compra das rendas que serão comercializadas nas feiras anuais de artesanato.
«Paciência e criatividade» são os requisitos que considera fundamentais para se ser uma boa rendilheira. São, possivelmente, as causas da existência de dois tipos de rendas: as eruditas que têm desenhos mais elaborados, até com um fio mais fino; e as populares cujos desenhos têm formas geométricas.
Reconhecimento merecido
Numa tentativa de contrariar o esquecimento do artesanato nacional, a Câmara Municipal de Vila do Conde criou, em 1999, o projecto “Amor de Bilros... paixão de moda!”. Consiste numa aplicação prática das rendas de bilros na moda.
Desta forma, reúnem-se, anualmente, estilistas nacionais para trabalharem em conjunto com as rendilheiras, patrocinadas pela autarquia. O trabalho conjunto não se limita aos desfiles nacionais, mas também aos internacionais.
Paula Rola, estlista, participa no evento desde 1999, sendo a sua colecção presença assídua na Feira Internacional de Bilros, na Galiza. São muitos os estilistas consagrados que participam neste projecto. Em 2000, uma criadora de moda infantil, Lúcia Duarte, levou à passarela trabalhos realizados pelas crianças da escola do Museu das Rendas de Bilros.
Apesar de tudo, as crianças, que frequentam a escola do Museu, não pretendem ser rendilheiras: «vou continuar a fazer rendas, mas vou ter outra profissão» confidenciou-nos Teresinha, de 11 anos.
Para a posteridade
Num retiro silencioso, ergue-se a maior homenagem às rendilheiras de Vila do Conde. Na margem do rio Ave, junto ao Cais das Lavandeiras, eis a escultura que Ilídio Fontes criou, em Novembro de 1993, para homenagear estas mulheres.
Serena e dedicada, é assim que, dedilhando o bilro, a jovem de bronze, numa tentativa de enganar o tempo, vai criando as ‘obras de arte’ que permitem a esta cidade ser ainda o maior centro produtor de rendas de bilros.
Trazidas por marinheiros e comerciantes do Norte da Europa, a arte sofreu o seu primeiro revés com a lei de D. João V, que proibia o uso de qualquer tipo de rendas. Assim, as mulheres do Norte de Portugal, perante o cenário de pobreza que a aplicação do decreto previa, delegaram a Joana Maria de Jesus, rendilheira de Vila do Conde, a defesa dos seus interesses. Em resultado da sua persistência, quatro meses depois, a 19 de Setembro de 1749, El-rei mandou publicar um alvará que livrava as rendas da medida tomada.
JC: Operação Sem-Abrigo
Dizem que não existem super-heróis, ou que estes são imaginários, mas é certo que os podemos encontrar nas ruas do Porto. Espalhados por toda a parte, procuram um ombro amigo, um sorriso, uma voz que lhes aqueça o coração. Difícil é pensar que, de um dia para o outro, se pode ficar sem nada. Resta apenas um recanto na cidade porque esta é pública e as poucas mãos amigas que insistem em ajudar...
Por: Patrícia Rocha
Basta um olhar pela janela do carro para se conseguir ver o que se passa. A cidade enche-se de sem-abrigo, gente a quem a vida pregou uma partida.
Existe uma variedade infinita de pessoas que vivem temporariamente na rua. O sem-abrigo, o mendigo, o vagabundo, ocupam o espaço e o tempo de uma forma bem diferente da nossa.
Mas algo tem de mudar. O sem-abrigo não pode continuar a ser considerado um ‘corpo andante’: ele é também um ser humano que vive nas ruas que todos os dias são pisadas por cidadãos comuns. Já teve uma família, um emprego, dinheiro e, principalmente, um lugar quente e acolhedor.
São seres humanos com o mesmo direito de partilhar informação, de comunicar, de ocupar o banco do jardim, de sentar e pedir um café…
A família dos sem-abrigo não escolhe idades e todos necessitam do mesmo afecto e atenção.
Uns mais escondidos que outros não hesitam em pedir a tal ‘moedinha’ que, dizem eles, «é para comer qualquer coisinha, que já não como desde ontem». Outros limitam-se a vaguear pelas ruas da cidade. O que é certo é que não podemos virar as costas a este problema que de dia para dia parece aumentar.
A equipa é JC!
A Jesus Cristo (JC), ao contrário do que se possa pensar, não é uma instituição, mas sim um grupo de alguns elementos que decidiu unir-se para ajudar aqueles que mais necessitam e que estão sós nesta, para eles, dura vida.
Todos os domingos, às 20 horas, saem para as ruas do Porto com os seus ‘sacos ternura’ para aliviar e matar a fome do sem-abrigo.
Levam um pouco de tudo: bolachas, croissants, salsichas, leite chocolatado, bonés, sapatos, roupa… e o tal miminho que nunca falta: o chocolate que todos adoram.
Se é difícil observar a situação destas pessoas durante o dia, mais difícil se torna ao cair da noite. Recolhem-se e habitam no recanto mais aconchegado, que é sempre o mesmo. No fundo, parecem uma família, pois conhecem-se uns aos outros. Alguns até a têm, mas preferem estar sós na rua, do que maltratados em casa.
Heróis todos os dias
A equipa JC segue sempre os mesmos locais da sua ronda. O primeiro destino é o edifício do Jornal de Noticias, onde se encontra a Sabrina, uma menina de 3 anos que vive com a mãe. Nunca teve uma casa, mas o seu olhar é doce e meigo. Está sempre à espera de um saco mimado, de um brinquedo, de um sorriso.
O Carregal é o destino seguinte, e lá estavam os amigos do costume, na enorme e antiga casa que noutro tempo foi um Lar e que hoje os acolhe, todas as noites.
O Alfredo, sempre com a sua boa disposição, oferece aos presentes um pouco da sua habilidade musical. Estão lá também o António, com uma capacidade enorme para contar histórias e a dona Emília (a avózinha, como é considerada), uma senhora de 76 anos que não admite que falem da sua família, pois esta só lhe trás más recordações. Na hora da despedida fica sempre a chorar, embora saiba que a equipa vai voltar com os tão desejados beijos e carinhos que lhe sabem sempre a tão pouco.
No Hospital de Santo António abriga-se o Vladimir, um ucraniano que vai ficar para sempre agradecido das muletas que a equipa lhe arranjou, pois só assim se consegue manter de pé.
São várias as histórias destas pessoas, cada um tem um motivo para ali estar, ou porque os pais e/ou os filhos os rejeitaram, ou porque o álcool e a droga lhes falou mais alto, enfim, uma infinidade de histórias que fazem pensar e reflectir.
A história de Domingos é interessante: «há 30 anos, tinha eu 12, vivia em Angola com toda a família. A minha mãe trabalhava para uns senhores do continente. Um dia, esses senhores disseram-lhe que vinham à metrópole e que me trariam com eles». A mãe de Domingos limitou-se a aceitar. «Entretanto rebentou a guerra em Angola e os senhores disseram à minha mãe que não iriam mais voltar», e o Domingos ficou entregue a si mesmo, desde os 12 anos.
Mais adiante, na rua Júlio Dinis, e já com o frio a fazer sentir-se na pele, encontramos o Mauro de 19 anos e o Sérgio, um ucraniano que passa os dias à porta do centro comercial Cidade do Porto. Estava triste e aborrecido, pois a promessa de emprego que lhe haviam feito no mercado do Bom Sucesso não se concretizou. Mais uma vez tinha sido enganado.
A Anabela não confia os seus medos a ninguém, a tudo responde com o olhar assustado que a vida lhe tatuou. A uma determinada altura pensei: «Que coragem a destas pessoas. Agora dou valor a tudo o que tenho e preservo!».
O rumo segue agora em direcção à Avenida da Boavista onde se encontram o Hélder e o Luís finalmente de pé, pois os ‘Médicos do Mundo’ tinham estado a tratar deles, a pedido da JC. Um pouco mais à frente está o Avelino sempre com o seu lugar muito limpo e organizado, com a sua única companhia, o seu cão que, como diz, o ditado: “O cão é o melhor amigo do Homem.”
Junto ao Hotel Meridien está o Fernando, sem forças para se levantar. Diz ter HIV, hepatite B, hepatite C, diabetes, cancro, mas ainda chora desesperadamente, «porque tenho dignidade», diz.
No percurso entre o Campo Alegre até Lordelo do Ouro mostra mais uma rapariga de muletas, sem uma perna, a pedir uma esmola a todos os condutores que paravam naquele semáforo.
A Bruna tem 22 anos, ficou sem a perna num acidente de automóvel. Tinha fugido de casa porque o pai a maltratava e, na ilusão de uma vida melhor, aceitou levar ser acompanhante, até ao dia em que engravidou. Foi perdendo o rasto dos seus e acabou sozinha na rua, de braço dado com a droga.
Disse que dormia no bairro do Aleixo e que todo o dinheiro que juntava era para se alimentar daquele vício, que já não consegue largar. Perguntei se existiam mais sem-abrigo e se podia levar-me até lá. De um momento para o outro começaram a aparecer, mais pareciam seres fantasmagóricos.
Foi impossível comunicar com eles. Aceitaram apenas a oferta e recolheram novamente para o único lugar que têm:um cobertor e alguns caixotes, que é tudo o que lhes resta para dormirem mais uma noite.
Integração sócio-profissional dos cidadãos invisuais
A Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) é uma instituição particular de Solidariedade Social, de âmbito nacional, que tem como fim a promoção da habilitação dos invisuais e amblíopes para o exercício de um vida em sociedade participativa. Trata-se de um projecto com financiamento do Estado Português, nomeadamente, do Ministério o Trabalho e da Segurança Social e do Fundo Social Europeu.
Por: Sónia Resende
Celeste Cardoso, 47 anos, é telefonista na Universidade Fernando Pessoa (UFP) . Tem um sorriso contagiante e uma agilidade a trabalhar impressionante. “Trim” de um lado, “trim” do outro, os telefones não param, mas Celeste não se atrapalha. “Universidade Fernando Pessoa, fala Celeste Cardoso...!”, quem ouve esta voz do outro lado do telefone não imagina que ali está uma pessoa a quem a vida deu força para lutar contra o inesperado.
Tinha 24 anos quando deu conta que estava a ficar sem visão. Gradualmente, num período de cerca de um ano, os rostos de todos os dias desvaneciam-se aos poucos. Como que a entrar num túnel sem fim onde a luz se ia perdendo. Em contrapartida, a memória e os outros sentidos começaram a aperfeiçoar-se.
O maldito glaucoma que cega cerca de 2,4 milhões de pessoas por ano surgiu sem aviso na vida de Celeste, mas inesperada foi também a força de vontade que teve para continuar a viver. Naquela altura valeu-lhe a ajuda do namorado, com quem estava desde os 22 anos: «ele foi muito importante para mim porque, realmente, foi uma fase que, se estivesse sozinha, não sei se tinha aguentado».
A família também a apoiou muito, mas o amor foi, de facto, o seu último reduto para a sobrevivência emocional e social. Viriam a casar-se quando Celeste tinha 31 anos.
Até aos seus 24 anos chegou a trabalhar, temporariamente, como auxiliar de educação e numa agência de viagens. Nessa altura, poucos anos tinham passado depois do 25 de Abril e a vida de Celeste continuava numa revolução constante à procura de emprego fixo.
Depois, perante a incontornável situação que a viria a afectar, Celeste teve conhecimento que existiam associações que a podiam ajudar. «Foi então que comecei a aprender o braille e fiz uma reabilitação de modo a conseguir maior mobilidade».
O estágio profissional que decidiu fazer na ACAPO, depois de já ter estado a trabalhar durante oito anos também como telefonista, levou-a até à UFP, onde permanece há quatro anos. Admite gostar do que faz, «embora se fosse normo-visual com certeza que gostaria de ter outro tipo de trabalho mas, como invisual, acho que telefonista é o lugar onde podemos ser mais independentes... é tudo uma questão de hábito», define Celeste.
Novas Tecnologias da Comunicação
Quando a Internet começa a ser um elemento quase indispensável na vida das pessoas, também para os invisuais foi criado um software que permite ouvir a informação que os sites contêm. Assim, hoje em dia abrem-se as portas para que os invisuais possam ocupar outros cargos senão os já comuns.
Mas não é fácil viver num país com tantos obstáculos para os invisuais. Andar nas ruas, em edifícios públicos ou no próprio local de trabalho pode tornar-se uma verdadeira aventura.
Embora tenha a facilidade de trabalhar no primeiro andar, Celeste considera que a sua mobilidade é difícil, «se quiser ir ao bar, tenho de ir acompanhada. É difícil descer as escadas e muitas vezes os alunos também se distraem muito. Mesmo que leve a bengala, às vezes nem se apercebem que estou a querer passar».
Saudades é, com certeza, uma palavra talvez demasiado redutora para exprimir o quanto Celeste gostaria de tornar a ver o sol, o mar, as plantas. «Uma coisa que adorava era andar no meio da natureza, ir à praia... e isso eu continuo a fazer, mas sinto-a de outra maneira» confessa, com melancolia.
Mas nos seus olhos vê-se, sobretudo, afecto, quando fala nas sobrinhas, que considera as filhas que nunca teve. «Gostava de ver o rosto delas, mas não consegui porque ceguei pouco antes. A mais velha nasceu passado cerca de dois anos de eu cegar». No entanto, Celeste vê-as com o coração.
Felicidade à vista
João António Moreira, invisual desde os 13 anos, não teve uma integração profissional como Celeste. No entanto é feliz porque, mais que isso, o que ele precisava era de estabilidade social.
Foi um ser humano com todas as suas capacidades, até ao dia que uma ablepsia se apoderou da sua visão. Cegou primeiro da vista esquerda e, apesar de aos 14 anos ter feito uma operação que lhe dava 5% de probabilidade de ficar a ver, acabou por ficar invisual.
Desde os 6 anos que viveu num Colégio interno, em S. Félix da Marinha (Vila Nova de Gaia), que o acolheu a si e aos seus três irmãos. Tinha 17 quando começou a trabalhar na agricultura, numa Quinta, na Madalena (Vila Nova de Gaia). Segundo ele, «os patrões ajudaram-me mas, por outro lado, pagavam mal». Dormia num espigueiro, sem condições para um ser humano, ainda mais sendo invisual. Dormia lá praticamente todos os dias, havendo semanas que nem ia ao colégio. Um dia teve de sair do colégio. Os irmãos, já maiores de idade, tornaram-se desordeiros e foram expulsos. João também teve de acompanhá-los, «disseram-me que eu tinha mais cabeça que os meus irmãos. Por isso tinha que tomar conta deles...!» desabafou.
João era, então, um rapaz responsável e trabalhador. Consigo levou os poucos bens que tinha e também as poucas boas recordações, indo viver para uma pequena casa em Vila Nova de Gaia, onde os quatro rapazes partilhavam a profunda falta de condições.
Aos 26 anos a sua vida começou um novo rumo. Através de um «camarada», como prefere chamar a alguém que o ajudou, conseguiu livrar-se do mundo cruel em que vivia. Foi quando encontrou, em Cinfães do Douro, uma nova forma de viver. Perto do Porto, é no berço espantoso de montanhas bravias que fica a aldeia onde vive. O horizonte fecha-se em volta e o céu parece ali excessivamente baixo. Isolado do mundo, leva um quotidiano sempre igual mas com um saudável estilo de vida.
No desandar dos ponteiros do relógio dá sempre tempo para João lavrar as terras, cuidar dos animais que cria (porcos, galinhas e coelhos) e, ainda, para o convívio entre os poucos habitantes daquele sítio, pessoas que, desde o primeiro momento, sempre o acolheram bem. «São a minha família», diz, aquela que ele nunca teve, pelo menos na verdadeira acpeção da palavra. Os caminhos são feitos de pedras desequilibradas mas, com o seu traquejo, João já aprendeu a conhecê-las.
Hoje tem 28 anos e diz ser um rapaz feliz: «muitas pessoas que conheci gozavam comigo por ser invisual, mas encontrei um camarada que me levou para a aldeia. Não quero voltar para o Porto».
A última coisa que levou da Invicta foi uma companheira. Diana, de 22 anos, residia no colégio onde o João viveu. «Ele ajuda-me muito», diz Diana, feliz por estar ao lado dele. «Só com ele é que aprendi a andar na rua, ir às consultas do médico, às compras, coisa que nunca tinha feito enquanto estive no colégio».
Diana tem uns olhos escuros grandes e expressivos, que revelam a curiosidade de quem viveu poucos dias fora dos muros do colégio. Mas têm um brilho e uma simpatia que demonstram a sua alegria de viver ao lado de João. Uma alegria que o companheiro não vê, mas sente.
João ainda guarda mágoas da sua vida passada, onde quase todos lhe viraram as costas. No entanto, agora tem motivos para sorrir.
ACAPO olha pelos invisuais
O desemprego que afecta a população invisual é um dos problemas que a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal tenta resolver.
Na delegação do Porto, Diana Benfica (Técnica de Integração Profissional), Natividade Abreu (Assistente Social) e Margarida Gomes (Psicóloga), lutam diariamente pela integração sócio-profissional dos deficientes visuais. Concretizam um projecto que tem como objectivo principal a integração profissional dos invisuais ou, no caso de já terem emprego, melhorar a sua posição profissional.
Para isso há vários passos: o utente inscreve-se na instituição onde é recebido, numa primeira instância, pela psicóloga que irá conduzi-lo num processo de adaptação profissional; depois disso, entra numa outra área que é apoiada pela Técnica de Integração Profissional que tem o papel de contactar as entidades. A Assistente Social faz o elo de ligação, uma vez que os utentes também necessitam ajuda com documentos e outras questões técnicas.
No processo de integração profissional, encontram alguns obstáculos «por parte das empresas há um grande desconhecimento, por isso é um processo moroso» afirma a psicóloga, Margarida Gomes.
Aponta também o dedo aos próprios hospitais, que deveriam passar as prescrições para as ajudas técnicas, «a maior parte deles tem problemas gravíssimos, não só a nível de acessibilidades, mas também pelo próprio desconhecimento daquilo que é necessário, acontecendo que, muitas vezes, nem têm o formulário que deveria ser preenchido nestes casos».
Natividade Abreu integra a equipa de formação profissional através de acções formativas, acessibilidades e revisão de todo o programa que deve ser cumprido. «A parte mais interessante no meu trabalho é as ajudas técnicas, porque são necessárias adaptações para que os invisuais possam desempenhar as suas actividades tão bem como qualquer outra pessoa», diz a Assistente Social.
Diana Benfica está há poucos meses na ACAPO mas avalia positivamente a participação das empresas neste processo de integração profissional. A Técnica de Integração Profissional considera, porém, que «o que acontece, muitas das vezes, é que as entidades que os recebem não estão preparadas a nível das acessibilidades».
Consciente de que também o acesso à informação é um dos principais problemas dos deficientes visuais, a ACAPO dispõe de bibliotecas em braille e sonoras, assim como promove diferentes e variadas acções de âmbito cultural, como idas ao teatro, concertos e actividades desportivas como o goalball. Curiosamente, este desporto surgiu logo após a II Guerra Mundial, criado especificamente para ocupar desportivamente os ex-combatentes que haviam cegado em combate.
As actividades desportivas e culturais desenvolvidas pela Associação têm despertado algum interesse por parte dos utentes. Porém, a Psicóloga considera que existe uma divisão dentro do próprio grupo das pessoas com deficiência visual: «há pessoas que acham que este tipo de actividades são essenciais e gostam de participar, e há outras que não ligam muito e nem respondem a esse tipo de iniciativas que são desenvolvidas».
O cidadão face à deficiência visual
Confrontadas com esta questão, as opiniões são unânimes entre as técnicas que lidam diariamente com esse tipo de situações: felizmente, há uma tendência para tentar ajudar mas que, muitas vezes, acaba por ser inoportuna. A psicóloga Margarida Gomes considera que há uma tendência exagerada de «verem os deficientes visuais no papel de coitadinhos»...
Nos ambientes de trabalho, as pessoas lidam com os deficientes visuais sempre numa base de condescendência. Margarida Gomes considera que «é suposto que uma pessoa que esteja a trabalhar seja autónoma. Dificilmente conseguiremos integrar, num ambiente de trabalho, uma pessoa que tenha défices grandes e que não esteja capacitada para exercer as suas funções».
Segundo dados do INE (2001), são 163569 os portadores de deficiências visuais em Portugal. Vale a pena existir uma instituição que não fecha os olhos a estes problemas.
28 janeiro, 2005
Vincent Dioh: o mundo através da pintura
Por: Amanda Alves
Vincent Dioh tem nove anos de idade. Aos três foi-lhe diagnosticado autismo, uma perturbação no desenvolvimento. Por essa razão, Vincent não fala. No entanto, desde cedo começou a revelar uma tendência para a pintura: uma outra forma de expressar o que lhe ia na alma. «Começou por buscar canetas e lápis ao escritório de casa e riscava todas as paredes e brinquedos que encontrava», lembra Zélia Rocha, a mãe do menino.
A partir daí, e com o incentivo e apoio de Zélia, Vincent passou a transformar tudo o que tinha ao alcance em quadros e nunca mais deixou de pintar. Apesar de ser filho do pintor Mustapha Dioh, Vincent não herdou as características da sua pintura. Utiliza técnicas únicas no mundo, servindo-se de réguas, colheres e das suas próprias mãos, em vez do tradicional pincel. Acompanha ainda a realização das suas obras com música ambiente.
O seu atelier improvisado mostra-nos a ligação corporal que tem com as tintas e com suas pinturas. O chão e as paredes forradas a papel estão cobertas de um emaranhado de cores que escapam aos quadros.
Fora do atelier, as obras de arte desta criança também são uma presença constante, com quadros espalhados com cuidado pelas paredes, por cima das camas, pelo chão. Algumas estão encaixotadas.
As suas pinturas são abstractas e simbólicas, com uma grande diversidade e exuberância de cores que transmitem dinamismo e movimento. Está bem patente, também, a multiplicidade de imagens sobrepostas num mesmo quadro.
Em qualquer uma das obras, a mãe de Vincent Dioh consegue sempre encontrar uma interpretação e um significado, como é o caso de algumas obras que interpreta como sendo a vida de Cristo: a sua crucificação, o sudário, passagens da Sua vida.
Zélia Rocha já organizou quatro exposições com as obras do filho, mas quer organizar outra: «O Vincent pinta muito depressa e faz muitos quadros e, por isso, já tem muitos que merecem ser mostrados». Inicialmente, Vincent pintava todos os dias, mas como o material de pintura é muito caro, a mãe impôs-lhe dias para pintar.
Durante a semana, Vincent frequenta uma escola do ensino especial, onde já está a aprender a ler e a escrever. Para além disso, é acompanhado com frequência por um médico e uma psicóloga especialista. Quanto ao futuro de Vincent, a mãe prefere não pensar nisso: «Com ele aprendi a viver apenas o presente. Tenho esperanças, mas não tenho expectativas. Penso que Vincent continuará com a pintura que, a cada dia, se revela melhor e mais complexa. Quanto ao resto não sei. Só posso garantir que farei sempre tudo que estiver ao meu alcance para fazer o que for melhor para o meu filho, como tenho feito até agora. Com Vincent reaprendi a viver».
A Comunidade Chinesa em Portugal
A inconfundível lanterna vermelha na porta é tão eficiente como um logótipo. Estamos, sem sombra de dúvida, diante de uma loja de comércio chinês. Guarda-chuvas, telefones, blusas, brinquedos, acumulam-se nas prateleiras numa profusão de cores e estilos que chegam a confundir o mais atento cliente. É neste cenário que se concentra grande parte da população chinesa. Este é também o nosso ponto de partida para conhecer um pouco mais da realidade dos imigrantes chineses em terras lusitanas.
Por: Leonora Gonçalves
Falar com um imigrante chinês revelou-se uma missão quase impossível. «Nô falar bem português!», é frase ouvida vezes sem conta ao abordar comerciantes chineses no Porto. Com grande desconfiança e um sorriso nervoso, os sóbrios imigrantes fecham-se em copas só pela menção da palavra ‘reportagem’, recusando a satisfazer a curiosidade jornalística e, gentilmente, indicando a saída do estabelecimento comercial.
É a muito custo, portanto, que Li Bin vai respondendo às perguntas. Sempre com o olhar por cima dos ombros do entrevistador, para assegurar que nenhum cliente fique mal atendido na loja de comércio chinês, lá vai contando a sua história. Com 34 anos de idade, há três em Portugal, mais especificamente no Porto, Li Bin diz-se satisfeito com a vida. «Estou muito contente, vivo melhor do que na China», conta. Todavia, no início contou com algumas dificuldades na adaptação a uma cultura e costumes tão diferentes dos seus.
Li Bin aponta a traiçoeira língua portuguesa como a sua maior dificuldade: «Tive que decorar algumas frases para falar com os clientes. Hoje, já estou bem melhor, só não entendo quando falam muito rápido», explica.
Quando perguntamos se já se sentiu discriminado, Li Bin desvaloriza a questão: «Os portugueses às vezes não têm muita paciência para entender o que quero dizer, é só isso. Não são mal educados e tratam-me bem».
Li Bin diz não sentir saudades da China, mas dos seus familiares. «Tenho dois irmãos lá [na China] que quero que venham, mas eles têm família e é mais difícil», lamenta. Quanto à possibilidade de voltar, Li Bin olha-nos com um ar sério e sem hesitar responde: «Não! Fico cá. À China não volto».
Retrato Oriental
De acordo com dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de 2002, os chineses já são estimados em 11 mil em território nacional, dos quais apenas cerca de 4500 se encontram em situação legal.
«A procura das melhores condições de vida é o principal motivo da emigração. Hoje, os imigrantes chineses já vêm ao encontro de outros familiares instalados em Portugal e, por isso, sentem-se mais estimulados para emigrar», diz Y Ping Chow, representante da Comunidade Chinesa no Porto. E acrescenta: «Posso dizer que 90% dos chineses que emigram para Portugal vêm para ficar. Primeiro, chegam sozinhos. Depois, quando já estão numa situação estável, trazem os familiares».
Segundo Y Ping Chow, a língua constitui um dos maiores obstáculos para os imigrantes chineses em Portugal. «É muito difícil fazermo-nos entender e trocar ideias em português», afirma. Quando questionado sobre o receio da comunidade chinesa em falar, o representante explica que «muitos chineses ainda não estão legalizados no país e esta pode ser uma das causas do silêncio. Mas também há o facto de serem muito reservados».
Y Ping Chow pensa não haver preconceito dos portugueses em relação à comunidade chinesa: «Os chineses imigrantes em Portugal são bem tratados e aceites». Considera ainda, que a mentalidade dos cidadãos dos dois países em questão é realmente diferente, mas desvaloriza a presença de dificuldades intransponíveis por parte dos imigrantes chineses em Portugal.
O representante da Comunidade Chinesa no Porto justifica o escasso convívio dos imigrantes desse país em Portugal, dizendo que os chineses reúnem-se somente em situações especiais. E dá como exemplo um evento de grande dimensão a ocorrer: o novo ano chinês, uma das poucas oportunidades de congregação dos imigrantes chineses.
No entanto, Chow admite o surgimento de alguns atritos entre nacionais e chineses na área do comércio. «O que existe é uma incompreensão por parte dos comerciantes portugueses em relação às chamadas ‘lojas dos chineses’, por estas apresentarem artigos com um preço muito baixo. Mas esse é um problema que vai desaparecer com o tempo».
Invisibilização’ Chinesa
Chen Xiaohong, investigadora do Centro de Estudos Chineses (CEC) da Universidade Técnica de Lisboa, afirma que os chineses têm o que chama de uma "estratégia de ‘invisibilização’". «Fora do espaço dedicado ao negócio étnico em que é possível haver relações inter-pessoais, a visibilidade dos membros da comunidade é quase inexistente. Estes, curiosamente, não apresentam a necessidade, nem ao nível individual, nem ao nível colectivo, de reconhecimento e aceitação por parte do grupo acolhedor», explica.
«Em Portugal, e mais especificamente no Porto, nota-se a ausência de uma região de concentração de comércio e habitação, do género ‘Chinatown’. E refiro o Porto por ser aqui que a imigração chinesa é mais expressiva», diz Xiaohong.
Aquela investigadora considera que a procura de reconhecimento pela comunidade chinesa passa, quase exclusivamente, pela rentabilidade económica dos seus negócios. De acordo com estudos do CEC, o espaço de venda de produtos, seja em restaurante ou em pronto-a-vestir, é a forma que os chineses encontram para projectar a sua etnicidade e reunir-se como um grupo.
Apesar deste contacto ser considerado impessoal e rápido, é um contacto inter-étnico.
Outro estudo de grande relevância neste âmbito foi realizado por Teresa Teófilo, no âmbito de um curso de Pós-graduação em Multiculturalismo e Relações Interculturais, intitulado "Identidade e Reconhecimento: O Outro Chinês".
Para a investigadora, é fundamental questionar a recepção dos chineses junto da população portuguesa e problematizar a interferência de estereótipos e preconceitos na integração da comunidade imigrante na sociedade acolhedora.
Uma das conclusões da investigação foi a não constatação de qualquer expressão de racismo flagrante, mas sim a presença de alguns estereótipos. Sobre a evolução do relacionamento entre portugueses e chineses, afirma: «através da produção, divulgação e partilha de conhecimento será mais fácil transformar comportamentos discriminatórios, para que o multiculturalismo seja um conceito vivenciável e verificável e não uma mera leitura sociológica das actuais sociedades».
Mente Certa em Corpo Errado
«Sou uma mulher que nasceu num corpo estranho» Assim se resume a história de Sílvia, de 35 anos, Ricardo de nascimento.
Por: Cláudia Ferreira da Silva
Sílvia ainda se parece um pouco com um homem, mas é quase uma mulher. «Ser mulher é algo de natural em mim. Trata-se de uma maneira de olhar o mundo. Nós, mulheres, temos um universo próprio. Não tenho uma vagina, mas é exactamente como se tivesse», conta Sílvia, transexual feminino.
De todas as variantes da sexualidade humana, nenhuma é tão incompreendida como a transexualidade, a bizarra experiência de nascer com cromossomas, genitais e hormonas de um sexo, mas ter a convicção íntima de pertencer ao género oposto. Enquanto homossexuais, lésbicas e travestis assumem os órgãos genitais que têm, os transexuais repudiam o que a natureza lhes legou.
Segundo a psicóloga Vera Fonseca, é fundamental destacar a dor e o sofrimento de sentir-se preso a um corpo e viver uma situação social não condizente com o seu estado emocional. «O transexual apresenta um distúrbio de identidade de género, constante e persistente, que evolui na busca da mudança permanente de seu sexo». Mas, muitas vezes, existem condicionantes que perturbam este sonho…
A transexualidade é independente da orientação sexual do sujeito, podendo este ser heterossexual, homossexual ou bissexual. Sílvia fala como uma mulher, tem tiques próprios das mulheres, como um cuidado especial com o corpo, senta-se e gesticula como só as mulheres sabem.
A voz de Sílvia ainda é grave e masculina, mas desfaz-se nos encantos de tons suaves, educados, cultos. E como se sente com os seus órgãos genitais? Responde sem rodeios: «Não sinto os meus genitais. É como se não os tivesse». Na rua, as pessoas olham e perguntam: é homem ou mulher? Isto na melhor das hipóteses, diz Sílvia, porque, na pior, aparece a injúria, o insulto, a agressão. "Bichas, travestis, maricas", ouve regularmente.
Renata, quarenta anos e de porte esbelto e esguio, vai mais longe. Conta que durante os 20 anos em que se prostituiu, os homens bissexuais eram a maioria dos seus clientes. Procuravam, na sua maioria, sexo oral. Mas havia outros, muito sós, diz, que a procuravam pelo desejo secreto de fazer sexo com um pénis e receber carícias de uma mulher.
«Em minha casa, apesar de todos saberem esta minha opção, a não concordância do meu pai transforma este assunto em tabu», conta Renata, triste. «Eu nunca fui um homem, não sei o que é que um homem sente», diz Sílvia. E sem equívocos, sem hesitar, acrescenta: «Eu sempre fui uma mulher e vivo como qualquer mulher». E era com uma mulher que se parecia, efectivamente.
Sexo. «Quando faço amor, o meu companheiro ignora os meus órgãos. É fácil. Eu sou uma mulher, porto-me na relação em função do feminino e sinto-me assim», conta Sílvia. «Só comecei a ter orgasmos quando assumi a mulher que eu sou, isto é, quando deixei transparecer a minha verdadeira sensibilidade», confessa.
Das duas personagens desta história, apenas Renata se quer submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. O seu nome consta da lista de espera do corredor da esperança dos hospitais portugueses. Renata espera obstinadamente. «Eu tenho um sonho», diz. «Quero ser mulher a todos os níveis», completa.
Renata já foi Rui. No Bilhete de Identidade, assina este nome ao lado de uma fotografia onde a maquilhagem afirma sem despudor que é mulher e os longos cabelos ajudam à aparência feminina. Mostra o BI como consolação, mas sabe que, mesmo sendo operada, isto é, adquirindo plenamente a cidadania da transexual feminina, transformado que foi o pénis numa vagina reconstruída, nunca deixará de ser Rui. Até porque os seus filhos têm um pai.
Renata é agora servente em restaurações de edifícios. Findo o trabalho, regressa a casa. Lá é homem, em casa, mulher. Quando pica o ponto, veste-se de novo como lhe dita a consciência, maquilha-se, repõe os seus gestos e caminha em direcção à lida da casa. Sílvia está ainda em processo de transformação. «No meu caso, quero apenas moldar-me um pouco mais, no fundo desejo olhar-me ao espelho e sentir-me bem com o que vejo», conta.
Renata recorda um fatídico encontro diário. O encontro com o espelho que lhe mostrava alguém que desprezava. «Eu via-me como um estranho. Só olhava para o espelho quando era obrigada, de manhã, porque evitava até ao limite olhar-me». Agora a sua vida mudou bastante. Usa brincos, anéis, deixou crescer o cabelo e tem um cuidado extremo com o seu visual.
«Nós sofremos», diz Renata. «As guerras que se travam dentro de nós e aquelas que os outros nos obrigam a gerir tornam muitas vezes o nosso dia-a-dia infernal. Mas é assim que somos felizes», afirma, convicta.
Direitos desviados
Apesar das inúmeras lutas enfrentadas pelas mulheres, ainda se constatam comportamentos que, nas mais variadas situações, denotam uma completa desconsideração pela figura feminina. São resquícios de um passado em que a mulher era uma figura meramente decorativa. Mas terá sido sempre assim?
Por: Leonora Gonçalves
Sentada timidamente na cadeira, com as mãos entrelaçadas e pousadas no colo, Maria conta a sua história. «Pensava que era uma questão de tempo e que as coisas iam melhorar, mas não melhoravam nunca», diz, com um sorriso tímido. Pausadamente e com uma voz muito suave, relata uma história angustiante, uma história de desrespeito, uma história de agressão.
Maria é um nome fictício, mas esta denominação pouca importância tem. Afinal, esta não é a apenas a realidade de Maria, mas de tantas outras mulheres que se libertaram dos seus agressores. E ainda de outras: as que sofrem em silêncio.
«Vivi com ele sete anos. Os primeiros tempos foram razoáveis. Depois, quando me apercebi que a situação não era muito boa, tentei ajudá-lo. Foi então que ele ficou pior do que eu imaginava. No momento em que perdeu o emprego, começou a culpar toda a gente e começou a bater-me. Para ele, ficar sem emprego e não poder mandar revoltava-o», relata resignada. «Eu achava que aquilo não estava bem. Ajudava-o tanto, monetariamente… dava-lhe tudo e ele, para mim, não tinha um carinho, não tinha nada», lamenta.
Maria viveu em silêncio, procurou esconder as dores. Nem aos familiares contou que era vítima de violência doméstica. «Por cinco anos, escondi a situação da minha família. Sabia que não gostariam de ouvir o que se passava. As minhas amigas notavam que eu me tinha afastado delas. Ele nem sequer gostava que eu me encontrasse com as minhas amigas. Para não o incomodar, deixei de as ver. Dizia-lhes que gostava de ficar em casa», confessa.
Durante o seu casamento, Maria sofreu humilhações de forma constante. Fingiu não se deixar afectar pelas ofensas verbais, nem pela violência física do marido. Nesse momento, entrou num perigoso processo de negação da realidade, exteriorizando uma falsa impressão de felicidade e interiorizando o sofrimento e a indignação. «Um dia, perguntei-lhe o porquê de me bater, o porquê de tão pouco carinho. Ele respondeu-me: ‘É a sobrevivência’», recorda Maria.
Começar uma nova vida é um verdadeiro desafio para Maria. «Tenho uma amiga que sai muito à noite e que diz que eu tenho de a acompanhar, para aliviar a cabeça. Eu digo-lhe que estou um bocado velha para novas experiências!", conta, rindo das suas palavras. Apesar da solidão que afirma sentir, a perspectiva de um novo relacionamento ainda está distante. «Eu acho que sinto falta de companhia e um certo vazio. Mas, por outro lado, penso: eu também estava sozinha. Afinal, antes só do que mal acompanhada, não é?».
A história de Odete
Com um ar mais inquieto do que o de Maria, e de forma um pouco receosa, Odete conta a sua história. Odete, outro nome fictício, mostra-se bastante nervosa enquanto relata a sua experiência. Afinal, foi há muito pouco tempo que decidiu libertar-se das amarras do marido violento.
Odete conta o que sofreu nos anos em que esteve casada com o agressor. «Acusava-me de ter vários amantes, quando isso era mentira. Se eu saía para visitar um familiar ou uma pessoa qualquer, acusava-me de ir ter com o amante. Se eu comprasse uma roupa nova, era para andar bonita para os outros homens. Eu nem sequer cortava o cabelo...», lembra Odete.O esforço para esquecer os anos de sofrimento só a fazem avivar ainda mais o pesadelo. Para Odete, é impossível esquecer cada episódio de violência, como o que ocorreu, por exemplo, no dia do seu casamento, assim que ficou sozinha com o marido. Sente raiva e mágoa não só do companheiro, mas de si mesma. «Foram 12 longos anos sem dizer nada a ninguém» afirma, em dor.
Odete não acredita na justiça. Esse é o motivo que aponta para não ter denunciado o marido: «Se eu tivesse a certeza que ele ia preso, denunciava-o. Mas como não tenho, não quero que ele fique com mais raiva de mim. Ele já me ameaçou de morte algumas vezes, depois de eu o ter deixado», diz Odete. «Eu só chorava, não discutia. Não falava nada, porque não queria que ninguém ouvisse. Hoje, não tenho nenhuma testemunha para provar a violência. E ele diz que nunca me bateu, que é tudo mentira», lamenta.
A dura realidade
De acordo com Clara Vieira, membro da Associação Mulheres em Acção, é preciso «realçar os valores femininos e a contribuição específica e insubstituível da mulher na família e na sociedade, em casa ou na profissão, no mundo dos negócios e na participação cívica ou política». Clara salienta, ainda, que um dos objectivos do projecto Mulheres em Acção é, precisamente, «contribuir para a consciencialização das situações de desigualdade existentes e, particularmente, para a resolução dos problemas reais das mulheres».
Segundo a socióloga Cláudia Oliveira, «a violência contra a mulher é reconhecida como uma manifestação da desigualdade histórica da relação de poder entre sexos, da tradicional concepção de subordinação e de inferioridade da mulher face ao homem, em suma, como uma forma de discriminação».
Cátia Rodrigues, psicóloga de formação e técnica da Associação de Apoio à Vítima (APAV), referencia que, de todas as vítimas que recorrem à organização, cerca de 90% são mulheres. Para a psicóloga, as vítimas de violência doméstica têm uma grande relutância em terminar a relação conjugal por variados motivos. «Cada caso é um caso», explica.
Cátia Rodrigues afirma que o medo é uma das principais causas apontadas. «Mas o medo está muitas vezes relacionado com os filhos. As mulheres pensam que, apesar de tudo, é preferível continuarem naquele sufoco para poderem ter uma família, ainda que disfuncional. Contando com isso, alguns maridos têm uma estratégia perversa de fazer com que as mulheres tenham cada vez mais filhos ficando, assim, cada vez mais presas à casa», constata a psicóloga.
Cátia Rodrigues alerta ainda para outro comportamento do agressor: a tentativa de isolamento das mulheres de amigos e familiares. «Elas, muitas vezes, deixam os trabalhos e perdem o contacto com os amigos e a família por um ciúme exagerado do marido e, a partir daí, torna-se muito mais fácil controlar a situação», diz Cátia Rodrigues. A dependência económica é outra das causas apontadas, uma vez que permite uma estratégia de controlo sobre as vítimas.
Segundo a psicóloga, a violência psicológica também é muito grave, apesar de não se falar muito dela: «É muito complicado falarmos das agressões psicológicas. No caso de uma agressão física, há provas, como nos casos de violação. Contudo, as agressões psicológicas, que marcam sempre muito mais do que as físicas, são de difícil comprovação e são perpetradas de forma muitas vezes impune pelos seus agentes», conclui. Juridicamente, as mulheres têm, hoje, os mesmos direitos que os homens. Todavia, e infelizmente, a realidade dos diplomas legais não se transfere automaticamente para o social.
Num lugar do passado...
Há muito tempo atrás, no século XV antes de Cristo, uma mulher egípcia tornava-se a primeira faraó da história do seu país. Seu nome era Hatshepsut e, com determinação, estratégias políticas brilhantes e inerente carisma, conseguiu reinar o Egipto por quase 20 anos. segundo as leis egípcias, uma mulher já tinha o direito de administrar propriedade. No caso de ser casada, o marido tinha direito ao pleno uso do que lhe pertencia mas, em caso de divórcio – a mulher tinha essa possibilidade – a sua propriedade tinha que lhe ser devolvida.
Na verdade, segundo as leis egípcias, uma mulher já tinha o direito de administrar propriedade. No caso de ser casada, o marido tinha direito ao pleno uso do que lhe pertencia mas, em caso de divórcio – a mulher tinha essa possibilidade – a sua propriedade tinha que lhe ser devolvida.
Cabe dizer que o casamento se fazia por amor e que o divórcio se situava no âmbito privado. A justiça não intervinha na maioria dos casos e uma união poderia ser terminada pela simples vontade de uma das partes. Não era considerado tabu que a mulher voltasse a casar. Era, aliás, um procedimento bastante normal, uma vez que era considerado pouco comum que uma pessoa adulta fosse solteira. É também notável que, no Antigo Egipto, a mulher tenha possuído não só o direito de iniciar um processo legal sem representação masculina, assim como tenha sido considerada uma testemunha válida em tribunal.
Quanto à profissão, as mulheres tinham o mesmo estatuto que os homens. Todas as actividades profissionais eram de livre acesso a homens e mulheres. Nos túmulos do Egipto Antigo são representadas mulheres como cantoras, padeiras, médicas, líderes religiosas, parteiras e... esposas.
No entanto, a mulher não era apenas uma figura detentora de direitos legais, mas era também respeitada no âmbito social e na relação matrimonial. Os casais são representados muitas vezes de mãos dadas ou até abraçados, numa clara expressão de igualdade e respeito entre marido e mulher.
É curioso mencionar que a sociedade do Egipto Antigo condenava categoricamente a traição conjugal, incluindo a masculina. Há documentos que tratam de uma pequena revolta popular em Tebas motivada pelo facto de um homem manter uma relação amorosa sem se divorciar. Representações mostram a vizinhança com os braços levantados e com ar de desaprovação, o que indica que a pressão social mantinha os homens fiéis sem a necessidade de legislação.
Novas razões para a mais velha profissão do mundo
Por: Amanda Alves
Luciana (nome fictício), de 20 anos, veio há cerca de dois anos do Brasil. Vivia no interior do estado de Goiás, onde tinha uma vida bastante humilde. Resolveu vir para Portugal através de um convite de uma amiga que dizia ganhar muito dinheiro. Com a esperança de qualquer emigrante, partiu, rumo ao mais comum dos sonhos. «Nunca me explicaram o que vinha realmente fazer aqui em Portugal. Quando cheguei, a minha amiga disse-me que iria trabalhar num bar de alterne como dançarina. Inocentemente acreditei que fosse só isso», confessa.
Com o passar do tempo, Luciana descobriu que não seria só esse o seu trabalho, mas acabou por aceitar. O dinheiro era muito, o a motivou. «No início foi muito difícil, mas fiquei encantada com o dinheiro e com tudo o que isso poderia vir a trazer-me. Era tudo o que nunca tive. Pensei também na ajuda que poderia dar à minha família», diz Luciana. Mas também com o tempo percebeu que tudo isso era uma ilusão: «O dinheiro que se ganha fácil, vai fácil e acabo por gastá-lo nas maiores futilidades, embora viva muito bem», revela.
Luciana manda dinheiro para o Brasil mas não pensa voltar tão cedo para lá. Anseia por uma legalização prometida pelo local onde trabalha. Mas esta nunca mais chega. «Ficamos sempre à espera do dia ideal para voltarmos para o Brasil, mas esse dia dificilmente chega. Na realidade estamos acomodadas com a situação confortável em que nos encontramos».
Já Déborah, também nome fictício, que se encontra em Portugal há cerca de seis meses, diz já saber para o que vinha: «No Brasil já fazia alguns ‘programas’, para ajudar no orçamento e aceitei logo quando surgiu a oportunidade de vir para Portugal, pois iria ganhar muito mais». No entanto, diz que o tipo de prostituição que se pratica aqui é diferente. Mas vale a pena? «Vale. Os portugueses têm um fetiche pelas brasileiras o que, para nós significa trabalho», conta Déborah.
Deboráh não tem pudores quanto à profissão que exerce e mostra até uma certa satisfação pelo que faz. Considera até a prostituição como algo necessário na sociedade actual. «Nós não fazemos só sexo, mas também o papel de amigas, de conselheiras ou mesmo de simples ouvintes a homens com carências afectivas».
Giovanna, chamemos-lhe assim, tem uma opinião diferente de Déborah. Considera um sacrifício enorme a profissão que tem que exercer. Passou por várias situações traumáticas até chegar a Portugal. Como é habitual, veio também de um Estado muito pobre no interior do Brasil (Mato Grosso), onde vivia da agricultura de subsistência, juntamente com a família. Como vivia relativamente próximo da fronteira do Brasil com a Bolívia, onde o tráfico de mulheres e drogas circula em abundância e quase livremente, ela não conseguiu escapar a essa «máfia».
«Disseram à minha família que eu iria trabalhar de empregada em um bar na Bolívia e que iria ganhar dinheiro suficiente para melhorar a vida de toda a minha família. Por isso todos aceitamos», relata Giovanna. Esta jovem, que tem agora 21 anos, foi então até à Bolívia nas piores condições possíveis. Acabada de chegar ao local onde iria trabalhar (um bordel de beira de estrada), logo lhe explicaram o que tinha que fazer. Quando se apercebeu da situação, viu também que não podia fugir: não conhecia a região, não conhecia ninguém e o dono do bordel tinha os seus documentos.
Seis meses depois, disseram-lhe que ela iria para a Europa trabalhar. «Não sabia se isso seria bom ou mau, mas pior de certeza que não era. Já estava tão sofrida que aceitei. De resto, não tinha outra opção».
Assim, Giovanna chegou a Espanha. «O local de trabalho era bem melhor e as pessoas acabaram me ajudando um pouco. Conheci outras brasileiras e acabei fazendo algumas amizades. Só nesta altura é que consegui falar com minha família que nunca mais tinha ouvido falar de mim», refere. Mais tarde, juntamente com uma amiga, resolveram vir para Portugal.
Há um ano que Giovanna trabalha num bar de alterne em Portugal. «Hoje já me acostumei à situação e nem sequer reclamo mais dela. Ganho bem e o resto, a parte desagradável, tento não pensar nela, para não ir abaixo. Ajudo sempre a minha família, embora eles não saibam o que faço de verdade. Num futuro próximo, pretendo voltar para a minha terra e ter uma vida simples mas pura», espera.
Cada qual com a sua história, cada qual com a sua razão, continuam a existir justificativas para a mais velha profissão do mundo. Mudam-se apenas os conceitos, mas a ideia original permanece. E é difícil mudar.
Um pouco de história...
Desde a antiguidade que se ouve falar em prostituição. Em muitas civilizações, a prostituição era praticada por meninas como uma espécie de ritual de iniciação quando atingiam a puberdade. No Egipto Antigo, na região da Mesopotâmia e na Grécia, as prostitutas, consideradas grandes sacerdotisas, portanto sagradas, recebiam honras de verdadeiras divindades e presentes em troca de favores sexuais.Mais adiante, na época em que a Grécia e Roma polarizaram o domínio cultural, as prostitutas eram admiradas. Tinham, porém, que pagar pesados impostos ao Estado para a prática da sua profissão. Deveriam também utilizar vestimentas que as identificassem. Caso contrário, eram severamente punidas. Na Grécia, existia um grupo de cortesãs - chamadas de hetairas, ou heteras - que frequentavam as reuniões dos grandes intelectuais da época. Eram muito ricas, belas, cultas e de extremamente refinadas, exerciam grande poder político e eram muito respeitadas.
Com o advento do cristianismo, na Idade Média, houve a tentativa da eliminação da prostituição. Porém, existia o culto do casamento cortês, onde a política e a economia se sobrepunham aos sentimentos e as uniões eram arranjadas somente por interesse, reforçando a prostituição. Em muitas Cortes, o poder das prostitutas era muito grande: muitas tinham conhecimento de questões do Estado, tanto que a prostituição passou a ser regulamentada.
Assim foi evoluindo a prostituição até chegar aos dias de hoje. Actualmente, é uma profissão muito mal aceite para a maioria das pessoas e, na maior parte dos países, é uma prática proibida. Isso não faz com que o número de prostitutas diminua. Antes pelo contrário, pois tem aumentado cada vez mais.
No caso de Portugal, este número tem vindo a crescer cada vez mais com a chegada de prostitutas brasileiras que têm inundado os bordéis e as chamadas "casas de alterne".
26 janeiro, 2005
Tribos Musicais e Cultura Social
O que os une é a música. Ela é o elemento fundamental da sua existência. Alguns jovens de hoje agrupam-se em tribos modernas que são baseadas num género de música. Esse tipo musical dá-lhes uma identidade e comanda o seu modo de ser e de agir.
Por: Tiago Alves
Noutros tempos, a criação do grupo costumava ser fácil: efectuava-se apenas por critérios geográficos ou de parentesco – os que estavam próximos e eram da mesma ascendência constituíam, naturalmente, um grupo - a que podemos chamar clã ou tribo e que era o único grupo a que o indivíduo pertencia durante toda a sua vida. Hoje, a moderna família ainda se constitui como um grupo de grande importância para os indivíduos, mas tornou-se insuficiente só por si. Existe a necessidade de algo mais, de outro grupo que partilhe os mesmos interesses e personalidades, mas que se destaque da família. Um dos factores comum e diferenciador de todos os grupos é a música.
Jorge Matos estuda design industrial, tem 21 anos e longas ‘rastas’ (tranças) que quase cobrem o verde, amarelo e preto da bandeira da Jamaica, a pátria de Bob Marley e do Reggae, estampada nas costas do seu casaco.
O Reggae entrou na sua vida, a sério, há dois anos: «Jorge sempre foi fascinado pela cultura rasta. Esta cultura traduz-se, muito resumidamente, na luta contra a opressão, a pobreza e a desigualdade social, utilizando métodos pacifistas e tendo a música como a sua principal arma. «Quando era pequeno, aqueles vídeos do Bob Marley tocavam-me qualquer coisa cá dentro. Comecei a comprar uns discos e a mostrar aos meus amigos. Depois, fui descobrindo outras pessoas que já percebiam mais do assunto. Acabámos por nos fazer todos amigos e posso dizer que, hoje, somos um grupo. E um grupo muito unido», assume Jorge Matos.
«Ajuda-me a combater o stress». E Jorge explica: «O Reggae dá-me uma paz de alma que no mundo em que vivemos é cada vez mais necessária. Sempre que o ouço fico alegre e sem tensão. Tem muito a ver comigo já que sou contra todo o tipo de violência. O Reggae tem uma mensagem de paz e de amor».
Este Reggear destaca as noites na praia, onde o grupo canta e convive à volta de uma fogueira, como os momentos que mais aprecia. Os charros de erva são igualmente uma presença assídua nestes encontros, mas o essencial é uma viola, alguns ‘djambe’ (tambor africano), boa disposição e a companhia dos amigos para se sentir feliz.
Mas para outros, a praia é apenas para frequentar de dia. As noites são para ser passadas em bares e discotecas onde a fogueira é substituída pelos focos de luz; a viola e o ‘djambe’ são trocados pelas batidas e sons electrónicos.
Ricardo Peres, um estudante de 19 anos, é um dos que elegem a música electrónica e as pistas de dança como elementos indispensáveis para passar um bom momento com o seu grupo. «Adoro dançar e, por isso, desde que haja dinheiro, vou a todas as festas e ‘raves’ que posso. São locais onde a música electrónica tem a sua expressão máxima, adoro. Lá, anda tudo com um sorriso, as pessoas divertem-se e convivem». Apesar de a maior parte destas músicas não ter letras, Ricardo considera que elas estão carregadas de sentimento e as batidas e melodias que ecoam pelas colunas transmitem mais emoções do que as letras das músicas que ouve na rádio.
Ricardo lembra-se de, com 14 anos, sair esporadicamente à noite com os amigos para ouvir quais eram as músicas do momento e depois as pôr a tocar em pequenas festas de garagem à tarde.
«Eram tempos óptimos, mas hoje, ainda nos divertimos bastante. Vamos a discotecas ver os melhores dj’s a tocar. Destaco o Jesus del Campo e o Jiggy: os melhores e os que mais prazer me dão». Para Ricardo, «a música electrónica é a música do momento e do futuro. Nascemos na era da tecnologia, por isso, faz todo o sentido evoluir para um novo género de música e de sons. Não quero ficar preso na música da geração passada. Guitarras e baterias são muito bonitas, mas pertencem a museus», afirma.
Esta última ideia deixaria, com certeza, Eduardo Teixeira à beira de um ataque de nervos. A sua roupa negra e o cabelo liso bem comprido não deixam muitas dúvidas quanto ao seu gosto musical. Mas se, porventura, elas ainda restassem, o nome da banda, ‘Pantera’, escrito na sua camisola, imediatamente as afastaria. Estamos perante um verdadeiro metálico. O Heavy Metal tem a sua origem no início dos anos 70, com bandas como Black Sabath, Deep Purple e Led Zeppelin. As suas principais características são as guitarras carregadas de distorção e uma bateria potente, rápida e agressiva. Desde então, o Heavy Metal evoluiu bastante. Bandas como Metallica e Korn ultrapassaram a marginalidade e a tornaram-se nomes conhecidos por todos.
Eduardo, engenheiro mecânico de 25 anos, acompanha este movimento há mais de 10 anos: «É uma religião, um modo de vida. Uma vez que começas a ouvir este género de música, não o abandonas. Não me consigo imaginar a ouvir outro género de música. Todos os outros tipos de melodia me soam falsos e comerciais, virados para o lucro». A música metálica é violenta, Eduardo não o nega, mas é assim porque o mundo também o é. «Aqui, não há hipocrisia, não se fala do mundo bonito e das flores. Fala-se das coisas que vemos todos os dias nas notícias e que, se calhar, a maioria das pessoas prefere ignorar».
Os concertos são a finalidade última deste género de música. As músicas metálicas são claramente feitas para serem tocadas ao vivo. Nestes espectáculos, há uma enorme descarga de som, energia e emoções, tanto da parte dos músicos como do público.
Os concertos até podem parecer violentos, mas apenas para quem não sabe o que está a ver. «Há encontrões e contacto físico, mas ninguém está ali para andar à pancada. Raramente alguém se magoa a sério», diz Eduardo, que acrescenta: «Já fui a muitos concertos e a única vez que me senti mesmo aflito e pensei que ia ‘marar’ foi num concerto de Prince, no estádio de Alvalade. Ali as pessoas eram selvagens e brutas. Nos concertos de metal há civismo: se cais, ajudam-te a levantar, não passam por ti como se nada fosse», explica.
Para ele, é isto que torna a comunidade metálica especial: «Mesmo não nos conhecendo, somos todos parte do mesmo grupo e todos nos ajudamos. Quer seja a levantarmo-nos uns aos outros ou a pagar uma cerveja a quem não tem dinheiro. Somos um todo, uma comunidade que procura o mesmo: curtir».
No fundo, todos os grupos procuram o mesmo: a diversão, o convívio e a companhia. A música facilita a escolha do grupo a que se quer pertencer. Não há necessidade de perder tempo a "experimentar" vários grupos para descobrir quais os que partilham os seus interesses e convicções.
Com a música, os jovens já sabem à partida o que esperar de um ou de outro determinado grupo. Seja isso a paz interior, as festas ou o descarregar das tensões.