01 junho, 2006

Voluntariado: altruísmo em tempo livre

São jovens, estudam, trabalham, têm inúmeros projectos por realizar, mas o voluntariado tem sempre lugar nas suas vidas.

Por: Fátima Pereira

Todos os anos, em Janeiro, as portas do Instituto Português de Oncologia (IPO), do Porto abrem-se para novos voluntários. Maria Helena Quinta, directora deste serviço, acolhe estes jovens e ajuda-os a integrarem-se num dos dezasseis serviços que a Liga Portuguesa Contra o Cancro tem. «Fazemos uma formação geral por ano. Depois, os responsáveis de cada serviço levam os voluntários e ensinam-lhes o modo como se fala com um doente», explica Maria Helena.

O serviço preferido é o de Pediatria. «No último curso, vinte dos cinquenta voluntários foram para Pediatria e os outros departamentos ficaram com pouca gente», desabafa a directora do voluntariado.

Voluntariado forçado

A palavra ‘voluntariado’ torna-se cada vez mais comum graças à Internet ou, mesmo, pela indicação de um amigo, mas existem outros motivos.

«Há muitos universitários interessados e, até, jovens recém-formados. Aqui, aparece gente de todas as áreas...», refere Maria Quinta mas, tal como refere a enfermeira Sónia Castro: «há cada vez mais a ideia de que fazer voluntariado é enriquecedor, em termos de curriculum. Existem empresas que valorizam este aspecto, ao contratarem alguém. Só que corremos o risco das pessoas só o colocarem no curriculum e, depois, não exercerem».

O voluntariado nem sempre é feito por iniciativa própria, mas o caso agrava-se quando o voluntário passa a ser o próprio paciente. «Infelizmente, há algumas pessoas que vêm para aqui porque os psiquiatras o sugerem! ...Eles acham que os pacientes estão cá para ocupar o tempo dos voluntários, mas as pessoas que tem depressão não devem ser voluntárias, enquanto não estiverem curadas», explica Sónia.

Momentos bons e momentos maus

O dia-a-dia de um voluntário nem sempre é fácil, mas a convicção geral é de que os momentos difíceis nunca são motivo para desistir. Sónia Castro explica que «por exemplo, quando se perde um paciente implica, por vezes, mudar de serviço ou mesmo afastar-se, mas nada mais...»
Joana Fernandes, uma das voluntárias, corrobora: «todos tendem a pensar que, perante certos casos, o mais natural seria desanimar, mas pelo contrário: toda esta experiência ajuda a relativizar aquilo que a vida tem de menos bom».

Mariana Dias, de 24 anos, faz parte do grupo dos que sempre fizeram um esforço para conciliar a sua vida pessoal com o voluntariado: «quando estamos mais absorvidos pelos nossos assuntos pessoais, mais sentimos que aquelas horas de voluntariado são um desperdício, mas não há nada melhor do que dedicar um pouco dos nosso tempo aos outros. A ideia de desistir não dura mais de alguns segundos...!»

Voluntariado como vocação

O voluntariado, para alguns jovens, chega a ser algo que ultrapassa a boa-vontade e ruma para outro plano superior, o da vocação.

Um jovem voluntário explica-nos que ser voluntário não se limita a actuar dentro de quatro paredes: «é imensurável a quantidade de coisas que podemos fazer pelos outros, e o significado que podem ter na vida das pessoas que ajudamos. Não é necessário ser voluntário numa instituição, basta no nosso dia-a-dia estarmos disponíveis para os outros e não entrarmos na rotina egoísta de pensarmos só no que nos convém».

Aprender português

Portugal foi, durante séculos, um país de emigrantes que se espalharam um pouco por todo o mundo. Contudo, no início deste novo milénio, verificamos que somos também um país de imigrantes que representam, actualmente, cerca de 5% da população portuguesa. Razões de natureza económica estão na base deste fenómeno.

Por: Maria de Fátima Assunção

A AMI é organização não governamental, sem fins lucrativos, desenvolve um trabalho humanitário que tem como principal objectivo lutar contra a pobreza e a exclusão social, intervindo em situações de crise e emergência. O ensino do português integra-se nesta preocupação.

Cristina Andrade (coordenadora do projecto ‘Porta Amiga’), tem dedicado os últimos anos da sua vida ao que, inicialmente, visava ajudar os sem abrigo. Porém, no dias de hoje, tem um papel mais abrangente: «neste momento, a população alvo é os "sem": sem documentação, sem amigos, sem saúde» diz-nos, com naturalidade.

As dificuldades

A frágil situação económica vivida nos países de origem da maior parte dos que emigram, leva-os a procurar melhores condições de vida noutras paragens. A barreira da língua, o desconhecimento da cultura e dos hábitos, dificulta a integração. A maior parte não encontra trabalho na sua área de formação. Mão-de-obra não qualificada e trabalhos de limpeza, são, na melhor das hipóteses, as actividades que lhes permitem sobreviver.

Jurista na sua terra natal, Vitória, 23 anos, russa, há dois anos no nosso país, veio até Portugal para se encontrar com a mãe que já cá vivia. Tem olhos azuis, transparentes, que nos olham de frente, sem medo.

A televisão, como complemento das aulas, tem ajudado na aprendizagem da nossa língua. Encontrou trabalhos esporádicos em fábricas, mas deseja regressar à Rússia no próximo Verão: «Tenho saudades do resto da família e quero continuar a estudar. Portugal é um país muito bonito mas quero ir embora» afirma sorridente.

Há experiências de vida nestes percursos migratórios bem sucedidas, outras nem tanto, como é o caso de Igor, ucraniano, 34 anos, motorista de pesados, há cinco anos a viver em Portugal. Trabalhou na construção civil, mas está desempregado. Vive do que recebe do Fundo de Desemprego. «Neste momento, não consigo trabalho. Gostava de voltar a ser motorista… mas é difícil» No entanto, em Igor nota-se a tristeza de quem saiu do seu país «para tentar uma vida melhor», desabafa num fôlego.

Chegou há três anos a Portugal através do Circo Cardinalli. Originário da Mongólia, Buren, 31 anos, decidiu deixar o seu pequeno comércio para emigrar. Contudo, o destino pregou-lhe uma dolorosa partida: enquanto trabalhava, adoeceu repentinamente e o diagnóstico foi ‘Insuficiência Renal’. Esta doença leva-o a fazer hemodiálise três vezes por semana, o que o impossibilita de executar trabalhos pesados. «Tenho que fazer trabalhos levezinhos» diz. Gosta do nosso país, onde sempre se sentiu aceite, dando preferência aos nortenhos: «são mais simpáticos do que os do Sul».

A Língua Portuguesa

Os poucos exemplos acima descritos acabam por representar muitas vozes que, em comum, têm a vontade de aprender a nossa língua. Fazem-no com mais ou menos dificuldade, mas com muito empenho. A socialização também se faz através da Escola, que desempenha um papel insubstituível na integração destas pessoas.

Foi com o fado de Amália, "Povo que lavas no rio" que Ana Luísa Cardoso, docente de Português em regime de voluntariado, iniciou a sua aula: «Considero-nos mais como um grupo de amigos. Os temas que escolho não são só a língua, mas, principalmente, a cultura portuguesa» adiantou-nos. Sente-se entre alunos e docente laços de amizade e solidariedade: «Aprendo mais com eles do que eles comigo», acrescentou.

Razões do coração

A Escola Secundária Garcia da Orta também tem um papel relevante no ensino do português para imigrantes. A coordenadora deste projecto é Joana Vasconcellos, que, entre as múltiplas actividades desempenhadas ao longo da vida, destaca as funções que exerceu como Leitora de Português do Instituto Camões durante quinze anos, um pouco por todo o mundo. Tailândia, Irlanda, Bélgica, foram países que lhe deixaram gratas recordações e lhe proporcionaram uma experiência de vida, enriquecendo-a humana e intelectualmente.

Daí a vontade de proporcionar aos imigrantes a possibilidade de aprenderem português: «Um dos grandes problemas que eles têm é o desconhecimento da nossa língua e o processo burocrático que têm de seguir até à legalização».

Mas, se uma grande parte dos imigrantes chega ao nosso país por motivos económicos – basta lembrarmo-nos que a Europa tem dezoito milhões de desempregados – outros há que, nos sentimentos, encontraram motivos para deixar tudo e encetarem a grande viagem.

É o caso de Patrícia, 32 anos, dois filhos, contabilista, originária de Guadalupe, ilha de águas quentes do Mar das Caraíbas. Conheceu o namorado em Guadalupe e, quando ele decidiu voltar para casa, decidiu seguir o coração. Porém, o frio, a língua e os costumes aos quais não se habituou, fazem-na querer regressar: «Não quero ficar, quero voltar. A família está longe. Se ganhar a lotaria, vou-me embora…» diz, com uma sonora gargalhada.

Também Imelda, espanhola da Andaluzia, Gestora de Conta, 35 anos e casada com um portuense há seis meses, veio para o nosso país para seguir o seu marido. Sente-se bem e integrada, embora note diferenças nestes dois povos vizinhos: «Sinto-me bem cá. Acho os portugueses muito agradáveis mas muito fechados. Parecem-se com os catalães», referiu-nos.

Geocaching

Nas serras do Alvão e do Marão escondem-se, em buracos cobertos por pedras e giestas, pequenos tesouros cobiçados mundialmente. Como qualquer tesouro que se preze, estes são alvo de lendas e histórias fantásticas daqueles que, munidos da mais alta tecnologia, se aventuraram por caminhos pouco frequentados para adicionar o seu nome à lista dos mais corajosos. Aliás, para os mais curiosos e potenciais caçadores de tesouros, a informação acerca da sua exacta localização e as histórias dos que os procuram estão disponíveis na Internet.

Por: Paulo Teixeira

Uma actividade relativamente moderna que desafia uma classificação tipológica - o Geocaching - está a espalhar-se rapidamente pelo mundo e é possível graças às capacidades do Global Positioning System (GPS).

O seu objectivo geral é o de localizar o que se denomina uma cache, escondida das mais diversas maneiras, no mais diferentes lugares e praticamente por todo o mundo.

A actividade gira em torno de um website central, aonde se disponibiliza toda a informação necessária para poder participar. Embora existam vários sitios na Internet que oferecem esta funcionalidade, é em www.geocaching.com que se encontra a mais vasta cobertura de todos os aspectos da modalidade.

Através de um registo grátis, o novo membro tem acesso à informação pertinente e pode começar, imediatamente, a pesquisar e a planear a sua visita aos vários locais.

Como funciona então o Geocaching?

As caches não são mais do que pequenos contentores herméticos de plástico, do estilo tupperware, muito comum nas cozinhas. No seu interior encontram-se, em regra, uma caneta ou lápis, acompanhados de um pequeno livro de visitas e de um "tesouro" constituido desde pequenos brinquedos, caixas de fósforos, moedas estrangeiras, selos, entre tantas outras coisas.

A sua localização não segue regras específicas, mas todas se baseiam no princípio geral de não serem facilmente encontradas pelo público em geral. Cabe à imaginação de quem as coloca determinar o grau de dificuldade de localização, tanto em termos de trabalho intelectual como físico, sendo para isso muito importante a selecção dos locais.

Cuidadosamente escolhidos de duma vasta gama de ambientes, podem variar desde meio de grandes cidades até aos locais mais remotos do planeta. Em Portugal, os exemplos vão desde o topo de serras, como a do Marão, até ao recinto duma bem conhecida maternidade em Lisboa.

Depois de instalada, a cache é anunciada no site. A informação sobre a sua localização é disponibilizada sob a forma de coordenadas geográficas e de informação adicional, se necessário. É aqui que entra o elemento essencial à actividade: o terminal de GPS. Uma função comum a praticamente todos os terminais de GPS é o de aceitar coordenadas inseridas pela utilizador, denominada waypoints.

A partir destes, o GPS determina a distancia até ao local e a orientação que o utilizador deve seguir. O mostrador pode, inclusivamente e nos modelos mais avançados, mostrar a localização da cache num mapa, completo com informações adicionais, tais como acidentes geográficos.

Contudo, basta uma unidade simples que indique a direcção a tomar, pois uma vez no local, o geocacher terá que usar uma mistura de esforço intelectual e um pouco de sorte para encontrar a cache, algo que nenhum mapa, por mais avançado que seja, pode fazer.Uma vez encontrada a cache, o geocacher anota no livro de registos a data da sua visita e redige uma pequena mensagem.

A prática mais comum em relação ao "tesouro" é a de retirar algo e adicionar outro objecto, contudo não há regras específicas a seguir, para além da prática das da cortesia comum. O mesmo se pode dizer em termos do tipo de objecto, embora seja necessário considerar que a grande maioria das caches são relativamente pequenas. O livro de visitas pode conter informação adicional, muitas vezes sobre particularidades do local onde se encontra.

Porque praticar geocaching?

Ricardo Ribeiro, um webdesigner residente no Algarve, é um do geocachers mais activos em Portugal. Para além de estar em busca quase permanente das cerca de 590 caches estimadas em território nacional, é também o dono de cinco delas.

Para ele «o sucesso do geocaching está na diversidade, pois pode ser praticado tanto pela família como pelo lobo solitário; pode envolver grandes caminhadas e esforço físico... ou praticamente nenhum destes».

O Geocaching é uma actividade que, como dito, desafia a sua classificação, particularmente se é um desporto ou não. Nelson Cortes, geocacher e professor do ensino secundário de Educação Física, em Almada, sublinha que «um desporto envolve actividade regulamentada e competição» enquanto que Ricardo Ribeiro nota que «o xadrez é desporto, mas não é actividade física desportiva», o que demonstra o quanto fugaz é o Geocaching em caber em moldes de classificação tradicionais.

A diversidade que o Geocachig oferece reflecte-se bastante na motivação dos participantes que podem escolher uma razão ou várias para praticar esta actividade. Entre estas contam-se o exercício físico, o desafio da caça e da perseguição e «o roteiro turístico, através do qual se conhecem novos pontos de interesse», este ultimo o motivo de força para Ricardo Ribeiro. «E depois há os que curtem imenso criar caches... é quase o seu principal objectivo», afirma o webdesigner.

Muitas caches instaladas mundialmente estão localizadas em montanhas, florestas e zonas rurais, o que acaba por atrair praticantes com uma veia ambientalista. Algumas das caches instaladas em parques nacionais dos Estados Unidos são disponibilizadas pelas próprias agências federais, que reconhecem na cache um enorme potencial: o de sensibilizar os visitantes pelo respeito à natureza. Por seu lado, o sitio geocaching.com promove, em parceria com vários patrocinadores, o que chama de "Cache In – Trash Out (CITO) days", em que se pede aos geocachers que recolham, em sacos de plástico, o lixo encontrado à volta das caches e que o removam do local.

Assim, e embora seja intricado categorizar como actividade o Geocaching, «é possível reconhecer que se reflecte nela um modo tecno-optimista de estar no mundo» refere Ricardo Ribeiro, que continua: «o cidadão digital põe o computador e o GPS ao serviço não só da busca de prazer, mas ao ponto de reformular conceitos, como o de ‘Turismo’, ‘Ambientalismo’ e de ‘Desporto’».

O táxi digital


Por: José Serra

O sector dos táxis está a evoluir. É José Monteiro, vice-presidente da Associação Nacional dos Transportes Rodoviários em Automóveis Ligeiros (ANTRAL). «A electrónica e as comunicações evoluíram bastante e o sector está a adaptar-se» – descreve José Monteiro – «neste momento nos táxis e dos táxis é possível fazer e saber tudo!»

No entanto, esta afirmação não se adapta a todo o país. Enquanto que, em Lisboa, a Câmara disponibilizou à ANTRAL apoio financeiro que permitiu às viaturas estarem equipadas com o Geographical Positioning System (GPS), no Porto isso já não acontece. «Estamos a falar de um presidente economista e os economistas o que mais sabem é guardar dinheiro», ironiza o vice-presidente.

A ANTRAL desenvolveu tecnologicamente uma central de segurança de âmbito nacional, que liga as comunicações dos táxis, revela José Monteiro. A sua perspectiva aponta para que se deva «aproveitar os meios que são postos ao dispor da segurança, potenciá-los, nomeadamente no intuito da distribuição de serviços e do pagamento por cartão electrónico».

No banco de passageiros do táxi de Jorge Oliveira, ouvimos este motorista de profissão vaticinar que o multibanco vem de encontro ao modo de vida actual. E acrescenta ainda outra razão para este sistema de pagamento: «assim, andamos com menos dinheiro no carro e já não há um chamariz para o ladrão. Normalmente quem nos assalta são pessoas que precisam de dinheiro rápido», diz.

José Monteiro, ele próprio um antigo motorista de táxi, afirma que o GPS tem de ser complementado com uma outra medida de segurança. «É necessária a vídeo vigilância dentro dos táxis. Todos os clientes têm de ser fotografados». Diz que, desta forma, se previne a impunidade de casos como o dos «taxistas assassinados há uns anos, que foram o motivo por que Santana Lopes, enquanto presidente da Câmara de Lisboa, prometeu dar GPS a todos os táxis», lembra Monteiro.

«Hoje, em Espanha, o sistema digital é banal» desabafa José Monteiro. O vice-presidente da ANTRAL descreve, na primeira pessoa, o que é uma viagem num táxi digital espanhol: «viajei com um táxi em Barcelona, que tinha o Sistema de Navegação por Satélite (SNS). Esse sistema - explica Monteiro – regista informação das entradas e saídas dos táxis, bem como os locais onde aconteceram».

E continua, com um indisfarçável ciúme: «o cliente entra, o taxímetro é accionado, o SNS detecta quando o táxi começa a andar e, quando passa a situação de pagamento, emite automaticamente o valor da viagem. Por isso não é preciso recibo, ao contrário de cá». O membro da ANTRAL revela também que «quando o táxi chega à porta do cliente, existe um telefonema automático enviado pela central dos táxis, que avisa, a mando do taxista, a chegada do táxi».

Segundo José Monteiro, estes serviços já são possíveis em Espanha por existirem apoios concretos: para além da ajuda dada para a implementação dos serviços digitais, Jorge Oliveira revela-nos outro exemplo vindo dos nossos vizinhos: «a Câmara de Madrid comparticipa 40% na gasolina do táxi reduzindo, deste modo, o preço das tarifas».

Já em Portugal, José lembra que as complicações económicas dificultam os subsídios a nível nacional. «Esses apoios fazem muita falta», conta-nos amargurado. A esta voz junta-se à de Jorge Oliveira que, revoltado, exclama: «o táxi devia ser um meio de transporte que, por parte da Câmara, devia ser mais reconhecido e tratado como útil!»

Além disso, o vice-presidente Monteiro revela algo um pouco caricato: «o governo publicou a lei 6/98 (há 8 anos atrás) em que se comprometia a comparticipar até 50% do valor do GPS e, até hoje, zero»! Deste modo, a alternativa consistiu em parcerias: «as autarquias substituíram-se ao governo, em conjunto com a ANTRAL, por exemplo, na constituição da Central de Segurança de Âmbito Nacional», explica Monteiro.

O vice-presidente da ANTRAL, desiludido, acrescenta ainda que «o próprio sector não tem rentabilidade para estes investimentos avultados, pois, para cada táxi, são necessários 5 mil euros para colocar o GPS e, só no Porto, existem 730 táxis», remata. O motorista Oliveira diz mesmo que «a segurança não existe porque é tudo à custa do dono do táxi».

Enquanto aguardamos que algum cliente entre para o banco de trás e interrompa a entrevista, o Jorge, para clarificar, descreve-nos o seu caso «se calhar vou estar hora e meia à espera de um serviço de três euros! Para manutenção, gasóleo… não há capacidade financeira para colocar um GPS», conclui.

«O táxi tem de estar em consonância com o poder de compra das pessoas» responde José Monteiro, quando confrontado com a questão da possível subida dos preços do serviço dos táxis, devido ao necessário retorno do investimento nos GPS.

«Num país em crise, não podemos disparar o preço das bandeiradas por aí acima, senão acabamos por perder!» continua o vice-presidente da ANTRAL. «O povo não teria dinheiro para pagar e os táxis, em vez de trabalharem a 30%, passariam a trabalhar a 10%».

Na opinião de José Monteiro, neste momento, os preços praticados nos táxis são muito baixos. «Não há comparação a nível europeu», revela. Monteiro considera isto «paradoxal», pois afirma que apesar de Portugal ter «o preço dos combustíveis e dos componentes dos carros igual ao da Europa - e o dos carros se calhar mais caro! - a hora de espera na Dinamarca é de 50 euros e em Portugal é 8 euros».

01 maio, 2006

Universidades Sénior

Têm um olhar vivo, penetrante, como se tivessem a vida toda pela frente. Estudam com a mesma vontade e empenho dos jovens. Ou talvez mais. Falam-nos com alegria das matérias, dos professores, das metas a atingir. O que deveria ser um complemento, transforma-se na razão principal.

Por: Maria de Fátima Assunção

Encontramos na Associação Social, Cultural e Artística para a Universidade do Autodidacta e Terceira Idade do Porto (UATIP), um ambiente acolhedor, propício à aprendizagem, mas e acima de tudo, ao convívio, à proximidade entre as pessoas, à preocupação com o outro.

Actualmente com cerca de quinhentos alunos, iniciou a actividade em 1991, com oitenta. Nasceu da vontade e tenacidade de Maria Teresa Mota, fundadora e presidente da direcção, que acreditou desde o início neste projecto. Inicialmente, tiveram o apoio do Executivo Camarário de então, liderado por Fernando Gomes, que lhes dispensou uma casa localizada na Rua da Constituição.

Foi o ponto de partida para um projecto de sucesso e do qual tem um grande orgulho. A direcção e a secretaria trabalham em regime de voluntariado, dedicando aqui grande parte do seu tempo. Fazem-no por altruísmo e com muita alegria. Oferecem um leque variado de disciplinas (cerca de trinta e seis) que vão desde Alemão, passando pela Biologia, Psicologia, História, até às Artes Decorativas e Ginástica.

Estas universidades não se destinam só aos que não tiveram, na devida altura, oportunidade de estudar, mas também aos que querem preencher algum vazio que a idade vai dando e reaprender o que provavelmente já esqueceram: «inicialmente, pensei que se destinava a pessoas que não tinham tido oportunidade de estudar quando jovens. Mas não é assim. Aparecem-me muitas pessoas licenciadas, algumas até vêm recomendadas por psiquiatras. Aqui dão um sentido à vida» referiu-nos Maria Teresa.

É importante que as pessoas possam sentir-se úteis, membros activos de uma sociedade em constante movimento. «Sou voluntária da secretaria e ao mesmo tempo aluna. Aqui preencho um vazio que se tinha instalado na minha vida» confessou-nos Liberta Hermengarda, de 70 anos cheios de vida.

Os professores são preferencialmente jovens, para se conseguir uma interacção entre gerações. João Vieira Gouveia, de 34 anos, responsável pela disciplina de Canto Coral, admitiu que alguns alunos manifestam algumas dificuldades: «as pessoas têm o seu ritmo e depois é uma questão de tempo. Alguns alunos têm, naturalmente, dificuldades de concentração. No entanto, as pessoas têm determinadas metas a cumprir e querem cumpri-las».

Mas há os que, apesar da idade, conseguem desenvolver as suas capacidades culturais e artísticas: «tivemos uma aluna que conseguiu desenvolver de tal forma as suas capacidades artísticas, que agora expõe e até tem um certo mercado» disse-nos João Gouveia.

A solidão

Muitas pessoas encontram aqui uma forma de colmatar a solidão que se instalou nas suas vidas.

É o caso de Alexandre Ribeiro da Silva, que chegou à UATIP com uma profunda depressão, motivada pela morte da mulher. Conseguiu ultrapassá-la com o convívio e com a solidariedade que encontrou aqui: «cheguei em Janeiro de noventa e seis e nunca mais deixei de frequentar esta Universidade. Sinto-me outro. Esta é a minha segunda casa. Com uma particularidade: a senhora directora deu-me a chave para poder vir para cá quando quiser. Isso é muito importante O problema é quando estou de férias...» confidenciou-nos.

A componente lúdica é tida como um dos factores essenciais, que se manifesta através de visitas de âmbito cultural, espectáculos e viagens que realizam regularmente: «todos os anos damos um espectáculo de fim de ano» referiu-nos Maria Teresa

Os filhos abandonaram há anos o ninho, apareceram os netos, vê-se a vida de outra forma, com menos ansiedade mas muita curiosidade. Por vezes, sentem na carne a solidão mas procuram minimizá-la. Sabem que o mundo mudou, mas querem fazer parte integrante dele. Não desistem, não soçobram, não calçam as pantufas. Vivem um dia de cada vez. Não será que têm razão?

A Douro Sénior

A Douro Sénior nasceu em mil novecentos e noventa e nove e tem as suas instalações num dos locais mais aprazíveis da cidade do Porto, a Foz do Douro. As salas são espaçosas, com muita luz, bem equipadas. Apercebemo-nos que não foi descurado o mais pequeno pormenor para que as pessoas se sintam confortáveis. A sala de convívio e salão de chá corroboram a nossa impressão.

Actualmente com cerca de duzentos alunos, tem como director Mário Dias, licenciado em filosofia. Decidiu que era necessário levar por diante um projecto que poderia colmatar uma das lacunas da sociedade – minimizar a solidão dos mais velhos: «o motivo que me trouxe até aqui é meramente social. Este é um projecto muito interessante. As pessoas, a partir de uma certa idade, não têm como passar o seu tempo com um mínimo de qualidade intelectual. Estas Universidades podem ser a resposta» assegurou-nos.

Com uma propina mensal de quarenta euros os alunos podem inscrever-se em três disciplinas, como pacote mínimo. Por cada disciplina a mais que queiram frequentar pagam cinco euros. «Não temos fins lucrativos, mas também nunca nos foi dado nenhum apoio camarário ou outro. Tudo o que as pessoas pagam é investido em salários e equipamento» assegurou-nos.
Promovem conferências, colóquios e há sempre espaço para as viagens quer em Portugal, quer no estrangeiro.

Há também uma grande preocupação no recrutamento dos docentes, que exigem de grande nível académico: «procuramos actividades lúdicas, mas exigimos que os nossos docentes tenham um elevado nível académico. A maior parte dos nossos professores são mestres ou doutorados no activo, o que não é comum neste tipo de universidades» acrescentou ainda.

Foi no salão de chá que encontrámos Maria Eugénia Sá Coutinho de setenta e nove anos, Assistente Literária Principal da RDP, reformada há anos dessas funções. Com uma imensa alegria de viver, de gargalhada contagiante e pessoa de grande cultura. Contudo, não foi a solidão que a fez voltar a aprender: «as fases da vida sucedem-se umas às outras. Não tenho tempo para a solidão. Tenho tido algumas dificuldades económicas e psicológicas, mas nunca parei de estudar.

Antes de se despedir de nós, confidenciou-nos: «a minha disciplina favorita é Literatura Portuguesa. Tenho grande fascínio por estas matérias»

28 maio, 2005

Fuga ao desemprego

Se antigamente um “canudo” era a chave para se ser alguém na vida, hoje em dia apenas é um papel entre tantos iguais. Com a entrada de Portugal para a União Europeia, os horizontes alargaram-se deixando espaço para o desenvolvimento. Mas se, por um lado o desenvolvimento é positivo, por outro, parece dificultar cada vez mais o dia-a-dia.

Por: Cátia Videira

O mesmo pensa Maria Clara Silva, uma desempregada com 57 anos: «é muito complicado. As firmas fecham, saem de Portugal e cada vez o desemprego é mais elevado!» Maria Clara sente a idade pesar, o que não ajuda nada «...sendo mais de 50 anos, já não me aceitam em lado nenhum!...»

Pela experiência de vida que Maria Clara tem, a solução para acabar com o desemprego era muito fácil: «as firmas deveriam chegar a um acordo, ou seja, abrir empresas que oferecessem um certo salário (por exemplo, €250). Depois, quem quisesse esse ordenado base ia, quem não quisesse, não ia! Penso que evitaria a procura de mão de obra mais barata fora do país», sugere.

No entanto, e apesar da crise, hoje em dia quem está no desemprego é visto com maus olhos. Rita Abrantes, educadora de infância sem trabalho, diz-nos que «as pessoas não nos encaram: há sempre uma cara estranha e há sempre a resposta “não queres é trabalhar!”...É muito difícil numa situação destas arranjar ânimo para continuar a lutar». Para esta jovem de 30 anos, Portugal teria de «criar melhores condições de trabalho» pois, para ela, muitas vezes «existem os postos de trabalho, mas não têm condições» o que não aumenta a competitividade.

Por seu lado, os apoios do Estado também são poucos, no entanto «o fundo de desemprego não deveria acabar, pois a qualquer hora podemos estar na rua», afirma Elvira Lopes, de 45 anos, empregada de limpeza, «apesar de, para certas pessoas ele ser uma miséria, as despesas são certas e é tudo muito complicado sem alguma ajuda...»

Muitos dos desempregados nesta situação acabam por se endividar ao pedir emprestado para sobreviver. Elvira Lopes teve sorte: conseguiu emprego. Não foi bem na área que procurava, no entanto, diz ter tido «melhorias na vida, pois sempre é um ordenado fixo no fim do mês». Assim, Elvira aconselha a lutar com persistência, pois «lutando pode-se sempre arranjar alguma coisa porque estar no fundo de desemprego não chega...!».

Exemplo de sucesso

Quando entramos num centro de emprego, encontramos pessoas de qualquer faixa etária, e isso é desanimador. Porém, nos dias de hoje, ideias empreendedoras vão surgindo.

Na zona de Viseu está em construção uma Ecopista no desactivado ramal ferroviário do Dão, entre Viseu e Figueró. Este espaço será dotado de um espaço central, com três metros de largura, revestido a “flurry” (um material aderente), destinada à circulação de bicicletas, cavalos e outros meios de transporte.

Mas o que este espaço tem de verdadeiramente espantoso é o facto deste investimento contemplar exclusivamente jovens licenciados no desemprego, em particular, na área da Educação Física.

Fernando Ruas, presidente desta autarquia, refere que se pretende que «seja assegurado o acompanhamento dos utilizadores da Ecopista; que promovam acções pedagógicas, orientando e ensinando práticas desportivas básicas, como correr ou andar de bicicleta correctamente».

Embora este trabalho só vá ser desenvolvido aos fins-de-semana, visto que é nesses dias que se prevê uma maior utilização da futura estrutura de lazer, os concorrentes não perdem coragem e garantem que se vão esforçar.

Como garante Elvira Lopes, os desempregados dos dias de hoje podem vir a ser «os génios do futuro», basta poderem ter uma oportunidade para que tal aconteça

A presença feminina em áreas de trabalho masculinas

As mulheres têm conseguido, cada vez mais, infiltrar-se em actividades e profissões quase exclusivas dos homens. Resta saber: serão elas tratadas de igual para igual?

Por: Leonora Gonçalves

“Aos homens, os seus direitos, e nada mais; às mulheres, os seus direitos e nada menos”. A frase é de Susan B. Anthony, uma das primeiras feministas da história do século XIX. Hoje, enfrenta-se o terceiro milénio e podemos afirmar que grandes transformações se procederam na sociedade ocidental. As mulheres têm direitos que Susan jamais imaginaria e, contudo, continuam a procurar um estatuto de igualdade ao escolher profissões porque lhes agrada, e não porque são ‘adequadas’ às mulheres.

Apesar da constatação de que a presença da mulher no mercado de trabalho é uma realidade incontornável, muitas das justificativas dos empregadores para não contratarem mulheres ainda se prende a uma classificação estanque dos papéis do Homem e da Mulher. Nos empregos dominados por homens, este preconceito observa-se de forma ainda mais marcante.
De acordo com Lina Coelho, docente da Faculdade de Sociologia de Coimbra, «ainda há uma ideia pré-concebida de que algumas actividades profissionais são para homens e outras para mulheres».

Lina Coelho vai ainda mais longe ao afirmar que há uma concepção generalizada de que «as mulheres irão, eventualmente, abandonar os seus empregos para terem filhos e que, portanto, o emprego deve ser atribuído a um homem porque permanecerá no emprego e dará menos encargos à empresa». A docente diz constatar que «esta é uma realidade que requer uma preocupação adicional nos países latinos, sociedades caracterizadas por uma visão muito tradicionalista da mulher».

Segurança no Feminino

Virgínia Aguiar, oficial de segurança do Instituto de Medicina Legal no Porto, é segurança há 11 anos e diz, no entanto, nunca ter tido problemas com os colegas de trabalho: «no meu emprego anterior só havia homens e senti-me sempre à vontade», afirma. De acordo com Virgínia, «alguns homens ainda têm dificuldade em aceitar as mulheres em posições de autoridade... Quando apanho o autocarro para o emprego, vejo que alguns parecem ter um certo medo e nem se sentam ao meu lado», diz.

No que diz respeito à presença de mulheres na sua profissão de segurança, Virgínia afirma que existem muitas na área da segurança «e, até, como guarda-costas!». Lamenta, no entanto, que um homem consiga emprego na sua área muito mais facilmente que uma mulher: «as empresas ainda pensam que um homem impõe mais respeito do que uma senhora», lamenta.

No que respeito à escolha de uma profissão de algum risco, a funcionária do Instituto de Medicina Legal diz que sua profissão «é tão perigosa como outra qualquer». E acrescenta, irónica: «conduzir nas estradas é de certeza mais perigoso». Virgína confessa ter tido alguma preocupação por parte dos seus familiares quando escolheu ser oficial de segurança: «ficaram com algum receio, mas viram que era o que eu queria fazer e conformaram-se!...», conta.

Mulher ao volante

Emília Silva, taxista há 5 anos, diz ter escolhido a profissão simplesmente porque gosta e não vê nenhuma razão para que uma mulher não deva ser motorista de táxi. «Eu volto todos os dias para casa às 10 horas da noite, não corro perigo e ganho o meu dinheiro: é um emprego como outro qualquer», afirma.

A taxista refere que nunca sentiu nenhum tipo de preconceito por parte dos passageiros. «Eles bem ficam surpreendidos e olham-me com um ar de curiosidade, mas têm respeito», explica. Segundo Emília, o problema, com efeito, centra-se nos colegas de profissão. Os taxistas têm uma atitude antipática com Emília, que não se sente bem-vinda na sua paragem de táxis.

O preconceito no trânsito está presente no dia a dia da taxista, que revela ser alvo constante do nervosismo de alguns condutores. Mas salienta que esta não é uma realidade apenas das taxistas, mas de todas as mulheres que costumam conduzir um carro. E como reagem os taxistas à presença de um membro feminino na frota? «Não conheço nenhuma senhora taxista!...» e não prestaram mais declarações.

Correio!

Ouve-se o som estridente da campainha e, ao atender, o morador ouve uma voz feminina a pedir que abram-lhe a porta. “É o correio!” anuncia, rapidamente, Maria João Ribeiro, funcionária dos CTT do Porto há 8 anos. Para saber perceber melhor o dia-a-dia de uma carteira, a ‘Pessoas revista’ seguiu-a, porque «o correio tem que ser entregue a horas!», informa-nos seriamente.

Para Maria João, há muito poucas mulheres no serviço de entrega, pois preferem trabalhar no atendimento. Quando questionada sobre a possível dificuldade em carregar tanto peso, refere que isso não é problema: «nós temos carrinhos quando a correspondência é muita, não é um esforço muito grande!».

Confrontada com a afirmação corrente de que as mulheres não são tão dedicadas ao trabalho quanto os homens, Maria João rebate enfaticamente: «os homens são muitas vezes mais preguiçosos e querem fazer as coisas a despachar, mas ninguém se importa. Mas se uma mulher fizer qualquer coisa de errado é logo porque é mulher!...»

Subintendente no feminino

Paula Peneda foi notícia, juntamente com a sua colega Madalena Amaral, em quase todos os Meios de Comunicação Social, ambas oficiais da Polícia de Segurança Pública (PSP), em Lisboa.
O motivo de toda a atenção é indiscutível: foram as primeiras mulheres a serem promovidas a Subintendentes dentro da PSP em Portugal e que irão, agora, frequentar o curso de promoção ao posto de Intendente.

Paula Peneda e Madalena Amaral terão a companhia de mais 40 Subintendentes, todos homens. Para além de comandarem divisões, as oficiais terão responsabilidades de chefia em todo o dispositivo da PSP.

A motivação apontada para a entrada na PSP por Paula Peneda, de 37 anos, é a vocação. Entrou para a PSP em 1985, após terminar o 12º ano. Nessa altura, estava na Escola Superior de Polícia, a começar o 2º curso de formação de oficiais de polícia. «Foi o único caminho que considerei seguir», diz.

A Subintendente diz que, desde que entrou, a PSP mudou muito quanto às oportunidades para as mulheres. «As diferenças são, essencialmente, de comportamento. Hoje, a PSP está mais receptiva às senhoras. Já somos muitas mais do que éramos quando entrei», constata.

Quando questionada sobre a possível discriminação das mulheres no seio da PSP, Paula Peneda pondera: «as coisas vão mudando com o passar do tempo e tudo está bastante diferente do que encontrei quando iniciei a minha carreira, há 19 anos. Penso que os colegas já se conformaram que têm que conviver connosco». Em relação ao futuro, a Subintendente mostra uma grande confiança. Se for aprovada em todos os cursos, poderá chegar a Superintendente Chefe aos 45 anos.

Sra. Presidente

O cargo político de Presidente da Junta de Freguesia em Portugal é, inegavelmente, ‘território masculino’. Ana Maria Silva Pereira é a presidente da Junta de Miragaia.

Dos 48 presidentes de junta do concelho do Porto é a única senhora. «Os eleitores não estão habituados a ver mulheres neste tipo de cargos. É uma questão de tempo até que haja muito mais mulheres a concorrer e serem eleitas para Presidente da Junta», esclarece.

A presidente diz existir uma enorme hipocrisia para com mulheres em cargos de responsabilidade política e salienta que o preconceito continua a existir na política, embora de forma disfarçada. «Os adversários sabem que não é politicamente correcto criticar uma mulher recorrendo à argumentos machistas. Ao invés, encontram formas de a acusar de incompetência e deixam o preconceito alheio fazer o resto», confessa.

Combatente no fogo

Andreia Carvalho, de 27 anos, é membro do Corpo de Bombeiros Voluntários do Porto. Para si, a escolha da profissão de bombeiro era inevitável. «Sempre quis... não consigo imaginar-me em nenhum outra carreira», confessa.

Quanto ao risco inerente à profissão, Andreia diz que «é uma opção de vida» e que todos os oficiais têm a percepção do perigo. «O treino a que somos sujeitos destina-se especificamente a diminuir as probabilidades de algo correr mal, nesse aspecto, as mulheres correm tanto risco quanto os homens», observa.

Andreia afirma ainda que a relação com os colegas é muito saudável, mas que têm uma tendência para a superprotecção das mulheres: «Numa situação de incêndio, eles estão sempre atentos onde nós estamos e se estamos a proceder de forma segura», diz. «Penso que é muito difícil para os homens entender que não precisamos de ser mais protegidas que todos», acrescenta.

Carreira estruturada

Engenheira civil da Edifer, um grupo empresarial da área da construção civil, Júlia Serra não tem dúvidas de que a mulher tem grandes possibilidades de ter sucesso em profissões maioritariamente masculinas. Na sua opinião criou-se um mito da inadequação da mulher à profissões das áreas ligadas à Tecnologia. «As mulheres não têm nenhum tipo de obrigação em seguir áreas ligadas às Ciências Humanas», refere.

Para Júlia Serra, é importante observar a evolução do papel da mulher na sua profissão: «quando obtive a minha licenciatura, era uma raridade encontrar senhoras formadas em Engenharia Civil. Hoje já observo um número razoável de mulheres nas empresas de construção civil, embora a predominância masculina seja inegável», esclarece.

Quanto questionada sobre como são as visitas aos empreendimentos em construção por parte de uma mulher, a engenheira destaca que não enfrenta qualquer problema. «Os operários fazem uma certa cerimónia comigo, mas o trabalho decorre da melhor forma possível», esclarece.

Júlia Serra discorda completamente da atribuição de falta de feminilidade às mulheres engenheiras. «De todas as engenheiras que conheço, nenhuma se encaixa no estereótipo masculinizado», afirma. E acrescenta: «pelo contrário, penso que é exactamente por ser uma profissão tão caracterizadamente masculina que procuramos usar roupas femininas, obviamente adequadas ao ambiente de trabalho».

A mulher no mercado de trabalho

Lê-se no Artigo 22º do Código do Trabalho vigente em Portugal que “todos os trabalhadores têm direito à igualdade de oportunidades e de tratamento no que se refere ao acesso ao emprego, à formação e promoção profissionais e às condições de trabaho”. Este direito à igualdade é também assegurado na Constituição Portuguesa, assim como na Carta das Nações Unidas.

Estes diplomas vêm mostrar que, na actualidade, quase não existem vazios legais no que diz respeito aos direitos da Mulher no mercado de trabalho mas, infelizmente, ainda há um claro abismo entre a realidade jurídica e realidade prática. Constatam-se, de facto, claras diferenciações entre o estatuto feminino e o masculino nos postos de trabalho.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), num inquérito ao emprego em 2001, as mulheres continuam a ter salários mais baixos e apresentam uma taxa de desemprego mais elevada. O ganho médio mensal por actividade de uma mulher em 2001 era de cerca de 550 euros, valor claramente inferior ao masculino: cerca de 610 euros.

A título de curiosidade, informamo-nos sobre a presença de mulheres em algumas das grandes empresas portuguesas, ao que constatámos um quadro preocupante. Na Energias de Portugal (EDP), todos os 13 membros da estrutura de apoio ao Conselho de Administração são homens. Na Portugal Telecom (PT) os números são ainda mais impressionantes: em 23 directores administrativos não há, sequer, uma mulher. O porquê dessa exclusividade masculina nos órgãos de direcção não foi esclarecido pelas empresas referidas.

Os empregos não-tradicionais

Nos Estados Unidos da América, há uma organização denominada “Work4Women”(Trabalho para Mulheres), que disponibiliza informação e estratégias para ajudar a aumentar a integração feminina em empregos considerados não-tradicionais para o sexo feminino.

Ao contrário do que acontece em Portugal, nos EUA essa classificação - emprego não-tradicional - tem uma definição bem clara. O Departamento do Trabalho Norte-Americano define empregos não-tradicionais como aqueles em que as mulheres constituem até 25% da força de trabalho. Em Portugal não há uma denominação tão específica, mas é possível determinar algumas profissões como paradigmas da baixa inserção feminina.

Ao analisarmos dados do INE, observamos que, em 2001, 95% dos membros das Forças Armadas, assim como 76% dos operadores de instalações de máquinas e trabalhadores na área de montagem eram do sexo masculino. Por outro lado, cerca de 65% dos trabalhos administrativos eram realizados por mulheres.