26 janeiro, 2005

Guimarães: o lugar que viu nascer Portugal

A cidade do 1º Rei de Portugal, D. Afonso Henriques, foi considerada Património Mundial pela UNESCO. Que tipo de metrópole se ergueu no decorrer dos tempos? Guimarães alargou a sua esfera existencialista no seio das cidade modelo, referencial para outras que devam ter como presente a conservação dos seus monumentos, da sua história, da sua alma.

Por: Pedro Oliveira

Guimarães é uma cidade mítica, lendária, que das profundezas da sua alma viu nascer Portugal. Guimarães, paralelamente à azáfama dos estudantes e trabalhadores que a envolvem todos os dias, detém em si uma circunstância histórica para lá da zona delimitada da muralha. Qualquer casa, rua, praça ou monumento é um espaço de estudo próprio, um vasto campo para um olhar em variadas perspectivas.

A paisagem urbanística faz-nos recuar no tempo. A praça da Senhora da Oliveira é o local por excelência daqueles que gostam de passar o fim de tarde numa esplanada e, ao mesmo tempo, contemplar a igreja de fachada gótica com o mesmo nome. Nas imediações dessa igreja poderá observar-se o Padrão da Vitória, constituído para ser um lugar de devoção. Daqui chegava e partia tudo de importante na vila: o mercado, as notícias, o sagrado e o profano.

Este era um espaço de sociabilidade que o tempo não fez esquecer. Nas ruas e vielas que circundam a praça encontram-se as casas, quase sempre, de rés-do-chão e dois pisos, que conferem à cidade todo o esplendor histórico que a caracteriza.

O castelo é um dos monumentos com maior carga simbólica que tornam esta cidade o berço da nação. Mandado construir no séc. XII por Mumadona Dias, detinha como função proteger a população de eventuais ataques dos invasores. Terá sido neste castelo que D. Afonso Henriques resistiu, em 1127, ao cerco imposto por Afonso VII de Leão e Castela. Situado na colina do castelo e ocupando uma posição sobranceira ao burgo medieval amuralhado da cidade encontra-se o 2º monumento de maior importância na panorâmica arquitectónica de Guimarães: o Paço dos Duques de Bragança. Este importante paço feudal foi mandado construir no séc. XV, na tentativa de afirmar uma imagem de construção que se aliava à monumentalidade que o conforto da época exigia.

Guimarães candidatou-se a Património Mundial, título que é atribuído pela UNESCO. Para se compreender o que levou a que o seu nome fosse considerado uma cidade Património Mundial, Francisca Abreu, vereadora do pelouro da Cultura deste município, referiu «que o facto de Portugal ser a nação mais antiga da Europa à qual Guimarães está directamente associada, por si só, eram critérios relevantes», acrescentando que o facto do «património não ter sido destruído ou delapidado ao longo dos tempos é uma condição, à priori para ter estruturas arquitectónicas que pudessem ser sujeitas a critérios de avaliação».

Houve todo um processo, com pré-avaliações por parte da UNESCO, para se fazerem acertos na reabilitação. De realçar, nesta regeneração, que o processo de labuta que se adoptou foi feito em consonância com a população.

O gabinete técnico local envolveu sempre as populações, um trabalho porta-a-porta que considerou a voz e a razão dos habitantes. Segundo a responsável pelo pelouro da Cultura o processo de reabilitação passou por três fases: intervenção nas praças públicas e edifícios públicos; reabilitação comercial e reabilitação das casas privadas. «Foi adoptado um método pedagógico de contacto com as pessoas com uma equipa técnica em contacto com os visados na explicitação de alterações consideradas pertinentes», refere a responsável.

Guimarães é um símbolo da identidade nacional e os vimaranenses foram participantes activos na construção de uma história passada, mas paradoxalmente virada para o futuro.

Inicialmente, esta vila foi um centro de aperfeiçoamento de técnicas de edificação para construção, como comprovam alguns edifícios em cidades ultramarinas. «No Brasil, em São Salvador da Baía-Pelourinho ou nas Canárias detemos a traça de algumas técnicas de construção que se fazem notar em Guimarães. Transportamos além fronteiras a nossa vivência de estar, de viver e de fazer» sublinha Francisca Abreu.

A cidade mudou desde que lhe foi atribuído o título de Património Mundial.

Para Francisca Abreu, a responsabilidade aumentou: «agora tenta-se manter a qualidade do centro histórico e alargar a intervenção além muros, noutras periferias, acrescentando, assim, outros planos operativos, tais como, por exemplo, um cibercentro construído para a população». «Foi feito um levantamento exaustivo de todos os sítios: monumentos, fontes, quintas, paisagens de interesse patrimonial», acrescenta.

Guimarães é uma metrópole que se inscreve na alma lusitana. É uma sede de município carregada de simbolismo, na qual a sua gente tem um sentimento de orgulho e pertença à fundação deste território chamado Portugal. Uma terra com uma História que é de todos os portugueses mas, agora, do mundo também.

Gil Eannes: Segredos da história de um barco parado

«Isto era o Deus que aparecia aos pescadores, porque era aqui que iam as encomendas que as mulheres enviavam para os homens que andavam na pesca à linha».

Por: Madalena Nevado

Com um sorriso nos lábios e um olhar que transmite alegria e saudade, Pedro Lima Ribeiro, de 71 anos de idade, está sentado numa das salas do Navio-Museu Gil Eannes e recorda os oito meses que lá passou, exercendo a profissão de electricista.

Pedro Ribeiro entrou pela primeira vez no Gil Eannes em 1958. Acabado de chegar no navio Angola para passar a Páscoa com a família e a namorada na sua terra natal, Viana do Castelo, recebeu um convite de um amigo. Segundo Maquinista, com quem tinha trabalhado no paquete Serpa Pinto.

O Gil Eannes era o suporte de toda esta frota nos seus mais variados aspectos, desempenhando, simultaneamente, funções de ‘embaixador’ - representante dos portugueses e de Portugal em diversas regiões do globo e em locais tão distantes como a Gronelândia e a África do Sul.
Durante esta viagem, Pedro Ribeiro viveu experiências que o fizeram ter muito orgulho em ser português.

Se o atracar de um navio de pesca no porto de St. John’s era caso para deixar os residentes cautelosos, o mesmo não se verificava em relação ao Gil Eannes. Este gozava de um prestígio enorme nos portos da Terra Nova, em especial no porto de St. John’s na Gronelândia: «Usufruía de um estatuto único. Era-lhe permitido sair e regressar a este cais sem tratar de qualquer documentação, bastando um simples telefonema para o capitão do porto e para a Alfândega», recorda o antigo electricista.

Para além dos pescadores, viajaram com Pedro Ribeiro algumas pessoas ilustres. Foi o caso de Bernardo Santareno: «Ele chamava-se Martinho, que era o seu pseudónimo. Era um dos três médicos que aqui trabalhavam», lembra. Foi a relação com estes médicos que lhe permitiu ter um contacto mais directo com a medicina. Recorda, com uma certa vaidade, que assistiu a várias operações: «Assisti a 72. Eu era o assistente oficial. Cabia-me preparar a sala que, naquela altura, tinha que estar quente», recorda.

Enquanto navio hospital, o Gil Eanes recebia vários pedidos de socorro de outros navios, não só para situações de resgate como também para assistirem doentes com prognósticos variados. Desde homens com «tromboses, que chegavam como mortos, a feridos graves que tinham que ser assistidos de imediato», recorda Pedro Lima Ribeiro. Com muita mágoa, visível pelas lágrimas nos olhos e pela voz que teima em não sair, lembra a morte de um companheiro de viagem que, «apesar de todos os esforços por parte da equipa médica, não sobreviveu».

Havia, no entanto, situações em que a sua nacionalidade o deixava um pouco desconfortável.

Em St. John’s, quando os nossos pescadores chegavam, davam um alerta geral a avisar os habitantes que havia portugueses em terra, para se prevenirem contra os roubos. Na época, os nossos pescadores, quando em terra, roubavam tudo o que lhes aparecia pela frente: roupas que estivessem a secar, triciclos das crianças, comida, tudo o que podiam", lembra. Isto acontecia com os navios dos pescadores que andavam na pesca à linha: «No Gil Eannes vivia-se em ambiente de autêntico luxo, em relação aos outros navios de pesca. Esses viviam na miséria», diz Pedro Ribeiro.

O convite apanhou-o de surpresa, porém, respondeu de imediato: «Eu faço a viagem no Gil Eannes, desde que possa passar a Páscoa em Viana do Castelo. E assim foi: recebi o telegrama a perguntar se aceitava embarque e eu aceitei».

Apesar de já conhecer o Navio e a sua importância, quer para os homens que pescavam nos mares da Terra Nova e Gronelândia, quer para Portugal, foi nesta viagem que Pedro Lima Ribeiro se certificou da sua grandeza: as suas actividades humanitárias, sociais e, mesmo, políticas.

A assistência multifacetada que o navio exercia a favor de todos aqueles que tinham necessidade de recorrer aos seus serviços de apoio valeu-lhe, por parte de toda uma frota de mais de 70 navios, a designação de "Anjo da Guarda". Essa assistência era prestada a navios e tripulações de uma forma gratuita, independentemente da nacionalidade.

A história do Gil Eannes

A história do Gil Eannes começa no ano de 1916. Aquando da I Grande Guerra, um cargueiro alemão é retido num porto nacional. O Lahneck, assim se chamava o cargueiro a vapor, foi rebaptizado com o nome de Gil Eannes e foi este que fez a primeira assistência aos navios de pesca nos mares da Terra Nova no ano de 1927. Esta situação manteve-se até ao ano de 1942.
No dia 19 de Março de 1955 foi posto a flutuar nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo o Gil Eannes dos nossos dias.

Um Navio Hospital dotado de meios médicos, de assistência, enfermarias, sala de tratamento, gabinete de radiologia, bloco operatório, capela e até salas de lazer que prestava uma assistência médica compatível com a dignidade humana dos pescadores do bacalhau. Tinha capacidade para 72 tripulantes, 6 passageiros, 74 doentes e dispunha de câmaras frigoríficas.

Durante vinte anos desempenha as funções de rebocador, salva-vidas, quebra-gelo e abastece os navios de pesca. O Gil Eannes envelhece e deixa de ser útil. Atracado no Cais da Rocha é mais tarde vendido para abate à empresa Baptista & Irmãos, Lda.

Posteriormente, o Gil Eannes é adquirido pela Comissão Pró Gil Eannes, devolvido à sua terra natal, recuperado e encontra-se neste momento na antiga doca comercial de Viana do Castelo, como Navio-Museu e onde funciona uma Pousada da Juventude flutuante. Hoje o Gil Eannes é o ex-libris da Cidade de Viana do Castelo.

Rio das Pedras

Ao Brasil também temos por hábito associar as favelas. É habitual relacionarmos os morros do Rio de Janeiro com esses bairrosque descem as encostas...

Por: Amanda Alves

As favelas surgiram na cidade maravilhosa, nas muitas encostas dos terrenos acidentados que caracterizam a cidade do Rio de Janeiro: como a construção de casas nesses locais é difícil, os terrenos baixam para um preço insignificante. Daí que as favelas se encontrem nos morros.
O que também caracteriza esses aglomerados habitacionais é o enorme tráfico de armas e drogas e a consequente violência. O Rio de Janeiro é uma das cidades mais violentas do Mundo devido a existir, dentro dela, um excesso de favelas com os maiores cabecilhas do tráfico de drogas. Por exemplo, em comparação, o número de favelas em São Paulo com indícios de violência é drasticamente menor.

No entanto, no meio de tudo isso existe uma favela que, em vez do morro, fica situada no bairro mais promissor e rico da cidade: a Barra. E, para além de fugir a essa "regra", existe uma característica muito mais atípica: nessa favela não existe nenhum tipo de tráfico, nem de violência. Esse sítio chama-se Rio das Pedras.

Numa visita, a primeira reacção comum é o medo. O medo de entrar numa favela, num "sub mundo" social de que tanto se ouve falar mas que poucos têm a coragem de encarar. Depois de muitos se terem negado a acompanhar a reportagem da PESSOAS, conseguimos um ‘guia’. Mário Antunes, filantrópico por natureza, presta solidariedade. Mário trabalha num centro espírita e já há 6 anos auxilia aquela comunidade a vários níveis: com oferta de cestas básicas, com medicamentos e material escolar. Auxilia no que pode. Mas, principalmente, ele doa compreensão, amor, respeito e carinho àqueles seres humanos. Com Mário Antunes, pudemos compreender a história daquelas gentes e daquele local.

Mais de 95% das pessoas que vivem em Rio das Pedras não são do Rio de Janeiro. Vieram de estados brasileiros pobres e longínquos à procura de melhor qualidade de vida. Uniram-se naquele local por estar ao lado de um rio que, na altura, era limpo e cheio de peixes e, como o terreno é pantanoso, o preço da terra era insignificante. No entanto, quem lá vai pode verificar que os chamados "favelados" não são o que se pensa: são pessoas de muito carácter e dignidade, que lutam por uma sobrevivência dura.

Tonha, uma mulher de 26 anos e com 6 filhos, vive numa das muitas barracas da favela. Nessa barraca onde todos vivem, na realidade só cabem, no máximo, duas pessoas. Não tem casa de banho, não tem cama (apenas um estrado de madeira onde todos dormem), o chão tem uma inclinação bastante acentuada, pois a terra pantanosa daquela zona vai-se desmoronando com o tempo. Também chove lá dentro. Talvez estas características já sejam mais que suficientes para descrever o que é morar ali. Apesar disso, Tonha recebeu-nos com muito carinho. De tez muito morena, de cabelo desgrenhado, de olhos castanho fosco e com um sorriso muito desdentado, Tonha constrói uma expressão que lhe soma mais 20 anos aos que tem, numa força repetidamente cansada mas inesgotável, bem visível no cuidado que tem com as poucas roupas, o mais bem cuidadas possível, que os seus filhos trazem vestidas.

«O Estado nada faz por nós, excepto em época de eleições. Aí vêm oferecer algumas cestas básicas e prometer mundos e fundos que nunca cumprem», conta Tonha. Salienta também, que o acesso aos bens essenciais é muito complicado. Para se chegar a uma farmácia é necessário, primeiro, percorrer vários caminhos enlameados que, à noite, pouca luz têm e, depois, esperar para apanhar mais dois transportes. Sem mencionar as escolas e hospitais inexistentes... "Para três dos meus filhos entrarem na escola, tive que dormir durante duas semanas seguidas na frente do portão para arrumar vaga e, mesmo assim, não consegui para todos", referiu, ainda, Tonha.

Antes de morar ali, esta mulher nasceu e viveu na Rocinha, a favela mais marcada pela violência e pelo tráfico de toda a América do Sul. A sua mãe ainda vive lá.

Depois de constituir família, Tonha mudou-se para Rio das Pedras. Não aguentava viver, a cada dia, rodeada pelo medo e pela insegurança. «Havia tiroteios a toda a hora, traficantes que entravam armados na nossa própria casa para se esconderem, policiais revistando tudo. Era horrível. Aqui, em Rio das Pedras, não. Não temos condições como lá, mas vivemos em paz, sem confusão e sem medo. Todo mundo se dá bem e se ajuda», diz Tonha.

Ao sairmos desta barraca, onde as crianças, no meio de máquinas fotográficas e gravadores, só se interessaram por um pobre caderno que trazia nas mãos - queriam escrever e não tinham onde - fomos para casa de uma criança muito conhecida na favela. O Maciel é um menino de 12 anos. Também mora no Rio das Pedras e já tem a seu cargo grandes responsabilidades. Foi ele próprio que as quis. Com uma bicicleta que lhe ofereceram percorre, diariamente, toda a favela à procura de pessoas que possam estar a precisar de auxílio. «Sei que as pessoas precisam de ajuda e, por isso, não consigo ficar parado vendo-as sofrer. No que puder, ajudo sempre, ou então peço apoio», conta.

Maciel andou de hospital em hospital, pelo Rio de Janeiro, até encontrar uma vaga para uma senhora que vivia numa rua da favela e que precisava de uma cirurgia à bexiga, com muita urgência. Graças a isso, essa mulher está viva.

Apesar de, com a sua mãe e irmã, ter ido parar a Rio das Pedras, fugidos de casa devido à violência doméstica perpetrada pelo pai, Maciel revela com uma sinceridade emocionante: «Sei que o meu pai é assim, mas eu já o perdoei e hoje sou muito feliz. Sei que levo uma vida miserável, sem condições, mas sou feliz». O menino diz que gosta de viver no Rio das Pedras: «todos são amigos e tentam fazer o bem ao próximo».

Maciel nunca faltou às aulas na vida e é o melhor aluno da escola. É um princípio para realizar o seu maior sonho: ser advogado. «Se conhecer as leis, posso ajudar ainda mais pessoas», diz.
Visitámos ainda Fernanda, uma menina da mesma idade do Maciel e que tenta seguir as suas pegadas. A sua casa é uma das melhores da favela e, por isso, sempre que podem, ajudam os outros, apesar de as suas histórias de vida serem igualmente duras.

Para desvendarmos o porquê desta favela ser tão pacífica, descobrimos que existe a chamada "polícia mineira" - um grupo de homens vindos do Estado de Minas Gerais e que defende os interesses do lugar. Andam pelas ruas com uma ‘peixeira’ - uma faca muito grande, assim designada por eles, e que sabem utilizar com mestria - para manterem a ordem e assegurarem a tranquilidade dos moradores. Quem fugir às regras, pode arriscar a vida.

Pantanal

No interior da América do Sul, o Pantanal Matogrossense é a maior extensão húmida do planeta e uma das mais exuberantes e diversificadas reservas naturais do Mundo. Por essa razão, a UNESCO reconheceu-o como Património da Humanidade.

Por: Amanda Alves

Esta zona foi descoberta pelos bandeirantes do século XVIII, que a colonizaram respeitando os pantaneiros (nome dado aos habitantes desta zona que, na altura, eram os índios e hoje, os seus descendentes). Daí que, passado mais de 200 anos de ocupação e exploração económica, a natureza continue praticamente inalterada.

Todo o Pantanal faz parte da bacia do rio Paraguai, constituindo-se uma imensa planície de áreas alagadas. A união deste factor com o clima e o relevo favoreceram o desenvolvimento das várias espécies animais e vegetais que povoam toda a sua extensão.

Todavia, precisamente por isso, têm-se verificado vários problemas ambientais, tais como a pesca predatória, a caça de jacarés e a poluição dos rios devido ao mercúrio utilizado nos garimpos do ouro e dos diamantes, que mata várias espécies de peixes, entre outros animais. O Estado do Mato Grosso tenta sanar este problema através de uma vigilância mais cerrada. Mas essa parece ser uma tarefa impossível perante a imensidão da região.

No entanto, ao contrário do que se possa pensar, o aumento do turismo no Pantanal tem servido para diminuir estes problemas ambientais. O eco-turismo - que não é mais do que uma observação e consciencialização da fauna e da flora existente, através de actividades aventureiras que saciam o nosso instinto – revela-se um factor importante de equilíbrio ambiental.

Prova de que o Pantanal é um lugar onde se preza a preservação do natural, é que ainda existem nove tribos indígenas distintas que habitam no seu local de origem, embora tenham sofrido, inicialmente, com a chegada dos brancos, que traziam consigo doenças e novos costumes.

Este é um lugar maravilhoso que, em tempos, poderia ter sido o tão almejado "Eldorado", imaginando como seriam as ruas calcetadas de pedras preciosas, fruto da tamanha quantidade de preciosidades que se encontravam nas minas e nos fundos dos rios.

Hoje, só nos resta dar uso à imaginação ou ver fotos deste passado verdadeiro, de que o homem, com a sua ganância, usou e abusou.

Barrinha de Esmoriz

Muito se escreve e se fala da necessidade de protecção do meio ambiente. Pouco ou nada se faz. Esquecem-se os problemas ambientais ou, simplesmente, ignoram-se?

Por: Maria Helena Oliveira

Quando entrámos pela primeira vez no Palheiro Amarelo, adquirido e reabilitado pela JUVEDREP (Juventude Desportiva e Recreativa Esmoriz Praia), percorremos as suas divisões e tivemos a sensação de estar numa visita guiada pela Barrinha de Esmoriz. Ao longo das paredes estão espalhadas fotografias da lagoa e podemos ver, com clareza e nitidez, os barcos atracados e a sua ligação natural com o mar. Surge, entretanto, uma dúvida: Era esta a lagoa? Somos, então, convidados a um regresso ao passado.

No monitor do computador as dúvidas começam a dissipar-se. Era um filme dos anos 70. Mesmo sem som, conseguíamos ouvir os risos e a satisfação daqueles que lá estavam. A lagoa tinha águas cálidas e transparentes, realizavam-se campeonatos de voleibol e natação e faziam-se passeios de barco. Era um local de convívio e de lazer.

Enquanto vemos o filme, José Ribeiro e Pedro Cunha, elementos da JUVEDREP, falam, com tristeza, do estado actual da lagoa. José Ribeiro recorda que, à semelhança de outros habitantes da terra, também ele aprendeu a nadar nas águas da Barrinha.

O caminho da degradação

O crescimento industrial e urbanístico ditou, nos anos 80, o caminho da Barrinha de Esmoriz até aos dias de hoje. Os interesses materiais sobrepuseram-se aos interesses ambientais. A continuidade da lagoa estava ameaçada, a poluição começava a ser uma realidade. A água transparente deu lugar a uma água poluída.

As causas da sua poluição prendem-se com os efluentes domésticos e industriais porque são encaminhados para as duas principais ribeiras que nela desaguam: a ribeira de Rio Meão, na freguesia de Paramos, e a Vala de Maceda, também conhecida por Rio Lambo, na freguesia de Esmoriz. Os níveis de poluição são, no entanto, mais acentuados na ribeira de Rio Meão, devido às inúmeras fábricas de papel do concelho de Santa Maria da Feira.

Continua com vida

A lagoa, apesar de poluída, não é uma lagoa sem vida. Embora seja um espaço pequeno, é um ecossistema rico e natural repartido por dunas, campos agrícolas, pinhal e meio aquático. Em 1999, segundo o Fórum Ambiente, era possível contabilizar na Barrinha cerca de cem espécies de plantas, 190 de aves, sete de anfíbios, cinco de répteis e, pelo menos, 15 de mamíferos.

Promessas esquecidas Preocupado com os níveis de poluição na Barrinha, o então primeiro-ministro Português, António Guterres, deslocou-se, em 2000, à cidade de Esmoriz. De acordo com uma notícia publicada no jornal de Ovar, Guterres prometeu, então, aos esmorizenses, "num discurso carregado de preocupação e angústia", uma lagoa despoluída, já em 2003. Porém, foi em 2003 que a Barrinha de Esmoriz abriu todos os noticiários televisivos e primeira página de vários jornais nacionais: as sucessivas descargas desse ano interditaram as praias e culminaram na perda da Bandeira Azul.

A JUVEDREP associou-se ao Movimento Pró-Barrinha e, cansados das promessas políticas, uniram-se por uma causa: exigir a despoluição da Barrinha. Escolheram as festividades locais para organizar um buzinão em terra, ar e água e exigir um projecto despoluidor.

Arranque do Projecto

O Projecto de Despoluição da Barrinha de Esmoriz teve início em Junho deste ano e pretende reabilitar aquela que, em tempos, foi o ex-libris da cidade e se transformou no mais grave problema ambiental da zona Norte do país.

O Projecto, segundo Alcides Alves, Presidente da Junta de Freguesia de Esmoriz, tem três fases. A primeira consiste no tratamento dos efluentes industriais provenientes do Concelho da Feira, Ovar e Espinho e está a cargo da SIMRIA ( Sistema Intermunicipalizado de águas da Ria de Aveiro). As fases seguintes consistem na despoluição da Barrinha e no aproveitamento que todo aquele espaço. «Numa visão optimista - refere o autarca – espera-se que esteja concluído já em 2010».

José Sá Ferreira, considerado pela população como maior defensor da Barrinha, escreveu num dos seus livros: "A nossa lagoa, uma vez morta, é pouco crível que volte algum dia a ser ressuscitada". As expectativas são, por isso, grandes.

A máquina do tempo

Quem passa pela marginal de Vila Nova de Gaia não fica indiferente às majestosas e imponentes embarcações ancorados nas margens do Douro. Por lá permanecem os barcos rabelos, marcos históricos da gloriosa era mercantil, hoje atracções turísticas, irredutíveis perante a erosão do tempo.

Por: Joel Silva

Historicamente, os barcos desempenharam importante papel no transporte do vinho do Porto, néctar precioso, pedaço de pecado divino de muita e boa gente, desde a região do Alto Douro até às caves sedeadas na margem da cidade de Vila Nova de Gaia. Hoje, são apenas atracções turísticas, que navegam rio acima mostrando a inúmeros estrangeiros a beleza de um Douro considerado Património Mundial da Humanidade.

O seu bom estado de conservação é o resultado, do tempo e cuidado, certamente despendidos por muitas pessoas, autênticos mecenas, que os encaram como um marco da história da cidade Invicta.

A Confraria do Vinho do Porto organiza, anualmente, a 24 de Junho, uma regata entre a Foz e a ponte D. Luís, mobilizando centenas de curiosos para ambas as margens do Douro que assistem, deslumbrados e atónitos, a um cenário do passado em harmoniosa conjugação com o presente.

Porto e Gaia revivem, por momentos, a azáfama de nostálgicos tempos, locais de paragem obrigatória, onde se reuniam intrépidos marinheiros e hábeis comerciantes, portadores da nobre e conquistadora alma lusa, enquanto que o Douro volta a engalanar-se, e a constituir-se como centro das atenções de ambas as margens.

O berço dos rabelos

Desde o século XVIII que o rio Douro é povoado por barcos originais, os ‘Rabelos’, que foram especialmente concebidos para este rio e para o transporte das pipas de vinho. Na altura, antes da construção das várias barragens, o Douro era agitado e irregular e estas embarcações moldavam-se de perícia para a aventura da sua travessia.

Por: Inês Braga

Muitos anos mais tarde, as águas do rio Douro foram acalmadas e, hoje, a sua navegação é muito mais fácil. Apesar de terem, então, vencido a rebeldia do Douro, os ‘Rabelos’ foram perdendo, gradualmente, o seu trabalho para o comboio e para o camião. As embarcações tiveram, assim, que se adaptar a um mundo moderno. As águas calmas do rio já não exigiam tamanha agilidade e, por volta da década de 80, com o desenvolvimento do turismo, o ‘Rabelo’ renasce para outra função: as caves do Vinho do Porto. As caves começam a querer recuperá-los e os estaleiros a equipá-los de motor, cabinas e outras comodidades. O ‘Rabelo’ torna-se num barco de passeio turístico, um ícone publicitário do Douro e das suas caves vinícolas.

Um estaleiro situado nas margens de Vila Nova de Gaia, junto às múltiplas caves, acompanhou de perto, a vida dos ‘Rabelos’ no último século. Foi aqui que as embarcações nasceram, cresceram e foram adaptadas às novas exigências que os fizeram voltar a navegar. A SOCRENAVAL é o único estaleiro que, neste momento, ainda constrói os originais ‘Rabelos’.
António Dixo Sousa é o sócio gerente, que, juntamente com o pai e David Alves, um seu velho amigo, são os proprietários deste estaleiro familiar que preza por manter viva a tradição do Douro há mais de 100 anos.

No entanto, foi há 30 anos que a família começou a dedicar-se à construção destas embarcações únicas. Cerca de 15 anos mais tarde, o estaleiro foi pioneiro na adaptação dos ‘Rabelos’ às necessidades turísticas, dotando as embarcações de motor, WC, serviço de refeições, coberturas de Inverno e Verão, e outros equipamentos de forma a corresponder às exigências dos turistas. Apesar das inovações, António Dixo Sousa sublinha que mantém «uma forte preocupação em preservar a construção, o design, e as aplicações das embarcações, de forma a permanecer fiel às características originais e tão especiais desta embarcação».

O estaleiro concentra 80% da sua actividade na construção de barcos ‘Rabelos’, mas não esquece as dificuldades. António Sousa não deixa de lembrar que «no início do século XIX havia mais de 12 estaleiros e, hoje, este é o único que sobreviveu». Não obstante todas as contrariedades e a falta de apoio de outras instituições, a perseverança da família conseguiu perdurar, ultrapassando, há pouco tempo, mais uma maré difícil. Aquando da construção do empreendimento ‘Cais de Gaia’, o estaleiro esteve em risco de ser demolido de forma a dar lugar ao prolongamento daquele empreendimento.

António Sousa relembra esses maus momentos apontando como causa principal uma grande falta de sensibilidade cultural por parte dos responsáveis: «diziam-me que o estaleiro tanto podia ser ali como noutro sítio qualquer, que não viam qualquer relação especial com o local...» Ora, na opinião do proprietário da SOCRENAVAL, «isso será quase como dizer que as gôndolas italianas podiam ser feitas na China...!», reforçando que a relação com o rio e com as caves é essencial para manter vivo este símbolo cultural.

Nesta contenda, foram muito importantes todos os apoios que, em conjunto com os órgãos de comunicação social e o apoio governamental do ex-presidente da Junta de Freguesia de Vila Nova de Gaia, Fernando Peixoto, mobilizaram a opinião pública e os órgãos centrais para esta questão tão sensível. Hoje, António Sousa refere que não existe qualquer ressentimento, considerando que «o Cais de Gaia foi muito importante para a animação, visibilidade e rentabilização da zona».

Neste momento, as Caves de Vinho do Porto são candidatas a Património Mundial, o que possibilita perspectivas de crescimento para a SOCRENAVAL, nomeadamente, a criação de um outro estaleiro na zona da Afurada. Por agora, os barcos ‘Rabelos’ são utilizados, uma vez por ano, na Regata de S. João que é promovida pelas Caves, num esforço para impedir a degradação das embarcações.

À excepção dessas poucas horas por ano em que se vêem a navegar no rio, permanecem fundeados no Douro, servindo de suportes publicitários. De acordo com António Dixo de Sousa, «seria interessante animar o rio, organizar formações e cursos para ensinar as pessoas a navegar os ‘Rabelos’, organizar mais regatas». De facto, não há falta de interesse de estrangeiros que procuram, cada vez mais, partir num ‘Rabelo’ à descoberta do Douro. E também estes visitam o estaleiro, questionam os processos de construção das embarcações e interessam-se pela sua preservação.

Todavia, não são só os turistas que procuram este estaleiro e tentam saber da continuidade deste ícone portuense: também os órgãos de comunicação social estrangeiros o fazem. «É preciso que as pessoas se virem para o rio», afirma António Sousa. E talvez, assim, as pessoas passem a sentir as águas do Douro e a conhecer os seus recortes, navegando nos seus barcos, que há tantos anos, desenham o seu percurso.