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28 maio, 2005

Porto redescoberto

Por: Maria Manuel Freitas

Nos dias de hoje, poucos serão aqueles que se recordam ou sabem que o Porto tinha uma fábrica de chumbo, situada perto da Igreja de S. Francisco... E haverá quem conheça o forte escondido junto à Ribeira da Granja?...

Estes são apenas alguns dos exemplos que fazem parte da história do Porto e que, se ainda hoje os conhecemos é, em grande parte, graças a pessoas e organismos que trabalham para identificar e dar a conhecer estas memórias da cidade.

É com este intuito que a Divisão do Património Cultural (DPC), através do projecto do Inventário do Património Arquitectónico do Porto (IPAP), está a desenvolver um trabalho que tem como objectivo principal o registo topográfico e sistemático de todos os edifícios da cidade do Porto para, em seguida, avaliar o seu interesse patrimonial, independentemente da sua tipologia ou época de construção.

Dentro deste objectivo e nesta segunda fase, o projecto vai debruçar-se sobre quatro freguesias: Cedofeita, Lordelo, Massarelos e Ramalde. Após a concretização desse primeiro objectivo, será feito o tratamento informático do material produzido e, no próximo ano, vai ser produzido um CD-ROM para as escolas do ensino básico e secundário das freguesias acima referidas.

Entre 1998 e 2000 decorreu a primeira fase do IPAP, que serviu para a definição do método de inventário e da arquitectura do sistema de informação. O segundo projecto teve início em Junho de 2004.

Assim, cabe ao IPAP fazer o levantamento sistemático do património arquitectónico e paisagístico das quatro freguesias já referidas, através de uma equipa de profissionais, nomeadamente arquitectos, licenciados em História e informáticos, com o apoio da DPC.

Através do IPAP pretende criar-se um Banco de Dados sobre a Cidade, com informação sobre o seu património edificado para que, conhecendo ao pormenor a cidade, seja mais fácil incentivar e alertar o público em geral para a preponderância que há na preservação do património que, afinal, é de todos. A data prevista de conclusão deste projecto está prevista para o final de 2006

Fórmulas para cidades do futuro

Porto e Maia são duas cidades vizinhas também na tentativa da preservação dos seus espaços, dentro das características que as diferem. Na Maia, uma cidade entre o urbano e o rural, o ambiente está em primeiro lugar, no Porto, a preservação do património é, entre outros, um dos primeiros passo para a preservação da cidade.

Por: Maria Manuel Freitas

A preocupação e os investimentos no sector do ambiente podem servir de exemplo para outros municípios. Há vinte anos, numa atitude pioneira, a Câmara Municipal da Maia (CMM) introduziu as questões ambientais na estratégia de desenvolvimento do concelho.
Desde então, têm sido várias as apostas deste município: abastecimento de água para consumo humano, ETAR’s (drenagem e tratamento de águas residuais), gestão dos resíduos sólidos, reciclagem multimaterial dos resíduos, acções de Educação Ambiental e a recolha selectiva porta-a-porta.

Por todas estas actividades e projectos, o lema mantém-se. Prova disso é, por exemplo, o Workshop “Plano Estratégico de Desenvolvimento Sustentado da Área Metropolitana do Porto”, realizado em Outubro. Este encontro «reuniu presidentes de Junta, técnicos do ambiente, professores e munícipes, com o objectivo de debater os principais problemas ambientais do concelho, fazer um diagnóstico sobre o que preocupa a população, o ordenamento do território, entre outros», conforme nos disse Helena Lopes, directora do Departamento do Ambiente da CMM.

O sucesso destes e de outros projectos passa, em grande parte, pela adesão da população. Felizmente, «as pessoas estão cada vez mais sensíveis às questões ambientais e uma prova disso são, por exemplo, as reclamações apresentadas pelos munícipes ou os alertas feitos para a Câmara de diversas situações como a existência de lixeiras a céu aberto, problemas de ruído, entre outras», como refere esta engenheira.

Além disso, os mais novos também são munícipes e é a pensar neles que a Câmara promove acções de Educação Ambiental, cujo fim é criar infra-estruturas destinadas à deposição voluntária de materiais pré-separados em casa pela população, para serem, posteriormente, reciclados.

Acresce, ainda, um desafio como é o da Quinta da Gruta, situada no Castêlo da Maia, «onde os mais jovens poderão usufruir de uma quinta com animais, estufas e laboratórios, para aprenderem coisas como plantar vegetais, recolher leite e produzir lacticínios, fazer pão, colher fruta e fazer compotas, etc. Além da vertente da Educação Ambiental, que reúne campanhas, visitas de estudo, exposições e a comemoração dos dias relativos ao ambiente», como refere Helena Lopes.

A construção de Ecocentros, de uma rede progressivamente mais alargada de Ecopontos e, mais recentemente, da recolha selectiva porta-a-porta, são uma constante nas preocupações da cidade da Maia. A finalidade deste projecto é a recolha de materiais destinados à reciclagem (papel, cartão e embalagens) e dos restantes resíduos não valorizáveis.

Outro valor fundamental para a CMM é o apoio constante aos seus munícipes. O Departamento do Ambiente está estruturado em três divisões: Qualidade de Vida, Ambiente e Espaços Verdes, sendo a primeira divisão (Qualidade de Vida) aquela que está mais voltada para o consumidor. Este sector trata de tarefas como a educação ambiental, um Gabinete de Apoio aos Consumidores, um Posto de Atendimento ao Consumidor e um Tribunal de Atendimento ao Consumidor. Este tribunal dispõe de acordos com a DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, para que, deste modo, o consumidor e munícipe possa fazer valer as suas reclamações e direitos por via legal.

Contudo, convém que a Câmara continue a investir na melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes, pois de acordo com alguma população ouvida, há sempre muito para fazer e ensinar às pessoas. Francisco Silva, por exemplo, é funcionário no Ecocentro do Castelo da Maia e defende que «a Câmara devia investir em seguranças nocturnos para os Ecocentros, para evitar que haja mais roubos e vandalismo nas instalações e que as pessoas deixem o lixo à entrada do Ecocentro durante a noite».

Para o futuro, Helena Lopes adiantou-nos a existência de um projecto «ambicioso, ainda em fase de construção, com localização na freguesia de Santa Maria de Avioso, e que, se tudo correr bem, estará disponível para a população a partir do próximo ano. Trata-se uma zona verde com uma área de terreno bastante grande, destinada essencialmente ao lazer e à prática de exercício físico».

26 janeiro, 2005

Gil Eannes: Segredos da história de um barco parado

«Isto era o Deus que aparecia aos pescadores, porque era aqui que iam as encomendas que as mulheres enviavam para os homens que andavam na pesca à linha».

Por: Madalena Nevado

Com um sorriso nos lábios e um olhar que transmite alegria e saudade, Pedro Lima Ribeiro, de 71 anos de idade, está sentado numa das salas do Navio-Museu Gil Eannes e recorda os oito meses que lá passou, exercendo a profissão de electricista.

Pedro Ribeiro entrou pela primeira vez no Gil Eannes em 1958. Acabado de chegar no navio Angola para passar a Páscoa com a família e a namorada na sua terra natal, Viana do Castelo, recebeu um convite de um amigo. Segundo Maquinista, com quem tinha trabalhado no paquete Serpa Pinto.

O Gil Eannes era o suporte de toda esta frota nos seus mais variados aspectos, desempenhando, simultaneamente, funções de ‘embaixador’ - representante dos portugueses e de Portugal em diversas regiões do globo e em locais tão distantes como a Gronelândia e a África do Sul.
Durante esta viagem, Pedro Ribeiro viveu experiências que o fizeram ter muito orgulho em ser português.

Se o atracar de um navio de pesca no porto de St. John’s era caso para deixar os residentes cautelosos, o mesmo não se verificava em relação ao Gil Eannes. Este gozava de um prestígio enorme nos portos da Terra Nova, em especial no porto de St. John’s na Gronelândia: «Usufruía de um estatuto único. Era-lhe permitido sair e regressar a este cais sem tratar de qualquer documentação, bastando um simples telefonema para o capitão do porto e para a Alfândega», recorda o antigo electricista.

Para além dos pescadores, viajaram com Pedro Ribeiro algumas pessoas ilustres. Foi o caso de Bernardo Santareno: «Ele chamava-se Martinho, que era o seu pseudónimo. Era um dos três médicos que aqui trabalhavam», lembra. Foi a relação com estes médicos que lhe permitiu ter um contacto mais directo com a medicina. Recorda, com uma certa vaidade, que assistiu a várias operações: «Assisti a 72. Eu era o assistente oficial. Cabia-me preparar a sala que, naquela altura, tinha que estar quente», recorda.

Enquanto navio hospital, o Gil Eanes recebia vários pedidos de socorro de outros navios, não só para situações de resgate como também para assistirem doentes com prognósticos variados. Desde homens com «tromboses, que chegavam como mortos, a feridos graves que tinham que ser assistidos de imediato», recorda Pedro Lima Ribeiro. Com muita mágoa, visível pelas lágrimas nos olhos e pela voz que teima em não sair, lembra a morte de um companheiro de viagem que, «apesar de todos os esforços por parte da equipa médica, não sobreviveu».

Havia, no entanto, situações em que a sua nacionalidade o deixava um pouco desconfortável.

Em St. John’s, quando os nossos pescadores chegavam, davam um alerta geral a avisar os habitantes que havia portugueses em terra, para se prevenirem contra os roubos. Na época, os nossos pescadores, quando em terra, roubavam tudo o que lhes aparecia pela frente: roupas que estivessem a secar, triciclos das crianças, comida, tudo o que podiam", lembra. Isto acontecia com os navios dos pescadores que andavam na pesca à linha: «No Gil Eannes vivia-se em ambiente de autêntico luxo, em relação aos outros navios de pesca. Esses viviam na miséria», diz Pedro Ribeiro.

O convite apanhou-o de surpresa, porém, respondeu de imediato: «Eu faço a viagem no Gil Eannes, desde que possa passar a Páscoa em Viana do Castelo. E assim foi: recebi o telegrama a perguntar se aceitava embarque e eu aceitei».

Apesar de já conhecer o Navio e a sua importância, quer para os homens que pescavam nos mares da Terra Nova e Gronelândia, quer para Portugal, foi nesta viagem que Pedro Lima Ribeiro se certificou da sua grandeza: as suas actividades humanitárias, sociais e, mesmo, políticas.

A assistência multifacetada que o navio exercia a favor de todos aqueles que tinham necessidade de recorrer aos seus serviços de apoio valeu-lhe, por parte de toda uma frota de mais de 70 navios, a designação de "Anjo da Guarda". Essa assistência era prestada a navios e tripulações de uma forma gratuita, independentemente da nacionalidade.

A história do Gil Eannes

A história do Gil Eannes começa no ano de 1916. Aquando da I Grande Guerra, um cargueiro alemão é retido num porto nacional. O Lahneck, assim se chamava o cargueiro a vapor, foi rebaptizado com o nome de Gil Eannes e foi este que fez a primeira assistência aos navios de pesca nos mares da Terra Nova no ano de 1927. Esta situação manteve-se até ao ano de 1942.
No dia 19 de Março de 1955 foi posto a flutuar nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo o Gil Eannes dos nossos dias.

Um Navio Hospital dotado de meios médicos, de assistência, enfermarias, sala de tratamento, gabinete de radiologia, bloco operatório, capela e até salas de lazer que prestava uma assistência médica compatível com a dignidade humana dos pescadores do bacalhau. Tinha capacidade para 72 tripulantes, 6 passageiros, 74 doentes e dispunha de câmaras frigoríficas.

Durante vinte anos desempenha as funções de rebocador, salva-vidas, quebra-gelo e abastece os navios de pesca. O Gil Eannes envelhece e deixa de ser útil. Atracado no Cais da Rocha é mais tarde vendido para abate à empresa Baptista & Irmãos, Lda.

Posteriormente, o Gil Eannes é adquirido pela Comissão Pró Gil Eannes, devolvido à sua terra natal, recuperado e encontra-se neste momento na antiga doca comercial de Viana do Castelo, como Navio-Museu e onde funciona uma Pousada da Juventude flutuante. Hoje o Gil Eannes é o ex-libris da Cidade de Viana do Castelo.

Rio das Pedras

Ao Brasil também temos por hábito associar as favelas. É habitual relacionarmos os morros do Rio de Janeiro com esses bairrosque descem as encostas...

Por: Amanda Alves

As favelas surgiram na cidade maravilhosa, nas muitas encostas dos terrenos acidentados que caracterizam a cidade do Rio de Janeiro: como a construção de casas nesses locais é difícil, os terrenos baixam para um preço insignificante. Daí que as favelas se encontrem nos morros.
O que também caracteriza esses aglomerados habitacionais é o enorme tráfico de armas e drogas e a consequente violência. O Rio de Janeiro é uma das cidades mais violentas do Mundo devido a existir, dentro dela, um excesso de favelas com os maiores cabecilhas do tráfico de drogas. Por exemplo, em comparação, o número de favelas em São Paulo com indícios de violência é drasticamente menor.

No entanto, no meio de tudo isso existe uma favela que, em vez do morro, fica situada no bairro mais promissor e rico da cidade: a Barra. E, para além de fugir a essa "regra", existe uma característica muito mais atípica: nessa favela não existe nenhum tipo de tráfico, nem de violência. Esse sítio chama-se Rio das Pedras.

Numa visita, a primeira reacção comum é o medo. O medo de entrar numa favela, num "sub mundo" social de que tanto se ouve falar mas que poucos têm a coragem de encarar. Depois de muitos se terem negado a acompanhar a reportagem da PESSOAS, conseguimos um ‘guia’. Mário Antunes, filantrópico por natureza, presta solidariedade. Mário trabalha num centro espírita e já há 6 anos auxilia aquela comunidade a vários níveis: com oferta de cestas básicas, com medicamentos e material escolar. Auxilia no que pode. Mas, principalmente, ele doa compreensão, amor, respeito e carinho àqueles seres humanos. Com Mário Antunes, pudemos compreender a história daquelas gentes e daquele local.

Mais de 95% das pessoas que vivem em Rio das Pedras não são do Rio de Janeiro. Vieram de estados brasileiros pobres e longínquos à procura de melhor qualidade de vida. Uniram-se naquele local por estar ao lado de um rio que, na altura, era limpo e cheio de peixes e, como o terreno é pantanoso, o preço da terra era insignificante. No entanto, quem lá vai pode verificar que os chamados "favelados" não são o que se pensa: são pessoas de muito carácter e dignidade, que lutam por uma sobrevivência dura.

Tonha, uma mulher de 26 anos e com 6 filhos, vive numa das muitas barracas da favela. Nessa barraca onde todos vivem, na realidade só cabem, no máximo, duas pessoas. Não tem casa de banho, não tem cama (apenas um estrado de madeira onde todos dormem), o chão tem uma inclinação bastante acentuada, pois a terra pantanosa daquela zona vai-se desmoronando com o tempo. Também chove lá dentro. Talvez estas características já sejam mais que suficientes para descrever o que é morar ali. Apesar disso, Tonha recebeu-nos com muito carinho. De tez muito morena, de cabelo desgrenhado, de olhos castanho fosco e com um sorriso muito desdentado, Tonha constrói uma expressão que lhe soma mais 20 anos aos que tem, numa força repetidamente cansada mas inesgotável, bem visível no cuidado que tem com as poucas roupas, o mais bem cuidadas possível, que os seus filhos trazem vestidas.

«O Estado nada faz por nós, excepto em época de eleições. Aí vêm oferecer algumas cestas básicas e prometer mundos e fundos que nunca cumprem», conta Tonha. Salienta também, que o acesso aos bens essenciais é muito complicado. Para se chegar a uma farmácia é necessário, primeiro, percorrer vários caminhos enlameados que, à noite, pouca luz têm e, depois, esperar para apanhar mais dois transportes. Sem mencionar as escolas e hospitais inexistentes... "Para três dos meus filhos entrarem na escola, tive que dormir durante duas semanas seguidas na frente do portão para arrumar vaga e, mesmo assim, não consegui para todos", referiu, ainda, Tonha.

Antes de morar ali, esta mulher nasceu e viveu na Rocinha, a favela mais marcada pela violência e pelo tráfico de toda a América do Sul. A sua mãe ainda vive lá.

Depois de constituir família, Tonha mudou-se para Rio das Pedras. Não aguentava viver, a cada dia, rodeada pelo medo e pela insegurança. «Havia tiroteios a toda a hora, traficantes que entravam armados na nossa própria casa para se esconderem, policiais revistando tudo. Era horrível. Aqui, em Rio das Pedras, não. Não temos condições como lá, mas vivemos em paz, sem confusão e sem medo. Todo mundo se dá bem e se ajuda», diz Tonha.

Ao sairmos desta barraca, onde as crianças, no meio de máquinas fotográficas e gravadores, só se interessaram por um pobre caderno que trazia nas mãos - queriam escrever e não tinham onde - fomos para casa de uma criança muito conhecida na favela. O Maciel é um menino de 12 anos. Também mora no Rio das Pedras e já tem a seu cargo grandes responsabilidades. Foi ele próprio que as quis. Com uma bicicleta que lhe ofereceram percorre, diariamente, toda a favela à procura de pessoas que possam estar a precisar de auxílio. «Sei que as pessoas precisam de ajuda e, por isso, não consigo ficar parado vendo-as sofrer. No que puder, ajudo sempre, ou então peço apoio», conta.

Maciel andou de hospital em hospital, pelo Rio de Janeiro, até encontrar uma vaga para uma senhora que vivia numa rua da favela e que precisava de uma cirurgia à bexiga, com muita urgência. Graças a isso, essa mulher está viva.

Apesar de, com a sua mãe e irmã, ter ido parar a Rio das Pedras, fugidos de casa devido à violência doméstica perpetrada pelo pai, Maciel revela com uma sinceridade emocionante: «Sei que o meu pai é assim, mas eu já o perdoei e hoje sou muito feliz. Sei que levo uma vida miserável, sem condições, mas sou feliz». O menino diz que gosta de viver no Rio das Pedras: «todos são amigos e tentam fazer o bem ao próximo».

Maciel nunca faltou às aulas na vida e é o melhor aluno da escola. É um princípio para realizar o seu maior sonho: ser advogado. «Se conhecer as leis, posso ajudar ainda mais pessoas», diz.
Visitámos ainda Fernanda, uma menina da mesma idade do Maciel e que tenta seguir as suas pegadas. A sua casa é uma das melhores da favela e, por isso, sempre que podem, ajudam os outros, apesar de as suas histórias de vida serem igualmente duras.

Para desvendarmos o porquê desta favela ser tão pacífica, descobrimos que existe a chamada "polícia mineira" - um grupo de homens vindos do Estado de Minas Gerais e que defende os interesses do lugar. Andam pelas ruas com uma ‘peixeira’ - uma faca muito grande, assim designada por eles, e que sabem utilizar com mestria - para manterem a ordem e assegurarem a tranquilidade dos moradores. Quem fugir às regras, pode arriscar a vida.

Pantanal

No interior da América do Sul, o Pantanal Matogrossense é a maior extensão húmida do planeta e uma das mais exuberantes e diversificadas reservas naturais do Mundo. Por essa razão, a UNESCO reconheceu-o como Património da Humanidade.

Por: Amanda Alves

Esta zona foi descoberta pelos bandeirantes do século XVIII, que a colonizaram respeitando os pantaneiros (nome dado aos habitantes desta zona que, na altura, eram os índios e hoje, os seus descendentes). Daí que, passado mais de 200 anos de ocupação e exploração económica, a natureza continue praticamente inalterada.

Todo o Pantanal faz parte da bacia do rio Paraguai, constituindo-se uma imensa planície de áreas alagadas. A união deste factor com o clima e o relevo favoreceram o desenvolvimento das várias espécies animais e vegetais que povoam toda a sua extensão.

Todavia, precisamente por isso, têm-se verificado vários problemas ambientais, tais como a pesca predatória, a caça de jacarés e a poluição dos rios devido ao mercúrio utilizado nos garimpos do ouro e dos diamantes, que mata várias espécies de peixes, entre outros animais. O Estado do Mato Grosso tenta sanar este problema através de uma vigilância mais cerrada. Mas essa parece ser uma tarefa impossível perante a imensidão da região.

No entanto, ao contrário do que se possa pensar, o aumento do turismo no Pantanal tem servido para diminuir estes problemas ambientais. O eco-turismo - que não é mais do que uma observação e consciencialização da fauna e da flora existente, através de actividades aventureiras que saciam o nosso instinto – revela-se um factor importante de equilíbrio ambiental.

Prova de que o Pantanal é um lugar onde se preza a preservação do natural, é que ainda existem nove tribos indígenas distintas que habitam no seu local de origem, embora tenham sofrido, inicialmente, com a chegada dos brancos, que traziam consigo doenças e novos costumes.

Este é um lugar maravilhoso que, em tempos, poderia ter sido o tão almejado "Eldorado", imaginando como seriam as ruas calcetadas de pedras preciosas, fruto da tamanha quantidade de preciosidades que se encontravam nas minas e nos fundos dos rios.

Hoje, só nos resta dar uso à imaginação ou ver fotos deste passado verdadeiro, de que o homem, com a sua ganância, usou e abusou.

Barrinha de Esmoriz

Muito se escreve e se fala da necessidade de protecção do meio ambiente. Pouco ou nada se faz. Esquecem-se os problemas ambientais ou, simplesmente, ignoram-se?

Por: Maria Helena Oliveira

Quando entrámos pela primeira vez no Palheiro Amarelo, adquirido e reabilitado pela JUVEDREP (Juventude Desportiva e Recreativa Esmoriz Praia), percorremos as suas divisões e tivemos a sensação de estar numa visita guiada pela Barrinha de Esmoriz. Ao longo das paredes estão espalhadas fotografias da lagoa e podemos ver, com clareza e nitidez, os barcos atracados e a sua ligação natural com o mar. Surge, entretanto, uma dúvida: Era esta a lagoa? Somos, então, convidados a um regresso ao passado.

No monitor do computador as dúvidas começam a dissipar-se. Era um filme dos anos 70. Mesmo sem som, conseguíamos ouvir os risos e a satisfação daqueles que lá estavam. A lagoa tinha águas cálidas e transparentes, realizavam-se campeonatos de voleibol e natação e faziam-se passeios de barco. Era um local de convívio e de lazer.

Enquanto vemos o filme, José Ribeiro e Pedro Cunha, elementos da JUVEDREP, falam, com tristeza, do estado actual da lagoa. José Ribeiro recorda que, à semelhança de outros habitantes da terra, também ele aprendeu a nadar nas águas da Barrinha.

O caminho da degradação

O crescimento industrial e urbanístico ditou, nos anos 80, o caminho da Barrinha de Esmoriz até aos dias de hoje. Os interesses materiais sobrepuseram-se aos interesses ambientais. A continuidade da lagoa estava ameaçada, a poluição começava a ser uma realidade. A água transparente deu lugar a uma água poluída.

As causas da sua poluição prendem-se com os efluentes domésticos e industriais porque são encaminhados para as duas principais ribeiras que nela desaguam: a ribeira de Rio Meão, na freguesia de Paramos, e a Vala de Maceda, também conhecida por Rio Lambo, na freguesia de Esmoriz. Os níveis de poluição são, no entanto, mais acentuados na ribeira de Rio Meão, devido às inúmeras fábricas de papel do concelho de Santa Maria da Feira.

Continua com vida

A lagoa, apesar de poluída, não é uma lagoa sem vida. Embora seja um espaço pequeno, é um ecossistema rico e natural repartido por dunas, campos agrícolas, pinhal e meio aquático. Em 1999, segundo o Fórum Ambiente, era possível contabilizar na Barrinha cerca de cem espécies de plantas, 190 de aves, sete de anfíbios, cinco de répteis e, pelo menos, 15 de mamíferos.

Promessas esquecidas Preocupado com os níveis de poluição na Barrinha, o então primeiro-ministro Português, António Guterres, deslocou-se, em 2000, à cidade de Esmoriz. De acordo com uma notícia publicada no jornal de Ovar, Guterres prometeu, então, aos esmorizenses, "num discurso carregado de preocupação e angústia", uma lagoa despoluída, já em 2003. Porém, foi em 2003 que a Barrinha de Esmoriz abriu todos os noticiários televisivos e primeira página de vários jornais nacionais: as sucessivas descargas desse ano interditaram as praias e culminaram na perda da Bandeira Azul.

A JUVEDREP associou-se ao Movimento Pró-Barrinha e, cansados das promessas políticas, uniram-se por uma causa: exigir a despoluição da Barrinha. Escolheram as festividades locais para organizar um buzinão em terra, ar e água e exigir um projecto despoluidor.

Arranque do Projecto

O Projecto de Despoluição da Barrinha de Esmoriz teve início em Junho deste ano e pretende reabilitar aquela que, em tempos, foi o ex-libris da cidade e se transformou no mais grave problema ambiental da zona Norte do país.

O Projecto, segundo Alcides Alves, Presidente da Junta de Freguesia de Esmoriz, tem três fases. A primeira consiste no tratamento dos efluentes industriais provenientes do Concelho da Feira, Ovar e Espinho e está a cargo da SIMRIA ( Sistema Intermunicipalizado de águas da Ria de Aveiro). As fases seguintes consistem na despoluição da Barrinha e no aproveitamento que todo aquele espaço. «Numa visão optimista - refere o autarca – espera-se que esteja concluído já em 2010».

José Sá Ferreira, considerado pela população como maior defensor da Barrinha, escreveu num dos seus livros: "A nossa lagoa, uma vez morta, é pouco crível que volte algum dia a ser ressuscitada". As expectativas são, por isso, grandes.

26 junho, 2004

...nos jardins do Palácio

Por: Ana Isabel Silva

Construídos nos finais do Séc. XIX, os jardins do Palácio de Cristal apareceram «numa altura em que, em todo o mundo, existia uma tendência para o coleccionismo botânico», como explica Luís Xavier, biólogo e responsável por aquele parque. Inicialmente situados em redor de uma extraordinária estrutura em cristal e ferro, que também servia de estufa para raridades botânicas, o local que os jardins hoje ocupam é um dos mais belos do Porto.

O Pálácio de Cristal foi inaugurado em Setembro de 1865, no âmbito de uma grande Exposição Internacional. Logo nessa altura, o edifício não passou indiferente ao público, permanecendo aberto até ao princípio do ano seguinte. Por falta de receitas provindas das suas actividades culturais, o Palácio seria adquirido pela Câmara Municipal do Porto, em 1934. Mais tarde, seria demolido e substituído por um novo pavilhão, inaugurado em Outubro de 1952, com vocação desportiva, especialmente para acolher os populares jogos de hóquei em patins. Recentemente, o edifício seria designado Pavilhão Rosa Mota, em honra da conhecida e prestigiada atleta portuense.

O Palácio de Cristal caracteriza-se por ser um pavilhão multi-usos, onde decorrem diversos acontecimentos e actividades culturais e desportivas, continuando cercado por belos jardins. O Palácio (a expressão por que é hoje conhecido) é o centro de uma imensa área verde, onde coexistem centenas de espécies da flora. De acordo com Luís Xavier, «nestes jardins, há centenas e centenas de espécies vegetais e, mesmo, plantas exóticas oriundas da Austrália e Nova Zelândia». Isto para além das diversas espécies animais que fizeram desses jardins o seu ‘habitat’.

Resguardados pela beleza dos jardins do Palácio, é fácil esquecemos o ‘stress’ e as buzinas da cidade, repousando num dos muitos bancos espalhados pelos recantos do parque. O canto dos pássaros, o verde que nos rodeia, as fontes que borbulham, os lagos, a vista sobre o rio Douro – tudo nos remete para outros tempos, mais calmos.

Joaquim Silva, presença assídua nos Jardins, confessa que este é um lugar de eleição: «Aqui, encontro-me com os amigos, jogamos cartas e conversamos sobre o futebol...». Olinda concorda com esta visão. Mas tem um reparo: «Só é pena os namorados virem para cá fazer tantas poucas vergonhas! No meu tempo, o jardim era um espaço para namorar, mas de uma outra forma, com mais respeito».

Mas o jardim é muito mais! Oficinas e espaços lúdicos utilizados pelas crianças e adultos nos tempos livres, a Biblioteca Almeida Garrett e, ainda, o Museu Romântico. Os ‘workshops’ temáticos que aí se realizam com frequência são um dos motivos que levam a este espaço a estudante de Artes, Gabriela Mendes: «Já cá estive num Workshop sobre reciclagem e utilização de papel.

O Jardim é um lugar onde busco inspiração para desenhar e fotografar». Para o malabarista Américo Jorge, «o Palácio é um lugar de encontro com o grupo Artes Circenses, de que faço parte. Ainda há quinze dias, realizou-se, aqui, um encontro de malabaristas».

O Porto de fachada: os rostos de uma cidade abandonada

Se existe cidade bonita em Portugal, chama-se Porto. Quem dentro dela viaja, depara-se com uma cidade que, sendo Património Mundial, goza de uma arquitectura única, de pontes de diversas estéticas, de monumentos históricos. E, sobretudo, de fachadas lindíssimas...

Por: Ana Isabel Silva

O que fica de fora, mas não longe dos olhares dos turistas e dos visitantes, são as muitas fachadas que se vão degradando em ruas estreitas. O problema das fachadas degradadas não é simples. Na maioria das situações, fazem parte de casas particulares cujos proprietários não têm uma situação financeira que lhes permita a manutenção dos edifícios. E a maioria não tem conhecimento sequer da existência de fundos subsidiários, ou de programas de reabilitação de associações que se ocupam destes assuntos.

A docente de Planeamento e Projecto do Ambiente da Universidade Fernando Pessoa, Filipa Malafaya, conhece bem a dimensão do problema: «No Porto, existem alguns programas de reabilitação física das fachadas, especialmente nas freguesias que integram a zona histórica, considerada património da humanidade, e para a área envolvente». A questão reside no facto de os subsídios que são atribuídos implicarem sempre um investimento por parte dos proprietários. Um assunto que, no entender de Filipa Malafaya, não está devidamente esclarecido: «Não existe uma clarificação na abordagem que se faz às pessoas, no sentido de as levar a procurar esses subsídios».

Enquanto os programas de reabilitação das fachadas são ignorados, para Avelino Oliveira, licenciado em Arquitectura, o problema da degradação das fachadas na cidade do Porto assenta, antes de mais, na falta de investimento dos particulares: «As rendas cobradas pelos senhorios são baixíssimas, o que não lhes permite ter receitas para promover obras».

Mas há uma outra vertente nesta questão, associada a um fenómeno actual na cidade do Porto: o êxodo populacional do centro para a periferia: «A saída da população do centro da cidade provocou uma recessão que torna muito difícil inverter o processo de degradação. Senão repare, sem investimentos para o centro do Porto como é que conseguimos ter a cidade em constante actualização?», pergunta Avelino Oliveira, insistindo na necessidade de injecção de fundos do Estado na requalificação dos edifícios degradados.

O problema não tem sido esquecido pela Câmara Municipal do Porto. O arquitecto Patrício Martins explica que o município pode intervir num edifício em más condições de conservação, «embora o faça apenas em situações extremas, quando ele ameaça ruína e se transforma num perigo público». A verdade é que a degradação das fachadas é apenas uma parte do problema geral da conservação dos edifícios, já que, na maioria das vezes, uma fachada não mostra a verdadeira situação do edifício.

O mais grave é que a degradação tem avançado a um ritmo vertiginoso e à vista dos portuenses. Uma das soluções apresentadas pela Câmara do Porto prende-se com novas leis. «Foi criada uma nova legislação que permite a constituição de sociedades empresariais cuja finalidade é reabilitar as partes antigas da cidade - as S.R.U.A. (Sociedades de Reabilitação Urbana)», explica Patrício Martins.

Requalificação de Gaia

Gaia está diferente. Junto ao rio Douro, há uma nova cidade nascida de vários projectos: um novo espaço onde música, cheiros, cores e sabores se misturam criando um ambiente desenhado para o lazer. As alterações na marginal de Gaia são bem visíveis. Remova-se o caos gerado pelas obras do Metro, e a paisagem da ‘rive gauche’ do Douro atrai.

Por:Liliana Leandro

A necessidade de recolher os esgotos da parte mais antiga da cidade de Gaia (escarpa da serra do Pilar e armazéns de vinho do Porto) para despoluir o rio Douro, levou a que a empresa municipal Águas de Gaia, responsável pelo saneamento da cidade, instalasse um tubo emissário por toda a costa, capaz de transportar os resíduos até à estação de tratamento na Madalena.

A colocação desse tubo, desde a Ponte D. Luís I até à ETAR, implicou o levantamento dos arruamentos que, juntamente com os passeios, foram reconstruídos ao longo dos cinco quilómetros compreendidos pela obra. O custo total do projecto foi de 12.5 milhões de euros (cerca de 2.5 milhões de contos), financiado pelo fundo de coesão europeia em cerca de 70%. Mas o resultado foi considerado um sucesso, do ponto de vista do melhoramento das infraestruturas.

Cais de Gaia quer ser um novo espaço de animação e lazer

Mesmo junto ao Douro, e em frente às caves de Vinho do Porto, ergue-se um edifício peculiar pelas suas características e aspecto inovador. Inaugurado em Maio de 2003, o Cais de Gaia é já um sucesso na noite gaiense. Este novo espaço de lazer é procurado a qualquer hora do dia por quem quer usufruir dos mais de 27 mil metros quadrados de explanadas, lagos, bares e cafés.

A obra começou em Dezembro de 2000, em paralelo com a instalação do emissário pela Águas de Gaia. As frentes de água representam, inevitavelmente, uma atracção turística. A ideia nem sequer é nova: veja-se a Expo-98, actualmente o Parque das Nações, em Lisboa. Em Gaia, esta estrutura veio reconverter um espaço «outrora desconfortável e sem restauro possível», como explica Nuno Rodrigues, da empresa Douro Cais.

Com cerca de 30 estabelecimentos comerciais, o Cais é um espaço pensado para poder acolher pessoas de todas as idades e classes sociais, tornando-se, indubitavelmente, num pólo de atracção para o concelho. Os 10 milhões de euros (cerca de 2 milhões de contos) de investimento privado parecem estar a dar o seus frutos: muitos são aqueles que, como João Cândido, estudante de 24 anos, se passeiam neste espaço em busca de «um ambiente aconchegante onde se possa ter uma conversa entre amigos». Já Magda Azevedo, de 23 anos, prefere o Cais «pela variedade de bares e pelo bom ambiente».

A variedade de bares é um dos pontos mais referidos para a escolha deste recinto que, na opinião de Diogo Assunção, de 19 anos, «trouxe sem dúvida benefícios para a cidade de Gaia». Os preços praticados pelos estabelecimentos geram, no entanto, alguma discórdia, já que são muitos os utilizadores que os consideram excessivos: «Acho que há algum exagero», critica Magda Azevedo.

Uma nova cara

A cidade de Gaia possui uma vasta costa com praias bastante procuradas na época balnear. Esta adesão ao litoral gaiense tem justificado, para os responsáveis autárquicos, a forte intervenção urbanística e o avultado investimento financeiro. Junto a essas praias foi construído um passeio pedonal onde os transeuntes podem desfrutar dos benefícios que o ambiente à beira mar e o ar livre podem oferecer.

Numa tarde ensolarada de domingo, ou mesmo ao fim do dia, muitos são aqueles que procuram este espaço. «A obra foi feita no sentido de requalificar a zona e de dar às pessoas condições para poderem usufruir de um bem que está tão perto de nós: o mar e a praia», esclarece Claro Costa, engenheiro responsável pelo projecto.

Esta obra junto ao mar, integrada no Plano Nacional de Ordenamento da Orla Costeira, visa, ainda, a contenção da expansão urbana, a valorização da diversidade biológica e paisagística e a ordenação dos areais e frentes de mar.

Diferentes rumos

Concluídos os projectos levados a cabo pela Águas de Gaia, Câmara de Gaia e Douro Cais, levanta-se a questão do rumo a seguir. Se por um lado os arruamentos estão reconstruídos, permitindo um maior acesso à zona, por outro, existe um enorme manto de armazéns de vinho do Porto que, na opinião de António Martins, da Câmara de Gaia, «se irão deslocar para a zona do Douro, já que a capacidade de armazenagem é muito maior e os custos de mão-de-obra inferiores».

É tomando este panorama como base que a Câmara de Gaia pretende criar espaços de cultura para atrair novos públicos. A Real Companhia Velha poderá ser transformada no futuro Centro Cultural de Gaia, e há planos para a restauração do convento de Corpus Christi, que prevê a sua reconversão num hotel de charme.

Gondomar: em busca da arte perdida

Na capital portuguesa da ourivesaria, há artesãos que se dedicam de corpo e alma a uma prática que parece ter os dias contados. A tradição da filigrana tem cada vez menos seguidores. Mas não perdeu a alma.

Por: Nair Silva

Fernando Silva, de 67 anos, é um dos últimos artesãos na vila de Valbom, no concelho de Gondomar. Sapateiro de profissão, Fernando Silva pretende preservar por muitos mais anos o seu ofício. Mas, não descura o uso dos seus tempos livres, dedicando-se com afinco à escultura de madeiras, raízes e pedra.

Conhecido na vila pelo seu talento inato com as habilidosas mãos, Fernando Silva cedo descobriu as maravilhas da arte: «Isto é um trabalho que não dá lucro, nem dá para sobreviver: para mim, é mais como um desporto», conta o artesão.

Para este artista, a arte representa um refúgio das horas de trabalho: «Estou sempre há espera de um tempo certo para voltar às minhas peças. Isto não é nenhum negócio. E sabe porquê? Não há peças definidas, não há peças iguais. O tempo que passo com cada uma delas é sempre diferente, e é isso que as torna minhas, que as torna verdadeiras. Isto é a minha definição de Arte!».

Gondomar foi, outrora, uma cidade conhecida por ser símbolo de artes como a marcenaria e a filigrana. Mas, com o passar dos anos, Gondomar foi perdendo esta herança genética. Apesar de ainda ser conhecida como a capital da filigrana, a verdade é que vai diminuindo o número de artesãos nestas áreas

A primeira obra

Mas, haverá uma forma de aprender uma arte? Uma arte original? Uma arte preservada? «O meu dia começa com uma busca por pedras, granitos, pedaços de madeira ou raízes» relata Fernando Silva. «A primeira vez, estava eu a ver um programa na televisão sobre escultura e, por brincadeira, decidi imitar o que via. Fui ao rio e agarrei num pedaço de granito. Sobre a água vi os seus brilhos, as formas, as imagens e os feitios. Comecei. Quando acabei tinha um homem sentado num trono, como um faraó. Tinha ali, nas minhas mãos, a minha primeira obra...»

Estava dado o primeiro passo para uma longa caminhada de exposições, feiras e trabalhos em escolas. Fernando Silva continuava maravilhado com as emoções que a escultura lhe fazia sentir. Esculpia cada vez mais, e as pessoas, intrigadas com o seu talento, começaram a visitá-lo em sua casa e a comprar as suas peças em raíz e madeira.

Foi em 1973 que ganhou o 1º lugar do Prémio do Jovem Artista da Câmara Municipal do Porto e sentia-se motivado para alcançar muito mais. Queria levar as suas peças ao mundo, dar a conhecer o seu talento e partilhar com outros as imagens que ele via sempre que apanhava um pedaço de madeira ou de granito.

Foi então que Fernando Silva percebeu o verdadeiro valor das suas peças: um simples papel ou taça não relata o valor do artista, nem o valor da peça. O artista é quem cria o seu próprio estilo.
A filigrana continua a ser um pequeno tesouro do concelho dourado de Gondomar. Trabalhada com perícia e exactidão, deixa, aos olhos de quem vê, uma beleza inigualável. Os pormenores, os feitios, os pequenos (grandes) pormenores. Tudo reunido dá lugar a uma arte que, se não for devidamente protegida, pode entrar em fase de extinção.

José Fernando, artesão de Gondomar, retomou o negócio do seu pai na arte da filigrana. Um pouco descontente com o rumo que esta profissão está a tomar, contou-nos, com matizes de desilusão, o trabalho que faz na sua oficina: «Aqui trabalhamos só com filigranas. Mas isto está mau. É uma actividade que parece, aos poucos, estar a extinguir-se porque as senhoras que fazem este trabalho já são bastante idosas e as filhas não parecem querer continuar. Não é uma arte certa».

Uma arte muito original e, como diz José Fernando, «uma das artes mais antigas ...do tempo dos árabes.» Mas os tempos são de crise, especialmente para uma arte que exige tanto empenho, trabalho, dedicação e apoio: «Todas as coisas têm um princípio e um fim. Esta arte está a chegar ao fim. O mercado não tem ciclos para esta actividade. Não há mercado.»

Futuro incerto

Os apoios continuam a ser escassos e há muito pouca formação profissional. Os amantes da filigrana sabem que não se podem dedicar a ela a tempo inteiro, porque não há encomendas nem trabalho que cubra todas as despesas: «Fazem propaganda para segurar a filigrana. Veja-se o caso de cursos profissionais. Muitos tiram o curso, mas depois não continuam na profissão».

Existe, agora, uma associação que suporta os trabalhos e exposições destes artistas, dando a hipótese de participar em eventos para divulgação dos seus trabalhos e, com isso, retirar algum proveito financeiro e cultural.

A Associação Artística de Gondomar (ARGO) existe desde 1989 e efectua um trabalho notável no ramo do artesanato. Em colaboração estreita com a Câmara Municipal de Gondomar, que desde cedo acarinhou este projecto cedendo o espaço para a formação desta associação, a ARGO tornou-se um espaço de colaboração entre artesãos e também uma forma de trazer um pouco de segurança a uma profissão que se sente pouco valorizada.

Nuno Moutinho, tesoureiro e actual responsável pela associação, realça a originalidade da ARGO: «Esta associação tem um formato muito específico, porque abraça todas as artes. Estamos a falar de quase 50 artistas, do Porto e de outras partes do país. Temos desde artesãos, ‘designers’, escultores, pintores, músicos, poetas e fotógrafos. De qualquer maneira, a ideia foi criar sinergias para dar vida ao individualismo; ou seja, através do associativismo conseguir divulgar a obra de cada um».